Quinta-feira, 27 de Junho de 2019
MORANDO COM O PERIGO

População que reside em áreas de risco teme período de chuvas em Manaus

A sequência de dias chuvosos na capital amazonense têm levado aflição a várias famílias que moram em áreas de risco ou próximo de onde as águas transbordam a ponto de provocar sérios danos



27/12/2016 às 05:00

A sequência de dias chuvosos na capital amazonense têm levado aflição a várias famílias que moram em áreas de risco ou próximo de onde as águas transbordam a ponto de provocar sérios danos. É assim há anos, contaram os moradores para a reportagem de A CRÍTICA. E sem qualquer solução.

Na rua Conservatória, antes conhecida como Ayrton Senna, no bairro Riacho Doce, Zona Norte, os problemas são variados e expõem grande risco à quem vive ou transita por aquele local. No último dia 23 de outubro, um domingo, um forte temporal deixou os moradores ilhados dentro das suas casas. Sem ter como ir e vir, eles tiveram que aguardar por quase 1 hora para transitar livremente no local.

A Conservatória conta com um bueiro gigante a céu aberto que, com a força da água, transborda, bem como o igarapé que passa ao lado da referida rua. A situação continua a mesma de há mais de dois meses.

É à beira desse igarapé que mora a dona de casa Nayara Oliveira, 20, seu marido Victor Rafael e a pequena Sandra Rafaela, de apenas 1 ano. O trio ficou ilhado em meio à água da chuva e do igarapé, gerando preocupação da residência ser levada com a enxurrada. Outra gravidade é que a força da chuva, aliada ao transbordamento do igarapé e à ventania, pode forçar a destruição da casa.

“Quando chove a nossa situação fica ruim porque alaga,o esgoto entope com o lixo, ninguém limpa. E quando limpamos as pessoas sujam de novo e emporcalha a rua toda. Têm senhoras que moram sozinhas, pessoas deficientes. É muito ruim mesmo”, relata a moradora, que não viu, mas ouviu casos de pessoas que caíram no problemático bueiro da rua e conseguiram, por sorte, escapar da morte. 

Ela disse ter medo de morar à beira do igarapé. “Moro aqui há quase dois meses e tenho medo, sim. Em dias de chuva é tenso e sempre fico preocupada. Toda vez que chove quase alaga em casa e sempre ficamos acordados. O pior dia foi mesmo naquele 23 de outubro quando ficamos ilhados”, conta Nayara, ressaltando que a família não tem outro lugar pra morar nem foi cadastrada por qualquer órgão habitacional do Estado ou Município para a aquisição de uma casa própria.

Nada mudou
A dona de casa Idalena Vieira, 35, também é moradora da Conservatória, só que há 11 anos, e diz que nada mudou desde o último dia 23 de outubro. 

A tubulação passa perto da casa dela gera preocupação. Ela teve até que subir o piso da casa pois alagava dentro de casa.

“Continua a mesma coisa  e ninguém fez nada para melhorar. No início de dezembro encheu novamente e já fiz apelos mas até agora nada. A Prefeitura esteve aqui em 14 de maio, olharam, colocaram alguns tijolos e de lá pra cá, em junho, fizeram outro serviço e depois nada mais quanto ao tapamento dos bueiros. “segue o risco de alguém cair dentro dos bueiros. Quando chove isso aqui fica muito perigoso, temos crianças aqui. Independente da mãe cuidar ou não é perigoso. O igarapé ‘corre’ e gera um rebuliço muito grande”, conta ela, enfatizando, também, sua preocupação com a situação do lixo.

Ela lembra que, há pouco mais de um ano, uma criança caiu no igarapé, foi tragada pelo bueiro e por muito pouco não se afogou: ele foi resgatado a tempo e com vida!

“Esperamos que as autoridades olhem por nós, pela segurança das pessoas pois qualquer um pode cair aqui. Até adultos podem cair e, com a força da água, ninguém se segura. Vai tudo e com certeza é prejuízo pra eles mesmos”, clama a moradora.

Morando às margens do igarapé

Moradora de área de risco do Beco São Domingos, bairro Presidente Vargas, Zona Sul, há 42 anos, a dona de casa Iracema Marcelino dos Santos, 66, reluta em sair do local para ganhar um apartamento em uma unidade residencial do Prosamim mesmo após ter parte das bases da sua casa, às margens do igarapé da Castelhana, destruída pela enxurrada. “Minha casa ficou alagada e parte dela caiu na água com a enchente. E mês passado desabou mais. A Defesa Civil disse que me daria um auxilio-aluguel e nada até agora. Disseram que iriam me tirar daqui e já estamos em dezembro e nada. Não tenho outro lugar pra ir. Já fui no Prosamim e até agora nada. Já fazem cinco anos”, disse ela, que reside no local com o marido João Pessoa de Lima, 76, e mais 8 pessoas.

De acordo com a coordenação do Prosamim, Iracema já teve duas oportunidades para se mudar para o residencial Viver Melhor, mas como no apartamento não cabem as dez pessoas da família ela optou por receber a indenização em dinheiro, que poderia chegar até a R$ 38 mil. No entanto, a situação ainda não se definiu.

Casas levadas pelas enxurradas

O industriário Félix de Souza, 39, é um dos prejudicados com as chuvas de terça para quarta às margens do igarapé da Castelhana, no bairro Presidente Vargas, Zona Sul. “Parte da minha casa e do vizinho foram levadas pela enxurrada das águas. A Defesa Civil veio dar uma ajuda mas continua perigoso pois o que eles têm que fazer é desmontar todas as casas. Estamos em uma área de risco e toda chuva é essa peleja caindo uma casa”, disse ele, que na última sexta tentava fazer reparos na casa do vizinho prejudicado. Félix reside no local com a esposa e dois filhos. Sua mãe, que é cadeirante, teve que ir morar na casa de um parente, já que existe a dificuldade de locomoção por cima das pontes de tábuas. “Quando chove eu nem durmo”, conta ele.

Observando a entrevista, o cadeirante Ronaldo da Silva, 46, também reclamava da situação do local: ele também teve parte da casa destruída pelas fortes chuvas. “A situação aqui nunca melhorou. Estou aqui há 46 anos e nunca fizeram nada. Minha casa ‘arriou’ para o lado e se não fosse o banheiro ela teria vindo abaixo com o temporal dessa semana. Toda chuva ela balança. E como eu vou andar com cadeira de rodas por aqui?”, disse ele, com águas nos olhos!

Árvore cai na casa

O aposentado Pedro Costa, 73, teve boa parte da casa de madeira, que estava desocupada, destruída após uma árvore cair sobre ela no temporal de quarta próximo ao igarapé da Castelhana. “A chuva foi muito forte e além da árvore ter caído na casa, ela também cedeu, ‘arriou’. A casa estava fechada e não havia ninguém dentro”, disse. “Vou ver se o Prosa (Prosamim, que é o Programa  Social e Ambiental dos Igarapés de Manaus) me indeniza”, comentou o morador. 

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