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‘Morte e vida severina’ em bueiros da orla de Manaus

Moradores de rua usam buracos e bueiros de estruturas públicas para moradia e sede de pequenos negócios criminosos, como a exploração da prostituição e o tráfico de drogas 21/11/2015 às 16:18
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Em comum, todos são vítimas de alguma forma de dependência química
Náferson Cruz Manaus (AM)

“As drogas acabaram com a minha vida, perdi tudo que eu tinha, a minha família, meu emprego e amigos. Hoje, estou no fundo do poço”. Este é o relato que remonta a trajetória de vida de Orlando Bentes*, 43, de muitos usuários de drogas e de outros que, abandonados, acabaram por ocupar espaços em condições subumanas para se viver.

Ele e mais sete amigos, que se conheceram enquanto perambulavam pelas ruas, vivem entre ratos, baratas e o odor do lixo, dentro de uma tubulação de esgoto. É nesse inóspito lugar, na orla do Amarelinho, no Educandos, Zona Sul, que Orlando lembra de como foi parar ali, como ele mesmo diz, ‘no fundo do poço’. “Eu tinha uma vida normal, como a de todo mundo.

Trabalhava no Distrito Industrial, mas por influência de ‘amigos’ conheci o mundo das drogas e, a partir daí, minha vida tomou outro rumo”, lamentou.Orlando lembra que chegou a receber R$ 8 mil de uma indenização, dos quais R$ 4 mil ficaram com a família e o restante desperdiçou com as drogas. “Agora não tenho mais nada, a minha vida carrego dentro da mochila”, disse.

Na última semana, ele aguardava uma oportunidade de emprego. “Espero que o ‘patrão’ me chame, se isso ocorrer, em uma semana deixo esse lugar e as drogas”, completou Orlando, esperançoso.

Triste estatística

Ao lado dele estava João Henrique Martins*, 34, que fumava um cigarro de maconha enquanto conversava com a reportagem. Ele vive nas ruas do Educandos há dez anos. Contou que saiu de casa após um desentendimento familiar em decorrência da dependência química.

Para sobreviver, ele e os demais companheiros catam latinhas para vender, lavam carros e prestam outros serviços a quem os procura. Às vezes, ou raramente, alguém se solidariza com eles, ofertando um prato de comida.

“Isso acontece, mas é muito difícil. Ninguém vem aqui perguntar se queremos sair ou alguma ajuda, usamos drogas, mas curtimos de forma tranquila, sem perseguir outras pessoas que frequentam a orla do Amarelinho”, disse.

João Henrique faz parte de uma estatística da Secretaria Municipal de Assistência Social e Direitos Humanos (Semasdh) que só tem crescido: desde abril de 2011 até o último mês, 1.285 moradores de rua foram cadastrados pelo órgão, apenas na área central da capital.

De janeiro a outubro foram encaminhados do Centro Pop (Centro de Referência Especializado para População de Rua) para o Serviço de Acolhimento Institucional (SAI) Amine Daou Lindoso 67 usuários para pernoite e quatro para o abrigo.

Reflexo do abandono social

Para o marítimo Onesmo Cordovil Freire, 57, que presta serviço numa embarcação ancorada na orla do Amarelinho, o problema é o reflexo do abandono social. “Muitos jovens vêm para cá fazer o uso de drogas em plana luz do dia.

Enquanto que outros vivem há anos nesta região, entregues ao descaso”. O sociólogo Carlos Santiago diz que a situação da orla de Manaus é um problema que necessita de intervenção urgente.

“Do ponto de vista social é degradante, isso é o reflexo do desemprego, do abandono social e da ausência dos poderes públicos”.

Questões como estas, levantadas pelo especialista, também são comuns na área do porto desativado do São Raimundo, onde usuários de drogas e garotas de programa são identificados com frequência.

A situação causa desconforto aos moradores, como aponta Timóteo Coelho, 52, que perdeu a esperança do que é tranquilidade. “É mais do que um incômodo, é uma reação em cadeia que leva a outros delitos”, disse o morador.

Protesto

Na última sexta-feira, um grupo de 200 moradores do bairro de Educandos, na Zona Sul, realizaram, na orla do Amarelinho, uma manifestação para cobrar do poder público a revitalização do local. Mapeamento A Secretaria Municipal de Infraestrutura (Seminf) informou que tem conhecimento dessa demanda no Amarelinho e que consta no cronograma da pasta realizar um mapeamento das necessidades do local.

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