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Manaus
Transporte coletivo

Motorista defende políticas de segurança para conter violência nos coletivos

Em entrevista concedida para A CRÍTICA, Luis Odilo, um dos fundadores do Instituto Amazônico de Cidadania, criticou SSP por querer tirar dinheiro dos ônibus como medida para conter assaltos 20/11/2016 às 15:50 - Atualizado em 20/11/2016 às 16:21
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Luis Odilo é um dos fundadores do Instituto Amazônico de Cidadania. Foto: Evandro Seixas
Geraldo Farias Manaus

O ativista social, presidente do Instituto Amazônico da Cidadania (Iaci) e motorista de ônibus Luis Odilo afirma que muitos colegas de profissão  estão afastados do trabalho traumatizados pelos assaltos sofridos diariamente no transporte coletivo de Manaus. “Eu sofri uns oito assaltos mais ou menos. Tenho amigos motoristas de ônibus que já foram assaltados mais de dez vezes. Tem um que já está perturbado”, disse Odilo.

Em entrevista concedida para A CRÍTICA, Luis Odilo, que encabeça a lista de cidadãos que mais apresentaram denúncias contra a má gestão do dinheiro público ao MPF, criticou, dentre outras coisas,  a proposta da Secretaria de Segurança Pública (SSP) de tirar o dinheiro dos ônibus como medida para conter os assaltos a coletivos,  afirmando que isso não resolverá o problema. Leia a seguir trechos da entrevista.   

A sugestão da SSP de tirar o dinheiro dos ônibus reduzirá os assaltos?
Pra mim foi surpresa ler a matéria de A CRÍTICA onde o secretário diz que a medida para combater a violência nos ônibus é retirando o dinheiro de dentro dos ônibus. O primeiro erro é que ele fere a legislação que me dá o direito de pagar a passagem com dinheiro ou com cartão. Quando ele diz que eu não posso mais pagar com dinheiro a passagem de ônibus ele está ferindo o meu direito. Eu não sou obrigado a ter cartão no ônibus. O que a legislação me obriga é ter dinheiro para pagar a passagem. Pra mim, causa grande estranheza. Até porque no entendimento de alguns motoristas que eu consultei isso não vai resolver o problema.

Por que a proposta não resolverá o problema?
Primeiro é que vai continuar tendo assalto, porque além de roubar a renda eles roubam também os passageiros. Então para mim não vai resolver nem inibir alguma coisa. É uma insegurança que precisa ser resolvida. O secretário de segurança e seus assessores não procuram os protagonistas, as pessoas que estão sofrendo na carne o problema do assalto o problema da violência. Nunca fomos consultados. Nós poderíamos na nossa simplicidade dar contribuições para a nossa segurança especificamente nos ônibus.

Quais as propostas dos motoristas?
Como a secretaria de segurança sabe o índice de assaltos, porque não colocar um policial não armado nos ônibus? Esse policial fica ligado diretamente com uma viatura e quando ele perceber qualquer suspeita já chama a polícia para que seja revistado e isso cotidianamente poderá inibir. A outra sugestão é das blitzes. Esse policial teria contato com o cobrador e motorista, porque eles sabem onde os ladrões estão e onde vão assaltar. Têm paradas que a gente não pára mais porque a gente sabe que vai assaltar. Quem não sabe e pára é assaltado. Outra sugestão é uma comunicação por telefone com o comandante da área da Policia Militar. A ideia é que tenha um contato com o motorista ou cobrador que possa ligar imediatamente e dizer onde ele está.

O rastreamento dos ônibus e as câmeras internas ajudam?
Aconteceu um assalto, dando um exemplo, o ônibus saiu da linha normal. Era o ônibus da linha Jesus Me Deu, quando foi em frente ao Municipal os ladrões comandaram o ônibus e pediram para ele ir para o Tarumã. Teve um desvio da rota, quase uma hora de desvio e não detectaram. Houve o assalto, tiros dentro do ônibus, passageiros foram feridos e não detectaram. As informações que eu tenho é de que as filmagens são só por três dias o que pra mim é muito estranho. Até porque muitas vezes o que é pra favorecer o motorista é difícil. Só funciona quando a polícia pede, que as vezes eles mandam. Isso não funciona pra efeito de inibir e garantir a segurança dos passageiros e dos funcionários.

 O senhor já sofreu quantos assaltos?
 Eu sofri uns oito assaltos mais ou menos. Tenho amigos motoristas de ônibus que já foram mais de dez. Tem um que já está perturbado. Está doente e afastado, doente psicologicamente. Esse meu amigo sofreu tanto assalto que um passageiro um dia foi bater na costa dele para pedir informação e ele se desesperou e arrebentou o ônibus contra um poste. Inclusive deram a conta dele, mas ele reverteu e foi encostado.

As empresas dão algum tipo de assistência aos funcionários que sofreram assaltos?
A empresa não dá nenhum tipo de assistência ao motorista e cobrador que sofre com assaltos. Só pra se ter uma ideia, quando você é assaltado é quase obrigado a ir trabalhar no outro dia, mesmo não tendo condição. Alguns endurecem e não conseguem ir trabalhar  porque realmente não tem condições. É grande o número de funcionários que estão afastados por conta desse problema pós-traumático. Que quando vê o ônibus fica parado e não quer ver um ônibus de jeito nenhum, até como passageiro. Então, não adianta fazer reuniões nos gabinetes onde estão só os comandantes, mas não ouvir os protagonistas e a própria empresa para saber o que tem feito pelos seus colaboradores quando são assaltados. Até porque para as empresas não há nenhum prejuízo, porque têm seguro. Quem tem prejuízo são os trabalhadores que adoecem. Se as empresas sofressem no bolso, tomariam alguma providência, mas não há nenhuma providência.

O que essa sensação de insegurança mudou no seu dia a dia como motorista?
Quando eu saio de casa digo para minha filha que não sei se vou voltar. Ano passado eu fiquei tão ruim que peguei uma gastrite gravíssima de medo e nervoso. Vários colegas meus estão doentes. Eu faço aqui um calculo que 20% a 30% dos trabalhadores estão afastados por doenças. Ser motorista é uma profissão extremamente estressante e ainda tem mais esse problema. Quando eu largo dou graças a Deus. Na última viagem eu fazia algo que não era permitido. Quando eu vinha do Centro eu só vinha deixando. Quando eu ainda não tinha entrado no bairro eu ainda ia pegando passageiros, mas quando eu entrava no bairro eu não pegava mais ninguém, porque era assalto. Nas linhas que eu trabalhei, que ficam na zona norte, quando eu chegava nos bairros eu desligava as luzes do ônibus. Quando eu via que era passageiro, às vezes, de forma temerária, eu parava, mas com muito medo porque às vezes eles (assaltantes) colocavam mulheres para esticar o braço e era assalto.

Qual a relação dos trabalhadores do transporte com o Judiciário?
Nós não temos apoio de ninguém. Nós somos vulneráveis.  Por outro lado eu também responsabilizo o Judiciário, porque, quando os trabalhadores fazem manifestação são multados, sofrem várias sanções. Tudo que é em favor do trabalhador há uma barreira do Judiciário. Agora tudo que é a favor dos empresários há um favorecimento. Quando se faz greve, e a greve é um direito constitucional do trabalhador, a prefeitura entra com uma liminar, usa esse remédio jurídico, e a Justiça nos penaliza e nos tira esse direito constitucional. Eu coloco o Judiciário sob suspeição por causa disso.

Além dos assaltos, os trabalhadores do transporte coletivo ainda sofrem para garantir seus direitos?
Eu estou com uma representação no Ministério Público Federal (MPF) porque algumas empresas que estão recolhendo o INSS  e o fundo de garantia de seus colaboradores não repassam para os órgãos. Isso ainda está na fase de investigação da Policia Federal. A ação já tem uns cinco meses e a PF pediu mais prazo para investigar. A PF até já quebrou o sigilo bancário de algumas empresas. Nós não temos nenhuma garantia. Até porque os nossos dissídios vão sendo postergados e postergados e vai pra Justiça e dificilmente a gente consegue alguma coisa.

Existem outras reclamações no serviço do transporte de Manaus?
Todos os terminais do transporte coletivo de Manaus são insalubres e indignos para qualquer cidadão utilizar. Eu já pedi uma fiscalização da Dvisa (Departamento de Vigilância Sanitária) e até agora não foi feito nada. Eu estou denunciando o chefe da Dvisa por prevaricação. Não temos descanso. No nosso horário de intervalo a gente fica em pé por quase uma hora. Tudo é ruim. Parece que nós estamos em outro mundo. É muito ruim a situação desse profissional que parece não saber o poder que tem. Que pode parar a cidade. Nós temos o poder de paralisar a cidade, pois todos os nossos direitos estão sendo tolhidos e o órgão fiscalizador que é o MPF, o MPE e o Judiciário trabalhista não vê isso, ou seja, a Justiça está cega.

Como funciona o transporte coletivo em Manaus?
As empresas recebem o dinheiro da prefeitura não pelas passagens, mas pela quilometragem. Quem sofre com isso é o passageiro. Por quê? Porque eu (motorista) não estou preocupado se eu pego passageiro ou não. A gente usa um termo corriqueiro nosso, que nós damos ‘varada’. Quando a gente esta muito estressado a gente não pega. A gente dá ‘varada’. Passageiro estende a mão e damos ‘varada’. A empresa não cobra que a gente pegue passageiro. Para a empresa não importa que a gente pegue passageiros. O importante é que a gente rode. Então quem sofre nesse sistema é o usuário do transporte coletivo.

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