Quarta-feira, 12 de Agosto de 2020
ANÁLISE

Movimento estudantil avalia gestão de Weintraub como período de retrocesso

De acordo com as organizações, queda do ministro é resultado da resposta dos estudantes, que foram às ruas no ano passado, e é fruto da luta daqueles que não aceitam ataques à democracia e à constituição



download__24__20A05F30-559A-4EB5-B7B8-FBFD8130FA9E.jpg Foto: Adriano Machado/Reuters
21/06/2020 às 09:02

A União Nacional dos Estudantes (UNE), União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (Ubes), Associação Nacional dos Pós-graduandos (ANPG) avaliaram a gestão do ex-ministro da Educação  Abraham Weintraub do Ministério da Educação (MEC) como um período de retrocesso para as instituições federais de ensino e pesquisa do pais. 

A exoneração de Weintraub foi anunciada por Bolsonaro na quinta-feira (18). A medida foi interpretada como tentativa do governo de atenuar a crise com o Supremo Tribunal Federal (STF), cujos membros foram tachados por ele de vagabundos que deveriam ser presos na reunião ministerial de 22 de abril. 



“Com pouco mais de um ano no comando do Ministério da Educação, Abraham Weintraub conseguiu se consagrar como pior Ministro da história. Retirou recursos da educação, ofendeu as universidades públicas, ignorou os debates sobre o Fundeb, atacou a autonomia universitária e transformou o MEC numa verdadeira ferramenta ideológica bolsonarista, por isso ganhou a ira e o repúdio de toda a comunidade da educação: estudantes, professores, técnicos e cientistas”, dizem as organizações por meio de nota. 

De acordo com as organizações, a queda de Weintraub é resultado da resposta dos estudantes que foram às ruas no ano passado e é fruto da luta daqueles que não aceitam ataques à democracia e à constituição.

“É sobretudo um recado para esse governo: não aceitaremos nenhum projeto que ataque a nossa educação”, defende.

A nota segue dizendo que as mobilizações seguirão atentas à nomeação do próximo ministro e que se as mesmas ideias se mantiverem, a troca de representantes não significará para eles, em melhora.

“Mas Bolsonaro perdeu o seu Ministro mais fiel e um ferrenho defensor de sua agenda ideológica, por isso essa nossa conquista representa uma enorme derrota ao governo”, disse.

A nota finaliza com o reforço de que o debate sobre o adiamento do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) precisa passar por uma discussão mais profunda, e não apenas por uma enquete. O assunto sempre foi amplamente discutido no Ministério de Weintraub, gerando constantes discussões.

O presidente da associação dos Docentes da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Marcelo Vallina, defendeu, entretanto que o governo de Bolsonaro tem um projeto para destruição da educação pública e que mesmo a troca não os deixa otimistas.

“Partimos da ideia que o governo Bolsonaro tem um projeto de educação que quer destruir a universidade e educação pública no geral. Isso vem ficando claro a partir do corte dos cortes orçamentários, a Ufam por exemplo, teve um corte de quase 50% nos custeio para 2020. Isso não por Weintraub, mas pelo ministro anterior. Abraham causou estragos importantes e ainda assim, não estamos otimistas”, disse Vallina.

Vallina expôs ainda que as associações não têm acesso ao governo. “Nós gostaríamos de poder fazer indicações para o Ministério da Educação porém, as seções sindicais, inclusive as nacionais não são recebidas do governo Bolsonaro para as demandas específicas que nós temos em relação a defesa dos direitos dos trabalhadores que representamos”, salientou.

O sindicalista avalia que não haverá mudança de rumo no MEC. “Vai ser uma decisão especificamente dele e pensamos que vai continuar na mesma vertente ‘olavista’ de até agora. Não esperamos mais mudanças em relação a isso”, lamentou.

Pelos fundos

O Coordenador da Frente Brasil Popular e militante da educação, Yann Evanovick, afirmou que espera do próximo ministro do governo Bolsonaro compromisso com a educação brasileira.

“O Ministro Weintraub sai pela porta dos fundos do Ministério da Educação, sendo sua contribuição: o que não aumentou uma única vaga nas universidades públicas do Brasil e ainda por cima, cortou recursos da educação. Espero sinceramente que o próximo Ministro tenha algum compromisso com a educação brasileira”, disse.

Para Yann, para escolher o próximo ministro, o critério mínimo para o nome deve ser o envolvimento mínimo com a educação e com o sistema educacional.

“A pessoa precisa ter vínculo com educação e com o sistema educacional brasileiro. Quando você observa os ministro da Educação anteriores ao governo Bolsonaro, eles poderiam até ter profissões não vinculados à educação, como por exemplo o ministro da Educação do governo Temer, Rossieli Soares”, lembrou. 

Yann lembrou que o atual secretário de Educação do estado de São Paulo é advogado, oriundo da secretaria de Educação do Amazonas, e teve carreira dentro da secretaria como servidor, chegou a ser secretário e depois ministro da Educação. 

“Você não pode colocar, como é o caso do Weintraub, que é um economista que não tinha trajetória nenhuma ligada com educação brasileira e vinha de um banco, que diga-se de passagem, é um economista que faliu o banco Votorantim e vai pra educação e fez o que fez”, finalizou.

Parlamentares

O deputado federal Capitão Alberto Neto (Republicanos) disse que nos últimos anos maquiaram a educação no Brasil.

“Estou convencido que a educação brasileira precisa de mudanças. Nos últimos anos vivemos uma grande maquiagem na educação, pois aumentamos a quantidade de anos educacionais ao nossos alunos e isso não refletiu no crescimento do nosso país como aconteceu em dezenas de outros que investiram na educação”, disse.

Neto afirmou também que a saída de Weintraub é vitória para os que “fizeram da nossa educação umas das piores da América latina” e que “Weintraub tentou sair do mais do mesmo e investir na qualidade e não só na quantidade”.

O deputado federal José Ricardo (PT) afirmou que Abraham foi um dos piores ministros da Educação que o Brasil já teve.

“Esse ministro da Educação foi um dos piores que o Brasil já teve. Lamentavelmente era o ministro que trabalhava contra educação, cortando verbas, recursos das universidades e não teve nenhum esforço para cumprir o Plano Nacional de Educação  e nem valorizar os professores”, disse.

Para ele, o tempo de Weintraub no cargo resultou em um retrocesso. “Um ministro que o que ofende as instituições e as pessoas. Foi um retrocesso enorme nesse período a presença dele. Tudo indica que os ministros do Bolsonaro são iguais ou piores do que o Bolsonaro”, defendeu.

O deputado Federal Marcelo Ramos (PL) definiu a saída de Weintraub como melhor medida do presidente. “Até aqui, a melhor medida do Bolsonaro para a educação do país, foi essa exoneração. Só espero que o próximo ministro seja amigo da educação, da ciência e dos valores democráticos e humanitários que são fundamentais para o nosso futuro”, disse.

Análise: Ivânia Vieira, professora da Ufam e jornalista

“O ex-ministro da Educação Abraham Bragança de Vasconcellos Weintraub não deve ser tratado como página virada na história do Ministério da Educação e da condução da educação brasileira. A saída negociada do MEC, resolve, em parte, alaridos na gestão do Governo Bolsonaro, abre espaço para engordar os negócios do Centrão, e o manejo dos votos no Congresso Nacional. O ex-ministro é premiado com outro posto não pelo bom serviço prestado à nação, sim por serviços fielmente prestados ao gabinete do ódio, ala ideológica, do governo federal.

O Caso Weintraud demonstra o quanto acordos políticos podem ser perversos com a população ou com segmentos sociais de um país. O retrocesso na área da Educação continuará, pois ainda não fechou o ciclo. 

Os estragos produzidos na estrutura do Ministério levarão tempo para ser reparados, isso se houver vontade política em fazê-lo, até então não demonstrada. Em pouco mais de um ano, professores, estudantes, técnicos administrativos tiveram que enfrentar batalhas diárias, para além de seus afazeres profissionais, porque o ministro da Educação assim decidiu agir no comando da pasta: Ataques em série enquanto a Educação do País perdia prazos, oportunidades e espaço para debater questões nacionalmente importantes. Weintraub, com seu fascismo e ignorância, apequenou o MEC.

Aguardemos, atentamente, a confirmação do nome escolhido do terceiro ministro da Educação. Que se preste atenção nos próximos atos e atitudes do governo. E que as instituições democráticas, em luta na defesa da democracia, permaneçam atuando para não permitir a submissão da política educacional do País a uma plataforma robotizada, mercantilizada e racista que nega o direito dos brasileiros a um ambiente onde o processo de formação competente e crítica se realize com naturalidade e autonomia.

Maria Luiza Dacio
Repórter do Caderno A do Jornal A Crítica

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