Segunda-feira, 22 de Julho de 2019
Crise econômica

Mudanças no sistema de saúde do Amazonas causam apreensão da população

Medidas divulgadas sexta-feira pelo governador prevêem reordenamento total das unidades de saúde do Estado. Profissionais e a população temem que a situação piore e hospitais fiquem mais lotados



portal_1.JPG Na tarde de ontem, moradores do bairro São Raimundo foram às ruas para protestar contra o fechamento do SPA (Serviço de Pronto Atendimento) que é usado pela população (Foto: Aguilar Abecassis)
23/05/2016 às 20:45

As mudanças no setor da saúde anunciadas na última sexta-feira pelo governador José Melo (Pros) deixaram os profissionais e principalmente a população, que depende do atendimento público, temerosos de que a situação piore e os hospitais fiquem ainda mais lotados.

Os Centros de Atenção Integral à Criança e ao Adolescente (Caics) virarão Unidades Básicas de Saúde (UBSs) e alguns Serviços de Pronto Atendimento (SPAs), bem como algumas Policlínicas da cidade, terão as atividades suspensas. É o caso da Policlínica Cardoso Fontes, no Centro,  referência em pneumologia.   

Mário Jorge Mendonça da Silva, 47, é um dos pacientes que dependem da Policlínica Cardoso Fontes. Há seis anos ele realiza tratamento no local, por conta de uma complicação pulmonar. “Faço meu acompanhamento, exames, e o que mais for preciso neste hospital. Sinceramente fiquei muito triste em saber que iriam fechar a policlínica, não tem cabimento fazer uma coisa dessa”, comentou.

Segundo a Secretaria de Estado de Saúde (Susam), a unidade acompanha, atualmente, 460 pessoas em tratamento de tuberculose, e “alguns desses pacientes estão em acompanhamento há mais de um ano e só precisam retornar à unidade a cada 3 meses”. Por mês, aproximadamente mil atendimentos são realizados.

Dados alarmantes

Até abril deste ano, segundo a Fundação de Vigilância em Saúde (FVS),  639 novos casos de tuberculose  foram confirmados no Estado.  Em 2014 e 2015 foram quase 6 mil casos. Segundo dados do próprio Programa Estadual de Controle da Tuberculose, apresentados no ano passado, o Amazonas possui os maiores índices da doença no país. 

A dona de casa Andrea Diniz, 30, acompanha o filho dela, de 11 anos, na assistência contra a  tuberculose. Este é o último mês de tratamento do jovem, e apesar de estar aliviada de poder contar com os serviços nesta última etapa, Andrea se diz triste pelos outros pacientes. “É lamentável. Este hospital é uma referência no tratamento de tuberculose e eu só lamento pelas outras pessoas que precisam deste atendimento”, comenta. 

Entidades se manifestam

O Fórum de Prevenção às DSTs e Tuberculose se manifestou contra o fechamento da unidade  por meio de nota de repúdio. “É uma situação preocupante e grave na medida em que Governador do Amazonas entre as várias decisões tomadas, decide fechar a Policlínica Cardoso Fontes”.

A decisão foi denominada pelo Fórum como um “golpe mortal no trabalho realizado para a diminuição da incidência da doença no Amazonas”. A nota diz ainda que, “em um Estado que ocupa o primeiro lugar em incidência de tuberculose no Brasil, fechar um centro de referência em tratamento da doença é uma decisão no mínimo insensata”.  O Sindicato dos Farmacêuticos no Estado do Amazonas, Sindicato dos Agentes Comunitários de Saúde do Amazonas, Movimento Popular em Saúde, Federação dos Movimentos Populares e Sociais e o Fórum Permanente em Defesa da Saúde do Estado também emitiram nora de repúdio, considerando a reforma como um “ato criminoso”.

A crise  na saúde pública do Amazonas começou a ter destaque no fim do ano passado, quando pacientes sofreram com a falta de estrutura nos principais hospitais e prontos socorros da capital. Como exemplo, a falta de tomógrafos no Hospital Pronto Socorro João Lúcio,  seguido de falta de materiais para cirurgias no 28 de Agosto e de equipamentos na Fundação Centro de Controle de Oncologia do Estado do Amazonas.

Além de denúncias dos próprios pacientes e familiares, as  falhas foram  apontadas, na época, por um dossiê produzido pelo Sindicato dos Médicos do Amazonas (Simeam), que relatava falta ou escassez de medicamentos e materiais também no  Hospital Francisca Mendes, Adriano Jorge e alguns SPAs.

Demanda era para atenção básica

Justificando as modificações, o Governo informou que atualmente, 70% da demanda das policlínicas e 90% dos atendimentos nos Serviços de Pronto Atendimentos (SPAs) são de Atenção Básica. Afirma, ainda, que o reordenamento leva em conta “as mudanças no perfil demográfico da população nas últimas décadas – sendo o atual modelo ainda de 1990 –, e a necessidade de adequar os serviços ofertados ao que está no âmbito da responsabilidade estadual”.

Ao reordenar os serviços de saúde, o Estado pretende não somente reduzir custos, mas também reforçar o atendimento em áreas prioritárias. O secretário Pedro Elias destaca que o atendimento aos pacientes com a doença, conforme preconiza o Programa Nacional de Controle da Tuberculose/Ministério da Saúde, deve ser ofertado de forma descentralizada, na atenção básica, facilitando o acesso dos usuários. Entretanto, ele enfatiza, a Policlínica Gilberto Mestrinho dará todo o suporte de atendimento aos casos mais complexos, como vinha sendo feito pela Policlínica Cardoso Fontes.

A pasta informou que o secretário fará uma reunião com os representantes das entidades que atuam voltadas à atenção a esses pacientes, para dar todas as explicações necessárias e tranquilizá-los com relação ao novo fluxo.

PS da Criança da Zona Sul

Com a transformação dos  Centros de Atenção à Saúde da Criança (Caics), a dona de casa Katia Maiara, 18, se preocupa em onde passará a levar a filha, de oito meses, quando precisar de atendimento. Antes mesmo das reformas e reordenamentos das unidades, ela chegou às 8h de ontem no Pronto Socorro da Criança na Zona Sul, na Cachoeirinha, e até as 11h não havia sido atendida. 

“Minha filha está muito gripada e com muita tosse. Teve febre ontem, mas hoje não teve. Então eles disseram que a prioridade é para as crianças que estão com tosse”, contou Kátia, que mora no Distrito Industrial. Ela conta que ficou sabendo da reforma na pasta de saúde, e teme mais prejuízos à saúde do filho. “É muito triste e revoltante. Porque a gente procura um pronto socorro e espera mais de três horas pra ser atendido. Imagina com menos opções”.

Amanda Souza, 17, mãe da pequena Ágatha, de 2 anos, também aguardou por muito tempo ser atendida. Neste caso, a filha dela apresentava febre. “Não sou de vir ao pronto socorro por qualquer coisa, mas todas as vezes que precisei, foi essa demora. É uma falta de respeito”.

A Secretaria de Estado de Saúde (Susam), no entanto,  informou que  a demanda recebida às segundas-feiras, normalmente, é  maior em relação aos demais dias da semana e que a maior parte dos pacientes busca atendimento de atenção básica e não de urgência e emergência. “ Nesta segunda-feira (23), pela manhã, por exemplo, o PSC Zona Sul recebeu 53 pacientes, sendo oito de retorno. Do número total de atendidos, apenas 12 apresentavam perfil de atendimento de urgência”.

Em relação aos atendimentos realizados nos Caics que serão desativados, a pasta ressaltou que estas unidades são de serviço ambulatorial e de atenção básica, e que a demanda será absorvida pelas unidades básicas de saúde.

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