Publicidade
Manaus
Manaus

Mudanças nos valores fazem com que pessoas não sintam mais vergonha

Ninguém mais fica vermelho ao violar regras do convívio social, um problema da sociedade contemporânea, diz educador 07/09/2013 às 19:06
Show 1
Em frente ao Detran-AM, carro de auto escola que deveria dar exemplo faz manobra perigosa sem nenhum constrangimento
Ana Celia Ossame Manaus

Você tem vergonha de quê? Ao receber esta pergunta, é comum as pessoas dizerem ter uma infinidade de motivos causadores desse sentimento que, fisicamente, conforme descreveu o biólogo britânico Charles Darwin, leva o ser humano a ficar com a face ruborizada. Mas as diversas mudanças nos valores e nos comportamentos dos indivíduos na vida contemporânea têm alterado de forma significativa esse conceito, diz o professor doutor em Educação Luiz Carlos Cerquinho, da Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

Ao afirmar que a vergonha tem aspectos positivos e negativos, ele chama a atenção para o desaparecimento dela quando se trata de alguns políticos acusados de desvios de verbas públicas como as destinadas à merenda escolar e o comportamento social de algumas pessoas no trânsito, por exemplo.

Para quem é motivo de vergonha avançar o sinal fechado, estacionar de qualquer jeito e em qualquer lugar, ocupar a vaga destinada a pessoa com deficiência, destruir um bem público, jogar lixo na rua? “Para mim é”, afirma o triatleta Antônio Neto, 43, que tem orgulho de ver os filhos seguindo o mesmo comportamento dele, não se livrando de papéis ou embalagens em qualquer lugar.

Para o aposentado Isaías Chaves, 67, a vergonha é saber que o político no qual votou é acusado de desvio de dinheiro público. O taxista Haroldo Rodrigues, 41, disse que teria vergonha de ser político hoje no Brasil. “Dá vergonha saber dos desvios de verbas, das atrapalhadas deles. Eu tenho vergonha por eles. Acho que é um sentimento desvalorizado hoje pelas pessoas”, desabafou.

Reflexões
Segundo Luiz Cerquinho, até o final século 20, sujeitos como as mulheres, as crianças, os adolescentes, os negros, os índios e as pessoas com necessidades especiais, excluídos da sociedade, aprenderam a ter vergonha de si mesmo por conta dos constrangimentos construídos socialmente.

“Nesses casos, a perda da vergonha foi positiva, contribuindo para que os sujeitos desses grupos sociais se vejam de modo diferenciado, contribuindo para a afirmação social das diferenças”, disse o professor.

Mas a construção de vergonha no que diz respeito a processos de formação moral dos sujeitos, como responsabilidade de diversas instituições sociais, como a família, as igrejas, as escolas, essa não devia desaparecer, ensina Cerquinho, destacando a formação da criança como a base de novos encaminhamentos desse sentimento. “Os exemplos morais dos pais, dos professores, do padres, pastores são a base principal para trabalhar a formação moral das crianças, envolvendo diretamente o sentimento de vergonha. Ter vergonha do que faz mal à vida humana e à sociedade”, explica ele, para quem a construção dessa noção exige uma profunda reflexão pela sociedade dos adultos. “Deve-se pensar como queremos formar nossas crianças e quais as regras sociais e de comportamento que construiremos nesses tempos de profundas mudanças”, finalizou.

Abuso coletivo
No mês passado, A CRÍTICA passou dois dias na frente do Detran-AM para verificar o comportamento dos motoristas na frente do órgão da autoridade de trânsito do Estado. Flagrou até abusos cometidos por pedestres.

Publicidade
Publicidade