Quarta-feira, 03 de Junho de 2020
SAÚDE

'Mulher morrer de câncer de colo uterino é um escândalo', diz especialista

Mônica Bandeira, gerente de ginecologia da FCecon, afirma que o Amazonas é o 1º lugar no ranking brasileiro da doença. E que muitas mulheres, principalmente no interior, não têm acesso a exame preventivo



mulher123_48401AE5-1A4A-4FDB-83CE-01058398F75A.JPG Foto: Eraldo Lopes
16/03/2020 às 09:01

O Instituto Nacional de Câncer projeta 700 novos casos de câncer de colo de útero no Amazonas em 2020. Com a previsão de 580 novos registros neste ano, Manaus é a capital brasileira com a maior incidência e mortalidade por câncer de colo uterino, segundo a coordenação da Atenção Oncológica no Amazonas.

De acordo com a Fundação Centro de Controle de Oncologia do Estado do Amazonas (FCecon), a doença continua sendo a de maior incidência entre as mulheres no Estado. 



Em entrevista para A CRÍTICA, a gerente do serviço de Ginecologia da FCecon, médica Mônica Bandeira comentou sobre as dificuldades de acesso das mulheres à capital, interiorização das ações de prevenção e diagnóstico precoce, avanços necessários para mudança desse cenário e a programação do ‘Março Lilás’, campanha de conscientização e combate ao câncer de colo uterino.

O que contribui para o câncer de colo uterino ser o mais comum no Estado?

O Amazonas é o primeiro lugar no ranking brasileiro de câncer de colo de útero. É o que mais acomete e mata as mulheres no Estado. Temos um problema de logística grave, não temos estradas e complica o deslocamento das mulheres para fazer exames. Elas não têm acesso ao exame, especialmente, no nosso interior. A Organização Mundial da Saúde orienta ter um rastreio (do preventivo) e no Brasil é baixo e no Amazonas é dramático. O município (Manaus) diz que consegue alcançar 46% e no interior não sabemos informar. A grande maioria das mulheres não faz preventivo por falta de informações, questões culturais, medo do resultado do exame e porque a inflamação não ocasiona sintomas como coceira, corrimento, dor ou sangramento.

Nos últimos anos não houve avanços no combate ao câncer de colo de útero?

Há décadas é a mesma coisa. O interior está abandonado há décadas. A minha indignação é com a total ignorância dos gestores anteriores em relação ao câncer de colo uterino. No interior tem mutirão de catarata, hérnia, vesícula e não tem de colo? Uma mulher morrer vítima de câncer de colo uterino é um escândalo. É 100% evitável, tem preventivo, vacina e é preciso mudar (o método) para citologia em meio líquido. Precisa começar, sair da mesmice.

Quantos anos leva para uma inflação pré-cancerosa evoluir para um câncer?

Leva de 10 a 15 anos. É o único tumor humano que tem uma única causa que é conhecida, o HPV. No Amazonas, a taxa bruta é de 33,5 casos a cada 100 mil mulheres, segundo o Ministério da Saúde. Em 2019, 279 mulheres morreram de câncer de colo, média de 23 óbitos por mês de um câncer que é 100% evitável. Temos dois tipos de HPV: o que causa verrugas e não vai ser um câncer e o sem sintomas que causa o câncer.

A prevenção começa com a realização do preventivo?

O preventivo é para detectar infecções que vêm antes do câncer. Se no exame deu uma inflamação, é preciso realizar a colposcopia para verificar o local exato da lesão no colo do útero para que seja feita a biópsia. E começa os gargalos. 

Quais?

O procedimento é feito apenas em Manaus em cinco policlínicas. Confirmada a inflamação pré-cancerosa, é preciso fazer uma pequena cirurgia, conização, com a retirada dessa parte que contém a lesão. Somente a FCecon faz essa cirurgia que é um divisor de águas entre não ter câncer e ter câncer. A Secretaria Estadual de Saúde disse que até dezembro vai ter outro Centro de Prevenção para Mama e Colo do útero para que as mulheres não tenham que fazer somente no FCecon.

Como interiorizar essas ações?

Desde abril de 2019 foi retomado no Conselho Regional de Medicina, na Secretaria de Estadual de Saúde, o projeto ‘Ver e Tratar’ para mulheres do interior. É uma solução de impacto porque a maioria dessas mulheres não vem para Manaus. Será mutirões de quatro em quatro meses em cinco municípios polo: Itacoatiara, Manacapuru, Parintins, Tabatinga e Tefé. Precisamos começar isso logo. Não dá mais para esperar. 

Depois da conização, o quadro pode evoluir para um câncer?

Pode. Após a biópsia, se confirmada a inflamação, a paciente é acompanhada por dois anos, de seis em seis. Em caso de qualquer alteração e continuar a inflamação, fazemos a reconização e somente se for necessário retira-se o útero. Todo câncer o tratamento vai depender em que fase está. O tratamento para o câncer não é apenas a retirada do útero. O tratamento de um câncer de colo uterino avançado é uma cirurgia radical. O câncer de colo uterino não vai pelo sangue, vai por ascendência. A paciente de câncer de colo uterino morre de uremia, o rim não funciona.

Qual o perfil das pacientes atendidas na FCecon?

A maioria chega em fase muito avançada e não dá para operar. Cerca de 90% das diálises feita na FCecon é por câncer de colo uterino. Em 2019, 646 pacientes chegaram com lesão pré-cancerosas para ser submetida a conização. Em 2017, foram realizadas 298 conizações, em 2018 foram 332 e no ano passado saltou para 575. Aumentou porque estamos fazendo o procedimento no ambulatório, cerca de 40%, e também no centro cirúrgico, 59%.

Ainda há preconceito em relação a vacina do HPV?

Essa onda antivacina é mundial. Temos que combater com informação diariamente. Já foi comprovado cientificamente que não tem nenhum risco, não tem conotação sexual ou reação adversa. A vacina contra HPV é segura, gratuita e eficaz. Quando começou eram três doses, hoje são duas e vai reduzir para uma única. Estamos aguardando os resultados das pesquisas. Nós fomos pioneiros na vacina, em 2013, o primeiro estado e primeiro município a fazer gratuitamente. Quando o Ministério da Saúde prorrogou para todo o país a vacina eles retiraram das escolas pela quantidade de vacinadores. Precisa ter mais vacinadores. Ao retirar das escolas, despencou e foi a menos de 40% a adesão para meninas e meninos chegou a menos de 20%. Em várias capitais começaram a fazer campanha, em 2017 e 2018, para que as vacinas não fossem jogadas foram. A gente continua nessa luta para que as vacinas sejam nas escolas.

Como avançar? Soluções

Educação, vacina nas escolas, mudar a técnica do preventivo para citologia em meio líquido, em que 100% do que é rastreado é célula enquanto no método convencional é apenas 20%, e a interiorização da saúde fazendo a conização nos municípios polo.

Iniciativa em outro estado ou país que merece ser copiada?

Até 2028 quem vai erradicar o câncer de colo uterino será a Austrália que não usa o papanicolau, apenas o teste de HPV. Em países desenvolvidos não se faz o método convencional. Portaria de dezembro de 2019 do Ministério da Saúde incorpora a citologia em meio líquido no SUS. Desde 2010, o Hospital de Barretos e os 14 centro de referência de prevenção usam somente meio líquido. Indaiatuba, interior de São Paulo, tem a pretensão de erradicar esse câncer, mas vai demorar um pouco. 

Em 2019, a senhora promoveu uma campanha, com uma vaquinha eletrônica, para comprar equipamentos para procedimentos em mulheres com inflamações pré-cancerosas. Qual o resultado da iniciativa do ponto de vista prático e político?

Todo o ambulatório, sala de acolhimento, equipamentos, tudo é novo. Ambiência, tudo mudou. A sociedade viu o vídeo, fui na Assembleia como pessoa física pedir dos deputados. Empresários doaram e o terceiro aparelho ainda vai chegar. Do ponto de vista político foi complicado, a iniciativa era minha e assumi toda a responsabilidade. Foi bom para quem mais precisa, as mulheres, e quase dobrou o número de conizações porque permitiu realizar o exame em ambiente ambulatorial e também no centro cirúrgico. 

A classe médica está sendo mais ouvida e tendo mais espaço nesta gestão?

Estamos sendo escutados pela primeira vez. A FCecon está sendo mais ouvida. O nosso diretor-presidente tem uma visão de prevenção. Se tem como evitar vamos investir nas ferramentas que temos. Não adianta a mais alta tecnologia se não tiver onde fazer o exame. Com mais um instituto de prevenção e o programa no interior o impacto será grande, mas não vamos erradicar. 

Quais ações agendadas para o ‘Março Lilás’?

A palavra de ordem é prevenção. Iniciou com palestras, o simpósio direcionado à classe médica e enfermagem, no dia 20 teremos uma panfletagem e no dia 28 será o Dia D de vacinação contra HPV e mutirão de preventivo em postos de saúde. 
 

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Repórter de A Crítica

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