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Manaus
MEIO AMBIENTE

Mulheres indígenas do Alto Rio Negro promovem encontro sobre ativismo

Deolinda de Freitas Machado irá contar às outras mulheres e aos convidados a história de criação e de resistência da AMARN 13/05/2017 às 05:00
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Ivania Vieira Manaus

Na manhã deste sábado (13), Deolinda de Freitas Machado, 67, irá encarnar o livro vivo para ser aberto, lido, escutado. Caberá a ela contar às outras mulheres e aos convidados a história de criação e de resistência da Associação de Mulheres Indígenas do Alto Rio Negro (AMARN). O relato é parte da programação de aniversário dos 30 anos da AMARN, uma das mais antigas organizações indígenas do Amazonas e do Brasil. Nasceu em tempos duros e de muita agitação no País, ajudou nos primeiros passos da criação da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), que viria a se tornar o maior e mais forte canal de lutas e interlocução dos indígenas brasileiros nacional e internacionalmente.

Deolinda é a história. Não somente da luta das mulheres indígenas e sim da formação e das feições da resistência indígena no Estado, na Amazônia, dos perfis das políticas de governo, dos valores ostentados pelas classes média e rica da cidade de Manaus, dos pobres, das relações por vezes espúrias dos patrões com empregadas domésticas. Parcela expressiva das associadas da AMARN tinha no serviço doméstico a referência de emprego e trabalho.

As discussões em torno da criação de um espaço onde as mulheres indígenas do Rio Negro residentes em Manaus pudessem se encontrar iniciaram em 1984. Em 1987 nasce a AMARN. Deolinda, dessana, povo que habita a região do Alto Rio Negro, assume a coordenação e, junto com outras mulheres, inaugura interlocuções valiosas entre as mulheres indígenas, com os homens indígenas, com os patrões e os outros moradores de Manaus.

Desempregadas, empregadas sem receber salário, subempregadas, tristes, saudosas dos familiares deixados nas comunidades, algumas grávidas e sozinhas. A associação tornou-se abrigo e aquele fio tênue que separa o desespero da busca de enfrentamento e solução dos problemas. A AMARN possibilitou as conversas, o outro convívio, o lugar para cantar, dançar, falar a língua nativa. E, principalmente, tecer sonhos dando-lhes forma e concretude. A artesania ganhou mais importância, propiciou a renda e, para várias das mulheres da associação, assegurou o alimento delas e de seus filhos pequenos.

Deolinda é resistência. Reclama por vezes que as pernas já não andam depressa como ela gostaria e o cansaço chega mais cedo. Não parece. É uma das mais assíduas frequentadoras da associação, integra a coordenação eleita este ano como membro do conselho fiscal e revela disposição juvenil no que chama de “missão”, repassar as experiências de três décadas de militância às mulheres mais jovens. “Precisamos vencer o individualismo e fortalecer, todos os dias, a AMARN, assim começamos essa história lá atrás quando tudo era mais difícil, principalmente para nós mulheres”, pede essa pioneira de voz mansa e mãos habilidosas na arte de tecer.

Em abril, durante a realização da Assembleia de Lideranças Indígenas, na aldeia São Félix, no Município de Autazes (a 118 quilômetros de Manaus), Deolinda se desmanchou em choro ao ser homenageada, junto a outras cinco lideranças indígenas com mais de 20 anos de militância, pelo Fórum de Educação Escolar Indígena e de Saúde (Foreeia). Ali diante de mais de 300 pessoas contou pedaços da sua história que é também a história da associação de mulheres e dos movimentos de mulheres indígenas e indígena da Amazônia.

Muitas outras páginas
De jeito calmo e determinado, a primeira coordenadora da associação de mulheres indígenas continua sonhando e é inspiração para as mais jovens. Aprendeu no corpo e na alma que sonhos exigem ações. Talvez por isso não consiga ficar quieta: “hoje eu sonho em melhorar cada vez mais as condições da AMARN. Já passamos por muitas situações difíceis, vencemos e chegamos agora aos 30 anos. Isso é alegria sem preço”.

A produção artesanal das mulheres AMARN ganhou o mundo. É por meio desse tecimento que essas mulheres fazem política chamada de artesania. “O que nós fazemos está presente em muitos países. Não é apenas uma peça que alguém compra e leva. É um pouco da nossa história, do nosso jeito de ser no mundo que vai ocupar outros lugares, gerar perguntas, curiosidades. Temos que valorizar muito essa atividade”, diz Deolinda Machado.

A preocupação em encantar as mais novas com a história da AMARN é compromisso de vida em Deolinda: “quero que as mulheres novas tenham mais interesse pela associação. Por isso converso, para que elas conheçam e se sintam animadas a seguir em frente. Sei que algumas das jovens ainda sentem vergonha de ser índia na cidade. Temos que vencer isso, não ter medo, não ter vergonha. Por que sentir vergonha de ser índio? Eu venci. Nasci índia, vivo como índia e vou morrer índia”.

Aprendendo a soltar a voz

Claudinéia Gama Brito, 40, tariana, ingressou na Associação das Mulheres Indígenas do Alto Rio Negro em 2013. Este ano assumiu o cargo de coordenadora-geral da AMARN, por meio de eleição direta. “É um desafio enorme para mim, não quero decepcionar as mulheres que me elegeram”, afirma a jovem líder que está aprendendo a conviver com Manaus depois de uma primeira passagem frustrante na cidade no início de 2000.

A comemoração dos 30 anos de fundação da AMARN, como ato de afirmação e reconhecimento das lutas indígenas e das mulheres indígenas, é uma das primeiras tarefas grandes que assume. Claudineia quer no sábado e no domingo festejar as mães indígenas, a AMARN como grande abrigo e Deolinda Machado, a mãe de todas. “Ela me inspira. Ouço as histórias da vida dela, os relatos de tudo que viveu, da persistência em vencer as dificuldades, de como o movimento era lá atrás, e me animo para fazer mais. Sei que tenho muito a aprender”. Para Claudineia, o fortalecimento dos movimentos indígena e de mulheres indígenas passa pela presença mais forte e mais decisiva das mulheres nas organizações. Presença física cada vez maior.

Pelas mãos de Claudineia e das mulheres da AMARN (são 70 associadas de acordo com a coordenação) os mais de 800 participantes da 3ª Marcha da Resistência Indígena do Amazonas, realizada em Manaus, nos dias 19 e 20, foram alimentados. Coube a elas organizar a parte da refeição e recepcionar os caminhantes famintos e sedentos com os alimentos num ambiente de alegria no acolhimento. Na noite de encerramento da marcha (20 de abril), essas mulheres foram aplaudidas pelos participantes como forma de gratidão e de respeito. A tímida Claudineia que dizia não saber o que falar em público estava de microfone em punho convocando as mulheres a seguirem em luta contra o desmonte das conquistas indígenas.

Associação deu origem à Coiab
A Associação das Mulheres Indígenas do Alto Rio Negro é a ‘mãe da Coiab’, afirma Deolinda Machado. A Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira nasceria em abril de 1989. “Participamos de muitas reuniões. Eu era uma das poucas mulheres andando pra cima e pra baixo com os parentes Pedro Garcia, Manoel Moura e Ismael na fundação da Coiab”.

Do Alto Rio Negro o movimento indígena se espalhava. Nascia também em 1987 a Federação das Organizações Indígenas (FOIRN), uma das referências nas lutas nacionais. Na sede da Federação, em São Gabriel da Cachoeira, estão sendo feitas várias atividades comemorativas dos 30 anos.

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