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Manaus
Educação e Arte

Com músicas de cordel, alunos homenageiam patrimônios culturais de Manaus

Estudantes do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Amazonas (Ifam) criaram cordéis para destacar obras como o Teatro Amazonas e o Mercadão, entre outros 31/10/2016 às 05:00 - Atualizado em 31/10/2016 às 18:10
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A garotada fez performance na homenagem a monumentos da cidade. Foto: Evandro Seixas
Paulo André Nunes Manaus (AM)

Qual a relação entre a rica literatura de Cordel e os valiosos patrimônios históricos do Estado do Amazonas? Tudo, caro leitor! É que um projeto realizado com os alunos de Ensino Médio, da turma 11 B do curso integrado de Informática do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Amazonas (Ifam) homenageou, por meio da literatura de cordel, alguns dos principais monumentos de Manaus. Na atividade, foram  retratados locais como o Teatro Amazonas, Mercado Municipal Adolpho Lisboa, Catedral Metropolitana de Nossa Senhora da Conceição (Igreja da Matriz), Palacete Provincial, Biblioteca Pública e o Palácio da Justiça por meio do cordel, gênero literário popular escrito frequentemente na forma rimada.

As canções apresentadas pelos alunos trazem estrofes com versos que remetem a esses símbolos manauenses, com os “cordelistas” recitando de forma melodiosa e cadenciada, acompanhados de viola, como também fazem leituras ou declamações empolgadas e animadas.

Os versos traduzem, com exatidão, parte da história e o significado das obras históricas. É o caso do que trata sobre o Teatro Amazonas, onde, na primeira estrofe,lê-se: “O majestoso Teatro Amazonas/No apogeu da borracha nasceu/Com interesse de outros povos/Na selva amazônica floresceu”. Outra estrofe é bela: “Está situado em Manaus/Este patrimônio cultural/Que encanta o mundo todo/Com sua beleza colossal”.

O alusivo ao Mercado Municipal Adolpho Lisboa ressalta a beleza arquitetônica da secular obra: “O mercado Adolpho Lisboa/Belo monumento municipal/Tem beleza em sua estrutura/É orgulho da capital/É feito todo em ferro/R com vidro colorido/Foi o segundo mercado/No Brasil a ser construído”.

O trabalho nasceu em uma disciplina do Mestrado Profissional em Ensino Tecnológico, sob a coordenação da professora-doutora Andréa Mendonça, e tendo a participação dos professores mestrandos Alzanira dos Santos, Juvenal Severino Botelho, Letícia Alves da Silva e Nelma Loureiro Pereira. 

A iniciativa rendeu um vídeo produzido nas atividades da disciplina de Ensino & Tecnologia em Informática e até mesmo um e-book disponível na plataforma Issuu. A edição e diagramação do livro digital ficou por conta de Lucas dos Anjos, Jean Steferson e Rafael Lúcio Martins.

Livros

Outro resultado desse projeto do cordel é que já está no prelo e deve ser lançado até final de novembro um livro chamado “Ensinos e Aprendizagem com Tecnologia -Experiências Práticas em Sala de Aula”, uma obra com oito capítulos e onde o primeiro, intitulado “Do Folheto ao Livro Digital”, vai trazer a literatura de cordel que enfatiza os monumentos históricos da capital. No texto, a professora Alzanira dos Santos ficou responsável pela origem e característica da literatura de cordel, o professor Juvenal Severino Botelho trata sobre “Cordel na Amazônia”, a mestre Letícia Alves da Silva ficou encarregada da parte tecnológica (imagens, plataforma, publishing) e a educadora , Nelma Loureiro Pereira foi responsável pela revisão.

O trabalho dos alunos foi tão bem sucedido que foi eleito um dos melhores e mais inovadores pela Fundação InovaEduca de São Paulo, ressaltou a professora Alzanira dos Santos, destacando as características positivas da atividade no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Amazonas.

Anos 80

Mas as atividades cordelistas não param por aí. Outro fato interessante relacionado ao cordel é que outro projeto, este com participação de alunos de Informática calouros deste ano também do Ifam, desenvolveu a temática dos anos 1980 através dessa literatura.

E outra: os alunos de nível superior de Física vão desenvolver seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) utilizando o gênero literário para facilitar o ensino da matéria. A se julgar por esses alunos e professores, Arte e Educação sempre estarão caminhando lado a lado em prol da coletividade. Ainda bem!

Origem da tradição

O cordel remonta ao século 16, quando o Renascimento popularizou a impressão de relatos orais, e mantém-se uma forma literária popular no Brasil. O nome tem origem na forma como tradicionalmente os folhetos eram expostos para venda, pendurados em cordas, cordéis ou barbantes em Portugal. Alguns poemas são ilustrados com xilogravuras nas capas.

Criatividade

Alzanira dos Santos, rrofessora do Ifam, afirma que esse trabalho é importante porque deixa de lado as listas de exercícios, "a decoreba", o ensino do século 19 que não tem mais espaço. "Os alunos estão aí com muita disposição, hoje só com celular um menino faz muita coisa. Os alunos são criativos, então eu acho que trabalhar com projetos é o futuro. E deixando de lado aquele ensino tradicional e começando a trabalhar com uma produção textual, com crtiatividade, colocando  o aluno como protagonista, e não o professor. A arte e a educação nunca podem ficar separadas. Por isso que nesta apresentação que fizemos para a imprensa estava presente o professor de Artes, José Nogueira, que tem dado apoio a todos esses projetos e que trabalha com folclore amazonense genuíno, e é nosso parceiro no desenvolvimento desses projetos", disse.

Homenagem

Os alunos que desenvolveram o projeto  de cordel do Ifam surpreenderam a reportagem de A Crítica criando um cordel exclusivo em homenagem ao jornal. Os versos foram apresentados pelo estudante Gabriel Larêdo, de 17 anos: “Os monumentos históricos são riquezas sem igual /E Não podemos esquecer que são belezas naturais /O  Jornal A Crítica hoje veio nos visitar, e as belezas de Manaus esse jornal vai apresentar, pois os monumentos históricos são obras de impressionar”, recitou ele.

O momento emocionou o aluno. “Pra mim foi uma surpresa. Ano passado eu participei, e foi uma experiência nova e boa, pois eu compus alguns textos e foi bem interessante participar disso. Falar de um meio de comunicação como A Crítica é falar também de informação, passar a informação dos monumentos históricos que existem em Manaus, porquê muitos amazonenses não conhecem. Sou de Salinas (PA), mas me considero, pois estou aqui há 15 anos”, declarou ele. 

“Quando você percebe o aluno sendo senhor do seu conhecimento, criando e fazendo e não o professor mais sendo o autoritário, é gratificante, pois o aluno é uma taça de conhecimento e, segundo Rubem Alves (psicanalista, educador, teólogo e escritor), os professores só fazem transbordar essa taça”, salienta a professora Alzanira dos Santos.

Importância das artes em sala de aula

O professor de danças  folclóricas e mestre em folclore, José Nogueira, 68, está no Ifam desde que a tradicional instituição localizada na avenida Sete de Setembro era denominada Escola Técnica Federal do Amazonas (Etfam). Para ele, o desenvolvimento de atividades como essa, desempenhada pelos alunos e retratando a história dos monumentos culturais por meio do cordel, foi de extrema felicidade.

“A professora Alzanira dos Santos foi muito feliz ao trazer um momento desse de folclore ao Ifam. O cordel é um tipo de folclore genuíno. E quando se fala de uma forma simples desses monumentos que a gente não conhece a história, até o sentido popular da coisa dá a impressão que o povo mais sofrido, que não entende muita coisa, pode compreender essa história. A maneira simples da própria literatura no linguajar que eles usam dá perfeitamente bem para se entender toda essa cultura, toda essa riqueza que Manaus guarda dentro dela e  que a gente não conhece”, analisa o mestre.

Nogueira comentou  também que a iniciativa é mostra que Arte e Educação, juntas, sempre dão certo. “Acredito que quando se tira a Arte da Educação, está se corrompendo alguma coisa. Um povo sem cultura não existe. No momento em que algumas autoridades pensam que tirando a Arte do contexto educacional, o que o aluno vai pensar, o que vai criar e ter para progredir? Absolutamente nada”, critica ele.

Blog: Nereida Torres, 16 anos, aluna do Ifam

“Para mim representou muito este projeto, pois ele foi desenvolvido logo que eu cheguei aqui no Ifam, ano passado. Foi uma experiência nova, pois eu cheguei sem expectativas e ele meio que conseguiu aplacar essas mesmas expectativas. Foi bom porque eu particularmente não conhecia o Palacete Provincial antes do projeto. E com o tempo eu fui conhecendo  as histórias e descobrindo que Manaus também não é só aquelas coisas de  cartões-postais normais, e tem, sim, muito mais belezas e coisas a serem aprendidas. Eu ajudei a reajustar vários dos cordéis, e o meu original era o Teatro Amazonas. Na hora da apresentação, aqui pra vocês da imprensa, foi um desafio, e apesar de tudo eu consegui decorar e acredito que me saí bem, sim. O projeto me fez ser mais amazonense do que eu era”.

TRECHOS

“O majestoso Teatro Amazonas/No apogeu da borracha nasceu/Com interesse de outros povos/Na selva amazônica floresceu”. 

“Está situado em Manaus/Este patrimônio cultural/Que encanta o mundo todo/Com sua beleza colossal”.

Cordel que homenageia o Teatro Amazonas


“O mercado Adolpho Lisboa/Belo monumento municipal/Tem beleza em sua estrutura/É orgulho da capital”

“É feito todo em ferro/R com vidro colorido/Foi o segundo mercado/No Brasil a ser construído”

Cordel que homenageia o Mercado Municipal Adolpho Lisboa

 

“Perfeita e primorosa /Foi muito apreciada/E pelas mãos dos construtores/Foi bastante caprichada”

“Mas este belo patrimônio/Foi ficando abandonado/E depois de algum tempo/Passou a ser depredado”

Cordel que trata da Catedral Metropolitana de Nossa Senhora da Conceição (a popular Igreja da Matriz)


“No governo de Constantino Nery/Uma nova obra foi iniciada / Um novo prédio oficial/Foi construído com matéria importada/E no dia 5 de outubro de 1910/A Biblioteca foi inaugurada” 

Cordel que trata da Biblioteca Pública do Amazonas
 

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