Publicidade
Manaus
MOMENTOS DE TERROR

'Não desejo ao meu pior inimigo', diz agente feito refém após massacre no Compaj

Agente penitenciário deu detalhes sobre momentos vividos durante chacina que deixou 56 mortos no Complexo Penitenciário Anísio Jobim. "Foi Deus que me deu aquele livramento", disse ele após sair vivo 06/01/2017 às 16:15 - Atualizado em 06/01/2017 às 20:40
Show agente
Agente foi ameaçado e viu detentos serem mortos no Compaj (Foto: Márcio Silva)
Oswaldo Neto Manaus (AM)

O massacre histórico do Complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compaj), ocorrido no último domingo (1), perturbará a memória de todos por muito tempo. Para quem viu de perto a agonia e o terror de vidas serem tiradas diante dos seus próprios olhos, além de ficar cara a cara com a possibilidade de ser uma das 56 vítimas fatais do episódio, talvez a história se transforme num trauma. “Um trauma daquele você não tem condições de pisar na porta depois. É como se Deus tivesse me dado aquele livramento”.

Afastado da função desde o dia da chacina que deixou um caminhão de corpos decapitados no presídio, localizado no quilômetro 8 da BR-174, Manoel* contou em detalhes à equipe de A CRÍTICA sobre o momento de pânico vivido no local. O embate das duas facções criminosas - Família do Norte e o Primeiro Comando da Capital (PCC) – no primeiro dia de 2017 foi o estopim de uma série de ameaças feitas por membros da FDN.

No Compaj, Manoel confirmou que os presidiários eram separados por facções, e os PCC, segundo ele, eram menor número no complexo penitenciário. “O Compaj era dividido em Família do Norte e PCC. Todo mundo sabia que era assim. Eles (PCC) pediam o tempo todo pra serem transferidos de lá, porque sabiam que a qualquer hora iriam morrer. O grupo deles era menor ali dentro”, revelou Manoel.

Massacre
Manoel trabalhava no presídio há cerca de 1 ano por meio da empresa Umanizzare. Para ganhar R$ 2 mil mensais e realizar o sonho de comprar um carro, ele trabalhava 12 horas por dia, onde antes precisou realizar testes psicológicos, exames de saúde, aprendeu lições de direitos humanos, primeiros-socorros, defesa pessoal e gerenciamento de crise. Apesar disso, nenhum ensinamento dado a ele suportou tamanha brutalidade cometida pelos detentos no dia do massacre.

O tumulto iniciou por volta das 16h do domingo, após o término das visitas. Todos os detentos estavam fora das celas e não havia mais nenhum familiar no local. Naquele momento, Manoel foi imobilizado pelos detentos e ameaçado. “Eles disseram ‘perdeu, playboy!’, depois saíram me arrastando para fora da cadeia e o local que dava acesso aos PCC, que era o alvo deles. Alguns agentes conseguiram correr e eles vieram arrastando todo mundo”, disse.

Segundo Manoel, pelo menos 12 agentes ficaram sob o poder dos detentos. Eles foram obrigados a presenciar a morte de dezenas de homens que cumpriam pena no Compaj. “A todo o momento pensei que fosse morrer, que não fosse mais ver minha família e meus amigos. Eu pedia pelo amor de Deus... Ficava o tempo todo orando para que eles não fizessem nada comigo. Eu disse que tinha família, um filho aqui fora... E eles diziam ‘Então fica quieto. Se tu tentar fazer alguma coisa a gente vai te matar e todo mundo. Mas a nossa intenção não é matar vocês, mas matar esses vermes todos!’”, contou.

Manoel só foi libertado após a chegada de representantes dos direitos humanos e o cerco realizado pela polícia do lado de fora do presídio. “Senti que eu nasci de novo. Foi Deus que me deu aquele livramento. Peço que nunca passe de novo e não desejo pro meu pior inimigo”.

Denúncias
Culpada pelo ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, pelo massacre ocorrido na capital, a empresa Umanizzare se posicionou sobre o caso afirmando que cabe ao Estado cuidar das atividades-fim, tais como a execução da pena dos sentenciados, a direção do presídio e a disciplina e vigilância dos detentos.

Sobre as possíveis falhas cometidas pela empresa, Manoel defende a categoria afirmando que os agentes não são culpados pelo massacre. Segundo ele, no presídio as leis dos detentos eram predominantes e os encarcerados eram os próprios funcionários. Sobre a quantidade de armas vistas no dia da chacina, Manoel não soube explicar como as armas entraram no presídio. “É gente grande que encontrou outros mecanismos e que recebeu dinheiro para entregar aquela quantidade de armas. Não pretendo retornar nunca”.

Publicidade
Publicidade