FICOU MARCADO

"Não dormia 2 horas por dia", relembra policial sobre a crise de oxigênio em Manaus

O relato é do investigador da Polícia Civil do Amazonas, Fabiano Barroso, ao relembrar o que Manaus vivenciou no dia 14 de janeiro de 2021, quando houve falta de oxigênio medicinal para pacientes internados com Covid-19

Amariles Gama
16/01/2022 às 14:17.
Atualizado em 08/03/2022 às 16:10

“Acho que eu não dormia 2 horas por dia, nem eu, nem os colegas envolvidos, porque já tinha notícia de que em algum lugar estava faltando oxigênio. Era impossível colocar a cabeça no travesseiro e dormir sabendo que um determinado lugar iria faltar oxigênio e que talvez você pudesse ajudar. Então, não dava, a gente ficou naquele clima de tensão 24 horas”.

O relato é do investigador da Polícia Civil do Amazonas, Fabiano Barroso, ao relembrar o que Manaus vivenciou no dia 14 de janeiro de 2021, quando houve falta de oxigênio medicinal para pacientes internados com Covid-19, e nos dias subsequentes ao colapso no sistema de saúde. 

Fabiano integrou uma equipe de policiais que atuou no apoio logístico durante a crise de oxigênio no estado, transportando cilindros de oxigênio para os hospitais e demais doações. Um ano após o colapso provocado pela falta de oxigênio, Barroso conta como foi aquele dia que seguirá na memória coletiva. 

“Nós iniciamos um plantão na Delegacia Geral pra atender os casos de desobediência ao decreto. Nessa mesma noite começaram a chegar notícias de um aumento grande de internações, muitas pessoas sendo internadas, ficando doentes, os óbitos aumentando e o oxigênio faltando, que foi o principal. Aí se estabeleceu aquele clima meio que de desespero”, relembra. 

Segundo o investigador de polícia, naquela mesma noite também foi apreendido um caminhão com carga de oxigênio que foi encaminhado para a Delegacia Geral, onde os procedimentos estavam sendo realizados. “Começaram a chegar notícias de oxigênio faltando em hospitais, e aí foi aquela loucura. Pegamos essa carga e começamos a levar, acho que o primeiro hospital foi o Beneficente Português”, contou.

O policial detalha que a equipe se descolocou para o hospital Beneficente Português quando recebeu a notícia de que dentro de 30 minutos iria faltar oxigênio na unidade hospitalar. “Chegando lá o oxigênio tinha acabado de terminar, e foi assim um momento muito forte. Os familiares estavam lá e quando nós chegamos com o oxigênio, as pessoas se ajoelharam, rezavam, agradeciam, foi um negócio muito forte”, lembra.

A partir daí, segundo Fabiano, a equipe policial começou a atuar diuturnamente no apoio logístico aos hospitais, indo nas empresas que forneciam oxigênio, colhendo outras doações e ajudando no abastecimento de oxigênio e insumos nos hospitais da capital e interior. 

“Foi um cenário de guerra mesmo. Todos os dias correndo atrás de oxigênio pra poder suprir a necessidade de hospitais. Infelizmente, algumas vezes a gente não conseguiu, tinha notícia de pessoas que faleciam por conta da falta de oxigênio. Mas, a maioria das vezes, graças a Deus, nós conseguimos”, disse. 

Engajamento da sociedade civil

O investigador de polícia destacou também a atuação da sociedade civil na doação de insumos, e ressaltou que o papel deles foi fundamental durante a crise. “Houve um engajamento muito forte da sociedade civil, pessoas doando, atores, pessoas famosas de outros estados doando, os blogueiros aqui do Amazonas se uniram e conseguiram doações. O papel deles foi fundamental”, destacou.

“Todo esse pessoal que participou de doações, eles nos procuravam, nós recebíamos essas doações e remanejávamos para os hospitais, víamos onde estava faltando e levávamos. E assim nós ajudamos a administrar essa crise porque foi algo assim surreal, algo que eu acho que ninguém imaginaria que teria aquela proporção,” completou Fabiano, ao destacar que, nesse período, as atividades de rotina ficaram em segundo plano e o foco total era conseguir distribuir oxigênio para os hospitais.

Perdas de colegas de farda

Fabiano Barroso também relembrou um dos momentos mais marcantes e difíceis para ele, que foi a morte por Covid-19 de um investigador antigo da Polícia Civil, Gilberto Campos. “O cara era muito fera, era um senhor e mesmo sendo um cara de idade tinha energia de um iniciante. O cara não dizia não para o trabalho. Ele e a esposa foram acometidos pela covid, um não chegou a se despedir do outro”, conta.

No momento em que recebeu a notícia da morte do colega de farda, Fabiano estava no município de Iranduba entregando oxigênio. Ele conta que a reação da população com a chegada dos insumos era sempre a mesma: “uma mistura de desespero com alívio”. Mas, aquele sentimento de alívio logo deu espaço para a comoção de toda a equipe com a morte do colega. 

“Mesmo assim nós continuamos e graças a Deus as coisas foram amenizando, a custa de muito sacrifício, a custa de vidas, inclusive. Mas foi melhorando e hoje estamos nesse cenário razoavelmente controlado, e o que eu espero é que não volte a se repetir”, disse. 

Dados do último Anuário Brasileiro de Segurança Pública apontam que o Amazonas foi o terceiro estado com maior número de mortes de policiais por Covid-19, em 2020. Naquele ano, o estado registrou a morte de 50 policiais civis e militares pela doença, e 704 policiais foram afastados devido a complicações da Covid-19.

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