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Manaus
TRISTEZA

‘Não quero voltar, pois sei que vou chorar’, diz ex-colaboradora do hotel Ariaú Towers

Agricultora Almira de Souza Ribeiro, 77, foi uma das primeiras prestadoras de serviço do hotel que hoje está em ruínas 05/02/2017 às 05:00 - Atualizado em 05/02/2017 às 08:58
Luana Carvalho Manaus (AM)

“Todo mundo ganhava seu pão de cada dia quando o hotel funcionava. A gente passou a ter energia elétrica, água boa para beber e até sinal de telefone”, relata a agricultora Almira de Souza Ribeiro, 77, conhecida por todos ao longo do rio Ariaú como “Tutuca”.  Moradora da comunidade Santa Maria do Lago do Ubim, ela foi uma das primeiras prestadoras de serviço do hotel Ariaú, vendendo verduras e hortaliças que ela mesma cultivava.  Hoje, o famoso hotel de selva, está entregue às ruínas.

“Eu plantava para o meu consumo e, quando surgiu rumores de que estavam fazendo o hotel, decidi tirar um palmo de cada coisa e levar para lá  ver se eles compravam ou trocavam por algum rancho”.  

Na primeira leva, Tutuca ofereceu couve, cebola, cariru, alface e tomate paulista. “Lembro que, em troca, me deram uma sacola de fibra, cheia de comida. O Lima, que era gerente da época, ainda me pagou 15 cruzeiros e pediu para eu levar minhas verduras toda semana, que eram as mais bonitas que ele tinha visto. Ele perguntou quanto custava minhas hortaliças, mas eu não sabia. Era a primeira vez que eu vendia o que eu produzia”. 

Com a fala cansada e sem poder trabalhar como antes, Tutuca demonstra gratidão ao hotel que a ajudou a criar 15  filhos. “Quando alguém ficava doente, ia pra lá e lá eles mandavam a lancha levar pra Manaus. Depois que soube do que aconteceu, não botei mais meus pés lá, sei que vou chorar. Pra mim vai ser uma tristeza ver o hotel se acabando”, disse, ao mesmo tempo em que passava a mão no rosto para enxugar as lágrimas.  

A filha dela, a guia de turismo Natalina de Souza, 44, também trabalhou no Ariaú desde o início, tanto como freelancer quanto como funcionária de carteira assinada. “Na época que estava no auge mesmo, quando dava muita gente, nós nem nos preocupávamos com o salário porque era muita gorjeta, e em dólar”.

Todos os dias, os guias se reuniam e levavam os turistas para visitar uma comunidade. “Os hóspedes queriam conhecer o verdadeiro caboclo. Logo, eles ajudavam, davam gorjetas, compravam artesanatos, consumiam em algum bar da comunidade. Todo mundo vivia bem”, lembrou.

Animais habituados também sofrem
Meio dia em ponto os ‘macacos-de-cheiro’ se aproximam do lobby do hotel, próximo à torre em que ficava o restaurante. Eles também eram uma das principais atrações do Ariaú e encantavam os visitantes em troca de comida.   O cuidado para que eles não invadissem os quartos dos hóspedes era tanto que as telas precisavam ser trocadas rotineiramente. Agora, também órfãos, os animais vagam livremente pelas dependências do hotel. Nenhum apartamento possui portas ou janelas, pois foram todas furtadas.

Nos quartos já não há mais camas e até os vasos sanitários foram levados. As torres estão sendo “engolidas” pela floresta. Apenas uma delas, de um total de oito, ainda está conservada. Até os equipamentos da antena de telefonia instalada no hotel foram levados. Agora, as comunidades do entorno voltaram a ficar sem comunicação e dependem apenas de telefone rural. Na recepção, alguns homens que se dizem “seguranças” do hotel,  “tomam conta” do que restou.

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