Quinta-feira, 18 de Julho de 2019
LEMBRANÇAS

Natal será de saudades para venezuelanos que estão morando em Manaus

Imigrantes falam que o dia natalino será uma data para relembrar ainda mais da terra onde nasceram e dos parentes



venezuelanos_A3B2AA95-9C24-4C4F-BF50-B7DD68FFBDE7.JPG Ao centro, Rosa Palma, ladeada pelos herdeiros Rafael e Keila Polido. Foto: Jair Araújo
23/12/2018 às 20:38

O Natal será de saudades para os imigrantes venezuelanos que chegaram em Manaus tentando escapar da crise econômica e política em seu país. Para muitos refugiados, os abrigos assistenciais serão o local de confraternização e a oportunidade de rever amigos da terra natal. Para outros, que já se encontram assentados em casas alugadas, o sentimento saudosista virá à tona e só será amenizado, em parte, pela presença de pessoas próximas.

A administradora de empresas Rosa Palma, 43, veio para Manaus há cerca de 10 meses com os filhos Rafael Polido, 20, e Keila Polido, 18, e ficaram morando de um lugar a outro, e até mesmo no depósito de uma igreja local, e por último na rua, ao relento, até conseguirem se instalar no Abrigo Oásis, localizado em Adrianópolis, Zona Centro-Sul. A empresa na qual ela trabalhava, na Venezuela, fechou e ela ficou desempregada. O filho fazia faculdade de Química e filha Geologia. Ambos tiveram que deixar tudo e abandonar a Venezuela.

Os olhos ficam cheios de lágrimas quando ela lembra que o próximo Natal será sem o restante da família no Estado de Anzoategui. “(suspiro) Essa é a parte que eu não gostaria de falar. Vou sentir saudades dos meus pais Luiza e Simon (ela começa a chorar e eu interrompo a entrevista para falar com os filhos dela).

“O Natal para nós vai ser um pouco difícil porque é a primeira vez que vamos passar a data fora, longe da família. Mas temos força com todos os venezuelanos que estão morando aqui no abrigo, e com apoio da dona Irajane Souza. Vou sentir falta do meu pai e dos meus outros dois irmãos”, disse Rafael Polido, enfatizando o apoio dado pela diretora do abrigo Oásis. “E com o apoio de Deus e de Nossa Senhora vai dar tudo certo”, completa ele.


O Abrigo Oásis é um dos locais que vão receber os venezuelanos no Natal

No abrigo, a família vai degustar uma iguaria que vai fazê-los amenizar a dor da saudade: para a noite de Natal será servida a tradicional “hallaca”, prato especial nas celebrações natalinas que consiste em uma massa feita de fubá com recheio de vários alimentos e que é embalada por folhas de bananeira durante o cozimento. Nessa hora, o trio vai esquecer das dificuldades, se transportar para a Venezuela e abraçar, em pensamento, todos os entes queridos, como nos bons e velhos tempos.

Carrinho de lanche

Após idas e vindas sem um teto seguro, a vendedora de lanches Liomar Alvarez conseguiu, finalmente, alugar uma pequena casa, em uma vila do Parque Dez de Novembro, e trazer os filhos Alexander, 9, e Alixmar Alcalá, 15, para morar junto.

“Na Venezuela eu tinha dois trabalhos no setor administrativo, mas não dava pra comer. E sou cabeleireira. Mas hoje vendo lanches empurrando um carrinho adaptado de supermercado pelas ruas. A saudade vai ser forte de quem ficou lá, como dos meus pais. Nossa família, agora, é o pessoal do abrigo Oásis. E vamos estar no Natal com eles”, disse ela, dizendo que, aos poucos, está encontrando paz.

Três irmãs e filho

Já Enni Perez, 34, veio da terra natal com o filho Jose Perez, 7, e as irmãs Gabriela Marquez, 30, e Samantha, 39. Há um mês na capital amazonense, eles ainda estão no abrigo, mas planejam voos futuros. Samantha chegou primeiro e vendia banana no Parque Dez - hoje, é enfermeira. Anni é diarista, e Gabriela trabalha em um lanche.

“Neste Natal estamos gratos por estar aqui. Mas por outro lado tristes porque tenho um filho de 17 anos na Venezuela. Ele estava concluindo o ensino Médio, por isso não pode vir comigo. É como se isso me arrancasse um pedaço do coração”, disse Enni, chorosa.

Igualmente emotiva é Gabriela. “O dia 24 será difícil pois vai trazer a lembrança da minha mãe e de dois filhos”, explica a venezuelana, enxugando as lágrimas que caem na mesa e sobre uma Bíblia.

Mãe morreu antes de vir a Manaus

Alguns relatos obtidos por A Crítica são chocantes, como o de Wilner Jose Toro Rodriguez, que veio para Boa Vista e, em seguida,  Manaus, com a esperança de dias melhores, encontrar um emprego e, num segundo momento, trazer a mãe, que estava doente. Ele ainda está desempregado e foi ajudado pela direção do Abrigo Oásis, que lhe instalou no local, mas convive com a dor da perda da própria mãe, Elner Rodriguez Deivalle, que faleceu há alguns meses. “Não conseguíamos comprar medicamentos para ela lá na Venezuela. O planejamento era trazê-la para Manaus, mas infelizmente não deu. Neste Natal a saudade vai ser dela”, disse Wilner, segurando uma Bíblia.

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