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Manaus
HISTÓRIA

Navio guardião de 123 anos de história da navegação na Amazônia está à venda

O Justo Chermont, embarcação citada pelo romancista Ferreira de Castro e cenário de filmes e séries, passa por reformas. O preço de venda dele é R$ 5 milhões 03/11/2018 às 17:58 - Atualizado em 04/11/2018 às 15:20
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Foto: Winnetou Almeida
Álik Menezes Manaus (AM)

O navio Justo Chermont chama a atenção de turistas e amazonenses que passam pela orla da Manaus Moderna, no Centro da capital amazonense, nos últimos três anos. O imponente navio a vapor, de 48 metros quadrados, construído em 1895 na Inglaterra, está à venda. A embarcação ficou conhecida nacionalmente após ter sido citada no livro “A Selva”, do romancista Ferreira de Castro, e ter sido cenário luxuoso na minissérie “Amazônia” e nos filmes “A Selva” e “Diários de Motoqueiros”.

No ano de 1930, a embarcação ganhou fama nacional após a publicação do livro “A Selva”, do português Ferreira de Castro, que viajou no navio de Belém, no Pará, até a capital amazonense e, depois, para o Seringal Paraíso, em Humaitá, em 1911. Há 20 anos, o navio foi cenário de filmes e recebeu artistas nacionais renomados como Maitê Proença e Christiane Torloni. “Muitas histórias foram contadas nesse navio, muitos  artistas contracenaram aqui, foram anos incríveis. Sinto saudades daquela época”, contou o comandante do navio, Waldir Rodrigues, de 49 anos.

O comandante lembra saudosista da época em que o navio cortava as águas dos rios do Amazonas, das festas promovidas no salão principal e das gravações e participações nas produções. “Os artistas adoravam viajar no navio, adoravam a decoração que a gente mantinha original, os camarotes e os ambientes confortáveis, que o próprio navio nos proporcionava. Foram anos incríveis, que lembro com muita saudade”, afirmou.

Há três anos, no entanto, Justo Chermont está atracado no porto da Manaus Moderna, no Centro, onde passa por reformas. Os móveis, que antes ganhavam destaque pela imponência e cuidados, hoje estão se decompondo com a ação do tempo e o navio está em obras.  Apesar da intenção do proprietário de vender o imóvel, o comandante ainda se imagina navegando pelos rios do Amazonas com a embarcação. “Ah, meu maior sonho é ver funcionando de novo e desbravando as águas dos rios”, disse.

A admiração e a paixão pelo navio é tão grande que o comandante já recusou propostas para trabalhar em outras embarcações, ganhando salário significativo. “Eu ainda espero um dia poder voltar a fazer o que eu amo fazer, amo esse navio”, completou.

O vendedor

O empresário Adailton Cabral, proprietário do navio há mais de 30 anos, disse que chegou a hora de vender a embarcação. O valor do navio é de R$ 5 milhões, mas o empresário aceita propostas. “Dizem que o navio tem muitas histórias, mas eu tenho mais. Estamos abertos a negociações. Estamos com ele parado apenas para fazer as reformas necessárias”.  Quem tiver interesse, pode entrar em contato pelo número (92) 9 9982-6851.

História que encanta

A advogada Maria Santana de Souza, de 55 anos, que caminhava próximo à embarcação disse que leu o livro “A Selva” e, quando soube que o navio está atracado na Manaus Moderna, sentiu o desejo de ir até lá para conhecer a estrutura que foi palco de várias produções. “Para muitas pessoas pode até ser apenas uma embarcação, mas, na verdade, lá guarda um pouco da história do Amazonas. Eu gostaria muito que aquilo virasse um espaço para visitação, seria incrível”, disse.

O estudante de História Marcos Henrique de Oliveira, de 22 anos, sugere que a embarcação seja comprada por instituições ou pelo Governo do Estado para ser transformada em um espaço cultural. “Seria fantástico poder entrar nele e ser remetido àquela época, quando o navio funcionava movido a vapor”, disse.

Modificações

Pesando 738 toneladas, originalmente o navio Justo  Chermont  era movido a vapor, mas, posteriormente, foi adaptado e funciona, há pelo menos 20 anos, com motor de queima de combustível. Pertenceu à Amazon River Steamship Navigation Company. Segundo o atual comandante, hoje o navio chega a 10 milhas por hora e tem força para empurrar até quatro balsas.

Justo Chermont

Justo Pereira Leite Chermont foi um advogado, jornalista e político brasileiro, filho de Antônio Lacerda de Chermont, visconde de Arari, e Catarina Pereira Leite Chermont, nascido em Belém (PA) em 1857. Ele participou do movimento republicano no seu estado. Foi deputado provincial em 1880 e, com a Proclamação da República, foi escolhido governador do Pará entre 1889 e 1891.  Na presidência do marechal Deodoro da Fonseca foi ministro dos Negócios Estrangeiros. Também foi senador durante um longo período (1894-1900; 1900-1909; 1921-26) e tentou sem sucesso a vice-presidência da república, nas eleições de 1902, na chapa republicana dissidente de Quintino Bocaiúva, apoiado pelos Partidos Republicanos do Pará, Pernambuco e pelo Partido Republicano Fluminense. Voltou ao Senado de 1921 a 1926, ano em que faleceu, no dia 2 de abril.

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