Quarta-feira, 24 de Abril de 2019
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VIOLÊNCIA DOMÉSTICA

'Nem toda agressão é física', dizem especialistas do AM sobre relações abusivas

No ano passado, quase 13 mil casos de violência doméstica contra mulheres foram registrados em Manaus. Profissionais afirmam que medo e sensação de perigo não devem fazer parte de relacionamentos


11/04/2017 às 15:40

Tudo começa com um comentário que abala a autoestima. Com o passar do tempo, o tom de voz aumenta e se torna ameaçador, a fala fica agressiva, causando medo e uma sensação de perigo eminente. A vítima se transforma em um refém de uma bomba-relógio e talvez não perceba que está vivendo em um relacionamento abusivo, etapa que antecede uma agressão física mais grave, homicídio ou feminicídio. Especialistas ouvidos por A CRÍTICA são unânimes em afirmar que violência doméstica não é comum dentro de qualquer relacionamento e revelam alguns sinais que podem ajudar a identificar o problema e sair dele.

Dados mais recentes divulgados pela Secretaria de Segurança Pública do Amazonas (SSP-AM) mostram que quase 13 mil casos de violência doméstica foram registrados nas delegacias de Manaus entre janeiro e outubro de 2016, ao passo que três foram resultaram em feminicídios, que é quando a mulher morre em contexto de violência doméstica ou pelo simples desprezo pelo gênero feminino.

“A violência doméstica, segundo a Lei Maria da Penha, é aquela exercida contra a mulher por pessoas que com ela possuem um vínculo familiar, afetivo ou íntimo”, explicou uma das fundadoras do Instituto Mana, a advogada Nayana Góes.

A ONG criada em Manaus não tem fins lucrativos e luta pela promoção e defesa dos direitos das mulheres (cis ou trans). Além disso, o projeto também é conhecido por prestar aconselhamento a pessoas do sexo feminino de diversas cidades do Brasil por meio das redes sociais.

Anne Paiva, Nayana Góes e Keila Martins são as coordenadoras do Instituto Mana (Foto: Arquivo/AC)

Ela acrescenta que a violência doméstica abrange todas as relações familiares, porém, as agressões contra as mulheres acabam sendo maioria em todas as pesquisas. De acordo com a Secretaria Especial de Política para Mulheres, 3 em cada 5 mulheres já sofreram violência em relacionamentos. Em mais de 80% dos casos, a violência é cometida por homens com quem as vítimas têm ou tiveram algum tipo de vínculo afetivo.

“Pode ser, por exemplo, a sogra que agride a nora; o tio que agride uma sobrinha; o irmão que agride a irmã, namorado ou namorada que agride a parceira e até ex-parceiros da vítima. Quando falamos de agressão também não estamos nos referindo apenas à violência física. Ainda de acordo com a Lei Maria da Penha a violência doméstica contra a mulher pode ser física, sexual, psicológica, moral ou patrimonial. A agressão verbal, desse modo, é uma das formas em que a violência contra a mulher pode se manifestar”, explicou Nayana.

Ciclo da violência e ‘DRs’

A violência contra a mulher é estudada por meio de um ciclo, o “Ciclo da Violência Doméstica”. Nele, as agressões começam no “aumento da tensão”, alimentadas por injúrias e ameaças tecidas pelo agressor. Em seguida surge o ápice, que é o “ataque violento”, onde o agressor maltrata fisicamente e psicologicamente a vítima, e posteriormente é substituído pela “lua-de-mel”, que é quando parceiro resolve dar carinho e atenção, desculpando-se pelas agressões e prometendo mudar. Na maioria das vezes ele afirma que nunca mais voltará a exercer violência.

Questionada se é possível identificar a diferença entre um abuso doméstico e uma “DR”, popularmente conhecida como uma “discussão de relacionamento”, outra coordenadora da ONG, Keila Martins, disse que o diálogo entre o casal é a principal distinção entre esses dois momentos.

“É importante perceber que desentendimentos e brigas acontecem em todos os relacionamentos, mas quando a relação é saudável essas situações são resolvidas com diálogo, as famosas DRs, onde os dois são ouvidos e chegam a um acordo”.

Ela argumenta, ainda, que num relacionamento abusivo apenas uma das partes faz exigências. “Os desentendimentos vão além de meros desacordos. Uma das partes exerce verdadeiro poder sobre a outra, atacando e afetando a vítima em seus aspectos mais íntimos, prejudicando sua percepção de si mesma e do mundo com o intuito de mantê-la submissa e as discussões nunca resolvem de fato o problema que, ao contrário, persiste e vai se agravando”, esclareceu a advogada.

Experiência sentida na pele

A delegada titular da Delegacia Especializada em Crimes Contra a Mulher (DECCM), Débora Mafra, afirma que a Lei Maria da Penha também oferece apoio às vítimas de violência doméstica ainda que não seja registrada agressão física por parte da vítima. Segundo ela, o número de denúncias aumentou por conta do conforto das mulheres em fazer as denúncias

“Elas sabem que existem vários mecanismos de proteção a elas, coisa que no passado não existia. Com isso elas estão se empoderando e tendo coragem de mudar de vida e sair do ciclo de violência doméstica”.

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Mafra conta que foi vítima de violência por 20 anos de um antigo parceiro. Segundo ela, a dependência financeira e o fato de ter dois filhos impediam que ela denunciasse o seu agressor. Ao ouvir as histórias em seu gabinete, ela afirma que tenta incentivar essas mulheres por meio da sua trajetória.

“A situação que eu vivia me faz entender como as mulheres pensam. Seus meus e suas ansiedades. E os agressores também. Não tenho ódio deles, muito menos quero me vingar. Apenas ajo com o rigor da lei e também procuro os ajudar de maneira de eles mudem de atitude para terem, no futuro, um relacionamento feliz, sempre respeitando a mulher”.

Ela considera que a vítima deve dar o primeiro passo em busca da mudança. “Esta vontade nos dá a força necessária para não recuar e seguir em frente, depois, vemos como valeu a pena, vemos que existe vida sem violência. Me casei novamente e hoje sou respeitada como mulher, esposa e profissional que sou, meu atual marido é maravilhoso comigo”.              

Incentivo na busca por apoio

Todas as profissionais concordam que a busca por apoio e a distância do agressor são atitudes essenciais para fugir de um relacionamento abusivo logo no início. No Instituto Mana, as coordenadoras oferecem atendimento por meio das redes sociais às vítimas para agilizar o processo de orientação.

“É o primeiro passo para a mulher procurar ajuda, pois geralmente o parceiro abusador é tão bem-sucedido em minar a confiança, a autoestima e a identidade da mulher com mentiras, chantagens e manipulações que ela se sente incapaz de sair daquela situação. Em nosso atendimento pelo Facebook nos propomos principalmente a esclarecer a mulher sobre seus direitos e entender como reivindicá-los”, explicou a advogada Keila Martins.

Na Delegacia da Mulher, as vítimas podem fazer denúncias ligando para os números 181 e 3582-1610.

Veja 5 sinais de um relacionamento abusivo:

Parceiro controlador: se por qualquer motivo, geralmente por ciúmes, o parceiro não permite que a vítima saia de casa sem ele; se ele a afasta de amigos e família; não a deixa estudar ou trabalhar; é controlador quanto ao que ela faz, aonde vai, com quem pode ou não conversar, como deve se vestir e até o que pode dizer ou não;

Prática do Gaslighting: é uma forma de abuso psicológico no qual informações são distorcidas, seletivamente omitidas para favorecer o abusador ou simplesmente inventadas com a intenção de fazer a vítima duvidar de sua própria memória, percepção e sanidade. Alguns exemplos de como isso pode acontecer são: quando vocês brigam e a mulher sempre sai como a culpada, mesmo que no início da discussão ela estivesse convencida de que ele quem tinha feito algo errado; se ele a chama de “louca” ou “neurótica” com frequência e a faz duvidar do que viu ou ouviu;

Inferiorização da mulher: Se o modo dele de agir ou as coisas que ele fala fazem ela se sentir uma pessoa ruim, incompetente, “burra”, insignificante ou que não merece ser amada; se ele denigre a imagem dela para as pessoas do seu convívio; se desde que eles estão juntos o agressor faz ela se sentir angustiada, sozinha, confusa, menosprezada e sempre que tenta terminar o relacionamento ele a convence de que ninguém vai amá-la como ele e que aquela situação, mesmo ruim, é o melhor que ela pode ter; enfatiza seus defeitos ou falhas, ao mesmo tempo em que é incapaz de reconhecer as qualidades e acertos dela;

Agressões verbais: o parceiro a xinga com frequência, em particular ou em público, ameaça machucá-la ou prejudicá-la de alguma forma.

Raiva abusiva: se o parceiro fica agressivo ou irritado com facilidade; se nos momentos de raiva ele fica transtornado e parece “virar bicho” ou “ficar fora de si”, a ponto dela passar a ficar extremamente cautelosa quanto ao que diz ou faz com medo da reação dele. Esses rompantes de raiva geralmente são justificados pelo agressor colocando a culpa na vítima, ou, posteriormente, agindo como se nada tivesse acontecido.

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