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No Dia Mundial de Combate ao Trabalho Infantil, as crianças foram para as ruas assim mesmo

Condenado pelo ECA, trabalho infantil nos semáforos envolve crianças de nove a 12 anos que arrecadam dinheiro para ajudar famílias 12/06/2015 às 22:15
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Crianças, entre nove e 12 anos, ‘trabalham’ para ajudar a sustentar as famílias em sinais de trânsito fazendo malabarismos com limões; prática é condenada pelo Estatuto da Criança e do Adolescente, mas é uma realidade em Manaus
LUANA CARVALHO Manaus (AM)

Eles ficam em pelo menos cinco pontos da Zona Centro-Sul, têm entre nove  e 12 anos e tentam fazer, sem muita experiência,  malabarismo com limões para ganhar alguns trocados nas esquinas. “Meu mundo está de cabeça pra baixo e estou nessa vida  porque ganho dinheiro fácil”, disse Eduardo*, de apenas 10  anos.

Perspicazes e desconfiados,  tentam ludibriar quem chega para conversar com eles e demonstram claramente  medo do Conselho Tutelar. “A senhora deve ser assistente social. Está com esse papo para nos enganar. Vou logo dizendo que minha mãe não pode perder o Bolsa Família”, disse o mais velho,  Thiago*, de 12 anos.

A cada hora eles contam que moram em uma rua diferente, como se tivessem noção de que o que estão fazendo é errado e tentassem proteger a família. Mas eles não tem. Nem o nome da escola souberam informar. “A gente estuda de manhã, e de tarde vamos pro sinal faturar. Mas não me lembro direito o nome da escola”, contou Diogo* enquanto contava as moedas em uma sacola plástica, na sarjeta da avenida Mário Ypiranga, próximo à rotatória do conjunto  Eldorado, no bairro Parque 10.

É neste local e em outros quatro pontos que os meninos se revezam e conseguem faturar, em média, R$ 200 por dia, cada um. “Esse dinheiro serve pra gente ajudar a sustentar nossa casa e também pra comprarmos roupas, sandálias, óculos”, comentou um deles.

Os que não são parentes, são vizinhos. A maioria reside no bairro Colônia Antônio Aleixo, Grande Vitória e Jorge Teixeira, na Zona Leste. “A gente vem trabalhar pra cá porque é onde tem mais ‘carrão’. Os motoristas dos carrões sempre dão mais dinheiro. Lá pra nossa área ninguém tem dinheiro pra nos dar”, revelou Vinícius*, 10.

“Trabalho duro”

Eles contam que veem mais vantagem em  trabalhar no sinal do que ir à escola. “A gente trabalha duro como qualquer outra pessoa. Depois com esse dinheiro temos que ajudar a comprar o pão  também. Geralmente minha mãe fica com a metade e a outra metade eu gasto comigo”, completou Vinícius.  No sinal, muitos motoristas dão trocados a eles, sem se darem conta de que estão diretamente contribuindo para  a violação dos direitos das crianças e adolescentes. Por outro lado, os meninos reclamam de que “não tem coisa melhor para fazer”, e se arriscam em meio a carros, ônibus, e motociclistas nas principais ruas de Manaus.  

Quando eles não estão na rotatória do Eldorado,  vão para a esquina da avenida  Umberto Calderaro com a rua Teresina. Na rua Salvador com Mário Ypiranga, ou na Constantino Nery com João Valério.

Erradicação do trabalho infantil

A coordenadora do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (PETI), Iracilda Nascimento, informou que 83 crianças e adolescentes de Manaus estão envolvidos com o trabalho infantil. “É uma realidade bem mista, além de não irem à escola, tem um grande fator que prejudica: a maioria dos pais desses meninos fazem uso de drogas. Eles não têm referência familiar”. Pensando nessas condições, o PETI desenvolve uma roda de conversa em parceria com ONGs para acompanhar as famílias. “Na última reunião, convidamos um por um para participar da roda de conversa, mas de 83 famílias, recebemos 31. Não depende só da nossa equipe, mas também da boa vontade delas em querer mudar a realidade, mas infelizmente a gente percebe que a droga é muito mais articulada, e isso é o que mais dói e incomoda”.

Ontem (12) comemorou-se  o Dia Mundial e Nacional contra o Trabalho Infantil. Para Iracilda, é importante lembrar que cada cidadão pode colaborar com uma única atitude. “Cada vez que um motorista contribui,  esse número de crianças trabalhando nos sinais aumenta”, afirma. 

Tem a questão social, diz delegada

Para a titular da Delegacia de Proteção À Criança e Ao Adolescente (Depca), Linda Glaucia, os casos são mais de questão social, ainda que a situação de trabalho infantil esteja ligado ao artigo 136 do Estatuto da Criança e do Adolescentes (ECA), que  impõe pena de dois meses a um ano para quem expõe ao perigo a vida ou a saúde.

“Tivemos alguns pais que receberam o flagrante   quando identificamos a prática do crime, mas também há o lado social para ser trabalhado, em razão da extrema pobreza. Tentamos conscientizá-los,  pois quando se coloca uma criança na rua para trabalhar, ela acaba não frequentando a escola e fica exposto a riscos e alta vulnerabilidade aos crimes. Infelizmente muitos pais dizem até que não sabem que esta situação se configura um crime”.

*Nomes fictícios

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