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Manaus
GRAFITE

Nos muros e em viadutos, arte urbana ganha cada vez mais espaço em Manaus

Embora ainda exista preconceito, pinturas em grafite estão ganhando cada vez mais espaço em Manaus. Na comunidade Ouro Verde, no bairro Alvorada, na Zona Centro-Oeste, as gravuras pintadas nas duas últimas semanas tem agradado aos moradores 10/04/2016 às 14:54 - Atualizado em 11/04/2016 às 08:25
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Eles estão em todos os cantos: em casas, muros, viadutos, espaços públicos diversos, e impressionam quem passa próximo (Foto: Aguilar Abecassis)
Kelly Melo Manaus (AM)

As formas e as cores estão ganhando cada vez mais espaço nos muros de Manaus. Diferente da má impressão que as pichações deixam (além de configurar crime ambiental), o “Grafite” é uma forma de expressão e de manifestação artística.

Eles estão em todos os cantos: em casas, muros, viadutos, espaços públicos diversos, e impressionam quem passa próximo, como é o caso dos moradores da comunidade Ouro Verde, no bairro Alvorada, na Zona Centro-Oeste: no entorno do Igarapé do Sesc, que neste mês receberá um parque, todos os muros receberam pinturas temáticas  para deixar o espaço com um “clima” especial.

“Antes isso aqui era só palafita, era feio. Mas com a construção do parque e com essa pintura que está sendo feita, a área está ficando muito bonita”, destacou a dona de casa Meire Nunes, 43. Na opinião dela, as ilustrações e as cores utilizadas no mural também trouxeram “vida” para o espaço.

O grafiteiro Jarbas Lobão, 31, é um dos quatro artistas responsáveis pela obra na comunidade Ouro Verde. De acordo com ele, no começo os moradores estranharam os primeiros traços desenhados, mas depois perceberam a diferença que as pinturas estão deixando no local. “Tiveram pessoas que criticaram, mas agora como as pinturas estão praticamente prontas, muita gente vem falar conosco e parabenizar pelo trabalho. Isso nos deixa feliz, pois o preconceito tem sido colocado de lado”, falou.

“Estamos pintando há duas semanas e a proposta é deixar o parque mais agradável com desenhos que lembram a prática de esportes e a infância. É um trabalho comercial, mas percebemos que as pessoas começam a olhar diferente”, comentou ele.

Em todo canto

As pinturas gigantes, com formas e estilos diferentes, podem ser notadas em vários pontos da cidade. No complexo viário Miguel Arraes, localizado na avenida Mário Ypiranga Monteiro com Darcy Vargas, no Parque 10, na Zona Centro-Sul, um grupo de grafiteiros pintou praticamente todas as pilastras que sustentam a obra, no ano passado. Hoje, é impossível passar pelo local e não observar as imagens.

Na avenida Efigênio Sales, na Zona Centro-Sul, o mural do sauim-de-coleita, obra do artista Rai Campos, 24, o “Raiz”, também chama a atenção não só pela dimensão do projeto, que tem mais de 100 metros de extensão, mas também pelo seu simbolismo: a preservação do sauim-de-coleita. “O sauim é uma espécie que só existe em Manaus e para mim, ele é símbolo de toda natureza, que precisamos preservar. Pinto pelo sauim, pelos igarapés, pela floresta”, disse ele, que tem como identidade retratar a amazônia e os povos indígenas em seus grafites.

Atualmente, o artistas está realizando uma turnê, fazendo grafites em várias cidades do lo interior do Amazonas, e até na tríplice fronteira (Brasil, Peru e Colômbia).

Obras marcantes

Para o grafiteiro Rogério Soares, 40, mais conhecido como “Rogério Amazon”, o graffiti é uma forma de manifestação de pensamento. “Quando chego em uma cidade que não tem grafite, sinto como se aquele lugar não tivesse juventude. É como se as pessoas não estivessem expressando suas ideias”, destacou ele.

Segundo o artista, apesar do grafite estar crescendo em Manaus, ainda é necessário vencer desafios, como o do preconceito. “As vezes sofremos abordagens agressivas da polícia quando estamos fazendo um trabalho de rua, mas têm aqueles que param para elogiar o nosso trabalho”, disse ele ao ressaltar que a arte  dá um toque especial ao visual da cidade.

O historiador da arte, Otoni Mesquita, afirma que no grafite há grandes criações artísticas e que se faz necessário começar a pensar na manutenção dessas obras. “Em muitos aspectos, eles  embelezam sim a cidade, e eu gosto de ver determinadas obras. Mas muitas delas precisam ser renovadas, porque estão desbotadas, e aí, perdem a função. Quando a obra é muito boa, ela impacta e marca”, opinou.

Lei de crimes ambientais

De acordo com a Lei de crimes ambientais (Lei 9605/98), a prática de grafite não constitui crime se realizada com o objetivo de valorizar o patrimônio público ou privado mediante manifestação artística, desde que consentida pelo proprietário e, quando couber, pelo locatário ou arrendatário do bem privado e, no caso de bem público, com a autorização do órgão competente e a observância das posturas municipais e das normas editadas pelos órgãos governamentais responsáveis pela preservação e conservação do patrimônio histórico e artístico nacional.

A lei também prevê as sanções penais e administrativas para quem for pego pichando (manchando) uma edificação ou monumento urbano. A pena pode ser de três meses a um ano de detenção, além de multa. E se o ato for realizado em monumento tombado, por seu valor artístico, arqueológico ou histórico, a pena é de seis meses a um ano de detenção e multa.

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