Quinta-feira, 02 de Julho de 2020
TFD

Nova esperança bate no coração de familiares e pacientes cardíacos

Parceria do Estado com hospital de referência do País renova chances de sobrevivência de crianças cardiopatas que aguardavam cirurgia no Amazonas



tfd1_BC1C498E-AB59-4D55-8B8C-070160520688.jpg Mairuce Alencar, 23, está otimista com cura para o filho Iram Lucas (Foto: Sandro Pereira)
02/02/2020 às 12:13

*Por Izabel Guedes e Daniel Amorim

Uma mistura de esperança, ansiedade e alívio. São esses os sentimentos descritos pela dona de casa Mairuce Alencar, de 23 anos, ao falar da viagem que realizará com o filho Iram Lucas, de apenas 1 ano e cinco meses de idade, para o Estado de São Paulo, onde o pequeno irá fazer uma cirurgia cardíaca. O menino, que nasceu com um sopro no coração, é a primeira criança cardiopata que será encaminhada para São Paulo após uma parceira firmada entre o Governo do Amazonas com Hospital da Criança e Maternidade (HCM) de São José do Rio Preto, no interior paulista.



A criança foi diagnosticada com a doença ainda na maternidade. Desde então entrou na fila de espera do Hospital Universitário Francisca Mendes (HUFM), no bairro Cidade Nova, Zona Norte de Manaus, para fazer uma cirurgia e corrigir o problema. A mãe conta que Iram nunca chegou a ficar internado, mas fazia exames e acompanhamentos periódicos. A previsão inicial, dada pelo médico, era de que o “buraco” no coração do menino iria fechar antes dele completar cinco anos.

“Na época, o médico falou que precisávamos esperar esse tempo para ver se o problema não iria sanar ou melhorar. Então, ele (Iram) ficou sendo examinado constantemente, apresentava cansaço e conforme o tempo passava fomos vendo que não tinha melhora. O ‘buraco’ continuou crescendo e foi quando o médico disse que precisava fazer a cirurgia porque estava aumentando o problema”, relembrou Mairuce.

Para a jovem mãe, que tem mais dois filhos, um de 7 e outro de 5 anos, e mora no ramal do Pau Rosa na BR-174 (Manaus-Boa Vista), essa viagem para São Paulo e a possibilidade de cura do filho foi algo que renovou a esperança para a vida dela e da sua família.

“Quando falaram da proposta de redução da fila e que iam chamar a gente, já que o Iram tinha condições clínicas de viajar, eu aceitei de imediato. Para mim é uma esperança porque se não fosse isso eu não tinha ideia de quando meu filho iria fazer essa cirurgia porque tem muita gente na fila. Tinha mais de 100 pessoas na frente dele porque tem os casos das criancinhas pequenas, que estavam internadas em estado grave no Francisca Mendes. Elas são prioridade. Então, quando apareceu essa oportunidade, de fazer fora do Estado, fiquei mais aliviada. Reacende a nossa esperança”, declarou emocionada.

Na família de Mairuce não tem ninguém com problema semelhante e o estado de saúde atual do filho ajudou na possibilidade dela ir fazer o procedimento no hospital de São José do Rio Preto (SP). Para ela, a emoção vai ser em dobro, já que irá ter que ficar fora de casa por um período e fazer uma viagem inédita de avião para fora do Amazonas.

“Só vamos eu e ele. Estou preocupada, por ser a primeira vez que saio da cidade. Primeira vez que vou viajar de avião e estou com medo, mas quero voltar com meu filho curado. A previsão dos médicos é que a gente fique no máximo dois meses por lá por conta do pós-operatório e acompanhamento necessário. Eu estou um pouco apreensiva por conta da cirurgia. Às vezes ainda nem sei o que ta acontecendo. O meu coração está apertado, porque no momento que ele entrar na sala de cirurgia vai ser tenso para mim. Me preocupa, mas tenho fé que vai dar tudo certo”, afirmou.

Mãe e filho, assim como as demais crianças cardiopatas do Estado e familiares que deverão viajar em breve, vão ser assistidos pelo Tratamento Fora de Domicílio (TFD). Eles viajam na madrugada de segunda-feira (3) e no mesmo dia já tem atendimento marcado no Hospital da Criança e Maternidade (HCM). A previsão, segundo informações de Mairuce Alencar, é que o pequeno seja internado no dia seguinte para fazer os preparativos e poder realizar a cirurgia na semana seguinte.

Estrutura

O Hospital da Criança e Maternidade (HCM) de São José do Rio Preto, no interior de São Paulo, é referência nacional no tratamento de crianças com cardiopatia congênita. Já tratou de mais de 4 mil crianças cardiopatas no País entre pacientes de outros Estados, como da região Norte (Tocantins e Rondônia), e dos 102 municípios da região Noroeste paulista.

Com uma estrutura de oito andares, além de térreo e subsolo, com capacidade instalada para 180 leitos, o HCM de São José do Rio Preto ocupa uma área de 18 mil metros quadrados e integra o complexo hospitalar da Funfarme, um dos maiores do Estado de São Paulo, que reúne também o Hospital de Base de Rio Preto, o Ambulatório de Especialidades, o Instituto do Câncer, o Hemocentro de Rio Preto e a unidade do Instituto de Reabilitação Lucy Montoro.

O complexo hospitalar é referência no Brasil em assistência, ensino e pesquisa, oferecendo atendimento humanizado e moderna tecnologia a mais de 1,5 milhão de habitantes do Noroeste paulista.

Segundo o cirurgião cardiovascular pediátrico e chefe do serviço do HCM, Ulisses Alexandre Croti, a unidade realiza, por ano, 450 cirurgias. De acordo com o médico, o hospital atingiu o nível de qualidade e se tornou referência justamente por atender pacientes de diferentes regiões do Brasil.

O HCM tem uma parceria com o a fundação Children’s HeartLink, especializada no tratamento de crianças com doenças cardíacas que oferece vários treinamentos aos especialistas do hospital. A Children’s mantém parceria com 16 hospitais, sediados, além do Brasil, na China, Índia, Malásia e Vietnã.

E a parceria entre o hospital e o Governo do Estado foi feita em janeiro desse ano quando o Amazonas assinou um protocolo de intenções com Fundação Faculdade Regional de Medicina (Funfarme), responsável pelo HCM para a realização de cirurgias em crianças com cardiopatia congênita do Estado.

A medida foi adotada pelo governo após uma série de reclamações de pais que perderam os filhos na fia de espera para fazer uma cirurgia no Hospital Francisca Mendes, único local que realiza cirurgias cardíacas no Amazonas. O objetivo é reduzir e acelerar o procedimento para as crianças que estão na fila e têm condições clínicas de fazer uma viagem. Essa parceria, segundo o Estado, não vai interromper os procedimentos cirúrgicos realizados no Hospital Francisca Mendes.

Incor, de São Paulo, vira novo parceiro

Atualmente, cerca de 200 crianças esperam por atendimento cirúrgico no Hospital Francisca Mendes. Para diminuir o tempo de espera e tranquilizar pais e mães, o Governo do Amazonas, por meio da Secretaria de Estado de Saúde (Susam), firmou convênio com o Instituto do Coração (Incor), da Universidade de São Paulo, que se prontificou a atender pacientes de baixa gravidade e que aguardam por cirurgia há mais tempo. Os casos mais graves permanecem no Francisca Mendes.

Na triagem, os médicos avaliam se as vacinas e os exames estão atualizados, entre outros critérios, para, então, autorizar a viagem. Em São Paulo, tanto o paciente quanto o responsável serão recebidos em casa de apoio coordenada por voluntários. “É uma questão humana, de apoio psicológico”, enfatizou a assistente social Maria Mazzarello Vargas.

O Francisca Mendes se tornou referência em cirurgias de crianças cardiopatas desde 2014. A demanda de pacientes neonatais na unidade é alta. Por isso, a Susam planeja medidas para ampliar para 200 o número de pacientes atendidos por mês, a partir da instalação de equipamentos como monitores, ventiladores e ecocardiogramas, entre outros, incluindo um centro de ecodiagnóstico voltado a procedimentos de média e alta complexidade.

Dez novos leitos da Unidade de Terapia Intensiva (UTI) para pacientes de pós-operatório serão inaugurados ainda neste ano. Os investimentos somam R$ 1 milhão e a meta é capacitar a unidade para realizar as cirurgias que seriam direcionadas ao Incor. A transferência de tecnologia, também prevista no convênio entre a Susam e o Incor, vai beneficiar os serviços oferecidos pela Secretaria de Saúde.

TFD é para pacientes fora de urgência, emergência ou internados

O Tratamento Fora de Domicílio (TFD) é voltado pacientes que não conseguiram vaga em unidades de saúde pública do Estado onde vivem, que não estejam em situação de urgência, emergência ou internados. Doenças raras e coronarianas, por exemplo, são alguns quadros clínicos que demandam esse tipo de serviço.

O programa é regulamentado pela portaria 55/99 do Ministério da Saúde. “Para ter acesso, o candidato precisa de indicação de algum centro de referência local especializado no tratamento de que precisa”, explicou Adriana Simas da Silva, coordenadora do TFD. O paciente deve anexar à recomendação a cópia do RG, CPF, comprovante de residência com CEP, cartão do Sistema Único de Saúde (SUS), exames realizados e a solicitação de atendimento, que devem ser entregues no Complexo Regulador da Susam, localizado na avenida Ayrão, no Centro de Manaus.

Uma comissão médica avalia o pedido com base no histórico do candidato. Se o processo for autorizado, o setor de agendamento do complexo verifica a disponibilidade de hospitais fora do Estado para receber o caso. “Só podemos mandar o paciente com data, local e horários de consulta e demais procedimentos definidos”, disse Adriana.

O serviço oferece passagens de ida e volta do paciente e acompanhante (quando necessário) e ajuda de custo, que pode ser renovado após 15 dias ou enquanto durar o tratamento. O (a) beneficiado (a) só retorna à cidade de origem quando receber alta, ainda que temporária. “A necessidade de novas consultas também é avaliada pela comissão”, finalizou a coordenadora.

Francisca Mendes amplia atendimento

Como a realização de cirurgias cardíacas pediátricas por TFD não é a única medida adotada pelo Governo do Amazonas para reduzir o tempo de espera de pacientes que aguardam pelo procedimento. O planejamento em 2020 para o Hospital Francisca Mendes, na Cidade Nova, Zona Norte de Manaus, é recuperar a sua capacidade instalada e ampliar os serviços de cirurgias cardiopediátricas.

Para isso, foram comprados recentemente 146 equipamentos e acessórios hospitalares para o centro cirúrgico e para a Unidades de Terapia Intensiva (UTI). O planejamento é para colocar para funcionar o mais breve possível todas as cinco salas cirúrgicas e seis leitos de UTI. No início de 2019 eram apenas duas salas cirúrgicas, uma terceira foi reativada em maio.

No pacote estão nove ventiladores pulmonares, um ecocardiograma, seis monitores multiparâmetro, oito sensores de SPO2 neonatais, 26 conjuntos de circuito completo infantil de traqueia do ventilador mecânico pediátrico, entre outros itens para procedimentos cardíacos complexos.

Com o investimento e a chegada dos novos equipamentos, será possível ativar a quarta sala de imediato e mais uma na sequência, atingindo ainda no primeiro semestre de 2020 a meta de colocar a unidade de saúde para funcionar com sua capacidade plena.

Os equipamentos já estão sendo entregues. O mais demorado será o ecocardiograma específico para ser usado em bebês prematuros de baixo peso, que foi importado com previsão de chegada para este mês de fevereiro. A demora não impactará, já que o hospital possui hoje dois aparelhos atendendo as demandas internas. Em dezembro o Hospital Francisca Mendes também foi contemplado com um carrinho anestésico.

Na hemodinâmica, onde são feitos procedimentos cardíacos e neurológicos não cirúrgicos, como cateterismo, colocação de marca passo, angiografia e arteriografia, as duas máquinas que haviam apresentado defeitos foram consertadas. Com a média de 12 procedimentos por dia, o hospital zerou no início de janeiro a fila interna desses atendimentos e reduziu a espera para os que estão nos prontos-socorros e nos ambulatórios aguardando por algum procedimento.

Outro avanço foi no diagnóstico dos bebês cardiopatas graves que estavam nas maternidades e posterior encaminhamento para o Francisca Mendes, onde aguardam a chamada janela cirúrgica (quando estão sem infecção) para realizarem os procedimentos com mais segurança.

No dia 15 de janeiro, o governador Wilson Lima assinou um protocolo de intenções entre o Governo do Estado e o Instituto do Coração de São Paulo (Incor) para a troca de tecnologia e conhecimento na área de cardiologia. A Secretária de Estado de Saúde (Susam) ainda planeja a abertura de um novo chamamento público para oferecer mais procedimentos em parceria com a iniciativa privada.

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