Quinta-feira, 09 de Abril de 2020
TRAGÉDIAS

Número de mortes por motivos fúteis cresce na capital amazonense

Pelo menos 35 pessoas foram mortas sem motivação contundente na capital neste ano, conforme dados da  SSP-AM



01/09/2019 às 07:00


Era uma noite de decisão futebolística. Dia em que os nervos dos torcedores ficam à flor da pele, ainda mais quando há um duelo de grandes times como Vasco e Flamengo. Foi durante a transmissão do clássico carioca, no dia 15 de setembro do ano passado, que o marceneiro Antônio Benício da Silva, 54 anos, foi morto após levar duas facadas no peito por Ronaldo Pereira da Silva, 31.

O assassinato, ocorrido sem motivação contundente, está nas estatísticas de 59 mortes por motivos fúteis  registradas em Manaus somente no ano passado. Até junho deste ano, outras 35 mortes por motivo fútil foram contabilizadas pela Secretaria de Segurança de Estado Pública do Amazonas (SSP-AM) na capital.



O homicídio de Antônio aconteceu em um bar, próximo a casa da vítima, localizado na rua Claudino de Lemos, comunidade Riacho Doce 2, bairro Cidade Nova, Zona Norte. Antônio era deficiente físico e se locomovia com muletas; ele morava em uma residência com o pai, um idoso de 108 anos.

Segundo a irmã da vítima Genásia da Silva Lima, de 45 anos, Antônio tinha uma personalidade tranquila, trabalhava diariamente e, nas horas vagas, frequentava o bar. No dia do ocorrido, ele havia ido para local após ter passado o dia inteiro no serviço.

“Discussão entre eles não houve. A pessoa que o matou também era conhecida no bairro. Esse homem tinha uma fama ruim, todo mundo no bairro sabia das confusões dele. Naquele dia, desde cedo, ele estava passando pela rua afirmando ‘hoje eu mato um flamenguista’ e simplesmente aconteceu”, destacou ela.

“Segundo as testemunhas, pessoas que estavam lá, viram que o Antônio estava sentado. O assassino foi lá, tomou uma cerveja, saiu do local, mas ainda falando aquelas besteiras. Na volta, ele veio pedir desculpas do meu irmão pelo o que havia dito, e quando ele o abraçou... Ninguém viu que o homem estava furando o Antônio. O meu irmão caiu já com a faca enfiada no peito”, explicou Genásia, acrescentando que não houve tempo de reação por parte da vítima.

Preso e processado

Logo após matar Antônio, moradores que presenciaram o crime agrediram Ronaldo, que foi levado para um hospital da Zona Leste. No dia 18 de setembro de 2018, foi cumprido o mandado de prisão preventiva do suspeito, que foi indiciado por homicídio qualificado.

À época, o então titular da Delegacia Especializada em Homicídios e Sequestros (DEHS), delegado Orlando Amaral, afirmou que o caso foi considerado cruel, já que não houve reação pela vítima tratar-se de um deficiente físico e por motivo fútil.

Genásia contou para a reportagem de A CRÍTICA que o crime devastou a família, principalmente a saúde do pai deles. O que a alivia a dor é que o assassino segue preso em uma cadeia pública da capital. Conforme ela, no próximo dia 8 será a primeira audiência do caso.

“O Antônio não tinha problemas com ninguém, ele só bebia a bebida dele, não tinha problemas com drogas, nada disso. Ele era uma pessoa de família, muito cuidadoso com o pai e com os irmãos. Foi horrível para a família, ninguém esperava uma situação dessa, um óbito por uma besteira. Não tem como aceitar uma coisa dessa. Vamos esperar a condenação dele”, ressaltou.

Motivo fútil é diferente de causa torpe

Mortes por motivos fúteis muitas vezes podem ser confundidas com homicídios ocasionados por motivos torpes. Este último é considerado imoral, repudiado pela sociedade. 

“O homicídio por motivo torpe é aquele abjeto, que a população não aceita pelo fato de ser algo extremamente horrível e inconcebível, quando, por exemplo, uma pessoa mata para poder ficar com o namorado de outra ou mata o filho por não querer pagar pensão alimentícia”, explica o delegado George Gomes, diretor do Departamento de Polícia Metropolitana (DPM) da Polícia Civil do Amazonas (PC-AM). 

‘Crime mostra um desvalor com a vida’

O diretor do Departamento de Polícia Metropolitana (DPM) da Polícia Civil (PC-AM), delegado George Gomes, explica que a  morte por motivos fúteis é aquela banal, ou seja, quando há uma desproporcionalidade entre o crime e a causa. “Às vezes, a pessoa mata por que não deu pro outro um cigarro, por simplesmente olhar com cara feia para a outra pessoa, então há uma diferença de causa e resultado, o resultado extremamente grave que é o homicídio, mas a causa foi muito pequena. Essas mortes mostram um desvalor com a vida, simplesmente as pessoas estão matando por motivos banais”, afirmou.

O titular da 89ª Promotoria de Justiça, com atuação junto a 3ª Vara do Tribunal do Júri, promotor de Justiça Vitor Moreira da Fonseca, explicou que as penas por mortes por motivos fúteis variam de caso para caso. Conforme ele, no crime de homicídio qualificado, quando entra a qualificadora “motivo fútil” isso pode agravar a pena do condenado.

“O motivo fútil não tem um ambiente próprio, [acontece] seja no  familiar, doméstico ou mesmo fora desse convívio. Crime de homicídio é muito variado. Quando se trata de homicídio simples, a pena é de seis (mínima) a 20 anos (máxima). Agora, quando o homicídio é qualificado, a pena aumenta, ou seja, de 12 (mínima) a 30 anos (máxima) de condenação”, explicou o promotor.

“Por exemplo, eu acompanhei um caso em que um homem foi morto por causa de uma pipa. Esse homicídio foi por motivo fútil. O assassino, nessa situação, teve a sentença de 14 anos de prisão e aí depende das circunstâncias judiciais: se ele tinha antecedentes criminais, se ele não tinha, se ele chegou a ajudar a vítima. Essas circunstâncias aliviam essa pena entre a mínima e a máxima”, finalizou.

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Repórter de Cidades
Jornalista formada pela Uninorte. Apaixonada pela linguagem radiofônica, na qual teve suas primeiras experiências, foi no impresso que encarou o desafio da prática jornalística e o amor pela escrita.

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