Publicidade
Manaus
TRANSPORTE COLETIVO

Número de passagens vendidas no transporte público reduziu 20% em Manaus

Sinetram aponta que diminuiu em 6 milhões o número de passagens vendidas por mês na capital nos últimos dois anos. Precariedade dos coletivos, insegurança e concorrência informal contribuíram para a queda 06/02/2018 às 07:02 - Atualizado em 06/02/2018 às 08:56
Show busao
Foto: Antônio Lima
Álik Menezes e Juan Matheus Manaus (AM)

O sistema convencional de transporte coletivo de Manaus teve uma redução de 20% no volume de passagens vendidas em 2017, em comparação com o ano de 2015. Naquele ano, os cerca de 1,5 mil ônibus do transporte coletivo de Manaus comercializavam, em média, 17 milhões de bilhetes por mês. Atualmente com frota similar, a média mensal é de 11 milhões.

Os dados são do Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros do Estado do Amazonas (Sinetram), que alega que as causas são, principalmente, “as deficiências do sistema viário” e a “proliferação de modais clandestinos”.

Contudo, o doutor em engenharia de trânsito Geraldo Alves aponta que essa redução é reflexo de problemas antigos, entre eles a falta de investimentos públicos e privados em todo o sistema de transporte, como a construção de corredores exclusivos - que nunca saiu do papel - além da tarifa “cara” para a qualidade ofertada, descumprimento dos horários das rotas e, principalmente, a insegurança.

Em média dez assaltos a ônibus ocorrem por dia. Os coletivos sofreram 3.844 roubos no ano passado, somando um prejuízo de cerca de R$ 1 milhão das empresas - sem contar os objetos e dinheiro roubados dos usuários, apontam estatísticas do próprio Sinetram.

Diante de todos esses problemas, é cada vez maior o número de pessoas que “apertam” o orçamento em busca de conforto e segurança e optam pela compra do automóvel próprio.

Foi justamente a falta de manutenção nos ônibus, a longa espera em paradas com estrutura precária e o preço alto da tarifa que contribuíram para que o arquiteto Deleon Santiago decidisse comprar um carro no ano passado.

“Você demora esperando no ponto de ônibus, ele não tem um horário certo para passar, aí você pega um ônibus lotado, tem parada que não abriga nem do sol nem da chuva, a passagem é cara, se você comparar o ‘custo-benefício’... Decidi comprar um carro. Tem um custo, mas em compensação você chega no seu horário e tem mais conforto”, afirmou.

Para o doutor em engenharia de trânsito Geraldo Alves, além da imprecisão de horários e do risco constante de os coletivos sofrerem panes mecânicas, outro entrave que pode ter contribuído para a redução nos usuários são os congestionamentos em vias mistas (aquelas compartilhadas entre carros de passeio e ônibus). O que não torna vantajoso o uso dos coletivos e faz com que quem não pode migrar para um automóvel opte por outros modais, especialmente a motocicleta, seja própria ou mototáxis. 

“Manaus não tem feito o que se precisaria fazer em termos de investimentos públicos e privados para que nós tivéssemos um transporte que atendesse adequadamente a população. O corredor exclusivo é fundamental para melhorar o desempenho das viagens dos usuários de ônibus. Não foi feito, no passado, investimento em outros modais que poderiam evitar esse problema de agora, como o metrô”, apontou Alves.

Problema sistêmico

O engenheiro de transportes Augusto Rocha acredita que problemas de mobilidade sempre são sistêmicos e que há tendência de se buscar uma única origem, o que é bem improvável, explicou.

“Em minha opinião, acredito que as origens são a crise econômica com menos viagens com custos (as pessoas se locomovem a pé, de bicicleta ou não viajam, pela menor renda ou desemprego), o transporte informal - de todos os tipos, dos aplicativos aos clandestinos -, aumento da tarifa, falta de evolução na malha de cobertura da rede e o aumento do número de automóveis”, explica.

De ‘carona’ no app

Motorista de Uber há cinco meses, Ivanilda Moraes, acredita que a população aprendeu a prezar pelo conforto. “Hoje, com o Uber e seus preços mais em conta, fica mais cômodo, tranquilo e confortável se locomover. O Uber pega em frente da casa da pessoa e a deixa no local que ela pedir. Não precisa pegar ônibus lotado e nem em más condições”, afirma, “vendendo seu peixe”.

Para a estudante Karen Barata, a crise que se instalou no Brasil e a falta de emprego contribuíram para a diminuição da venda de passagens. “Eu acredito que devido ao aumento do desemprego muitas pessoas passaram a não utilizar diariamente o transporte público, que também aumentou o preço, causando assim uma diminuição do uso”.

Já a assistente social Ariane Zwart acredita que a questão da praticidade e da economia pesam muito e as “caronas informais” surgem como uma alternativa. “Eu nunca saio sozinha para o centro e outros lugares e quando eu vou é mais prático eu pedir um Uber do que ir até a parada de ônibus. Com quatro pessoas já pagamos mais barato num carro do que indo de ônibus, sem conforto nenhum”, relata.

Números

Foram 6 milhões a menos de passagens comercializadas, por mês, pelos ônibus do sistema convencional de transporte público em 2017, em comparação com o ano de  2015.

Publicidade
Publicidade