Quinta-feira, 27 de Janeiro de 2022
Entrevista!

'O Brasil e os Estados Unidos têm uma história muito longa de parceria em segurança'

General quatro estrelas do Comando Sul dos Estados Unidos, Laura J. Richardson é a primeira mulher na chefia, um dos postos mais importantes das Forças do país norte-americano



HUMASIMG_0000903_B257E343-5186-4DF4-BC95-DC1585D7508D.jpg Foto: Arlesson Sicsu/Freelancer
28/11/2021 às 09:43

Em entrevista exclusiva à reportagem de A CRÍTICA, a nova comandante do Comando Sul dos Estados Unidos (Southcom), Laura J.  Richardson, afirmou que apoia uma posição democrática para a Venezuela. A general quatro estrelas visitou Manaus na quarta-feira como parte de um rápido tour pela América Latina, logo após assumir o cargo em 29 de outubro.

A opinião da comandante dá continuidade ao que externava o antecessor no cargo, almirante da Marinha Craig S. Faller. Em agosto de 2020 ele chamou o presidente venezuelano de “ditador”, e disse que o político tinha o auxílio de Cuba, Rússia, China e Irã, todos considerados ‘inimigos’ dos Estados Unidos.

Além do país venezuelano, a nova comandante também disse ter ficado “impressionada” com a primeira experiência no Brasil, em especial com o trabalho atualmente realizado pelas Forças Armadas na Amazônia.

Ao lado de um quadro de Maria Quitéria, primeira mulher a fazer parte do Exército Brasileiro, a general também comentou sobre ser a primeira mulher na chefia do Comando Sul dos Estados Unidos, um dos postos mais importantes das Forças do país. A entrevista completa segue transcrita abaixo.

 

A senhora assumiu o atual posto em 29 de outubro e já iniciou trabalho de visita a países da América Latina. Primeiro a Colômbia e agora o Brasil. Quais os principais objetivos dessas viagens?

Para reafirmar o nosso compromisso militar com o Brasil, no que diz respeito às Forças Armadas, para um hemisfério seguro e próspero. E, como o Brasil e os Estados Unidos são as forças militares e democracias mais próximas [uma da outra], foi muito importante eu visitar o Brasil o quanto antes. Já estive em outros países, mas nunca havia tido a oportunidade de vir para a América do Sul.

Como está sendo a viagem pelo continente e no  país brasileiro?

 Tem sido maravilhosa. Estou muito impressionada com as coisas que vi nas  Forças Armadas do Brasil. Todo o trabalho realizado por aqui. Além disso, [me impressionou] a cultura brasileira, a comida, o café (risos).

  Na terça-feira (23), a senhora foi a Brasília e se encontrou com o ministro brasileiro da Defesa, Braga Netto,  e com os comandantes das três Forças Armadas brasileiras. Como foi a reunião e quais expectativas a senhora pôde ter a partir desta visita?

Vale dizer mais uma vez, pois fiquei muito impressionada com o [trabalho] que fazem e não vejo a hora de fortalecer mais esse relacionamento. O Brasil e os Estados Unidos têm uma história muito longa de parceria em segurança e, claro, compartilhamos a vizinhança do hemisfério ocidental.

O Brasil e os países vizinhos da América Latina são  fortes produtores e exportadores de drogas ilícitas, como cocaína e maconha. Muitas são enviadas para outros países, como Estados Unidos, nações da Europa e África. Como unir a força militar desses países da América Latina para combater esse problema já característico da região?

Acredito que já estamos trabalhando juntos para combater esse problema. Como você sabe, essas drogas vão para países da Europa e África, mas também Estados Unidos. Em minha última função, eu era responsável pelas tropas do sudoeste dos Estados Unidos. E eles trabalharam para apoiar o território nacional e o setor aduaneiro [alfandegário]. Então eu entendo os desafios que encontramos e mais uma vez fico impressionada em como o Brasil está reagindo a eles. Não são só drogas, são também armas, pessoas, mineração ilegal, todas essas coisas.

Nós também temos um subordinado do Comando Sul, que é a Joint Interagency Task Force South (Força-Tarefa Conjunta Interagências Sul), localizada na Flórida, e temos muitos representantes de nossas nações sócias. O Brasil, por exemplo, tem alguém lá [trabalhando na Força-Tarefa]. Então, atuamos juntos como equipe para dissuadirmos o tráfico de drogas nessa área. E fico muito feliz de dizer que 60% desses ilícitos são tirados de circulação através dos EUA. Trabalhamos juntos [as nações], compartilhando informação, inteligência para diminuirmos tais problemas. 

Antes um paraíso tropical, hoje a Venezuela é também conhecida por seus altos índices de violência que se estendem para além das fronteiras. Como o seu comando pretende lidar com isso?

Estou muito impressionada de ouvir sobre a Operação Acolhida [ação humanitária do Exército em Roraima] aqui no Brasil, e ontem ouvi sobre isso com o ministro da Defesa, mas também aqui mesmo no Comando Militar da Amazônia (CMA). [Sobre o país venezuelano], infelizmente é uma crise humanitária triste.  Fiquei muito feliz  de [saber] como o Brasil assumiu uma posição de acolhimento dos venezuelanos, [fornecendo] estadia, comida e realocação dessas pessoas no território. É muito parecido com o trabalho que realizei no comando anterior. Há três meses pude fazer um trabalho semelhante com repatriação de 65 mil afegãos. E pude observar as similaridades entre o trabalho que fiz por lá e o que pude ver dos nosso colegas aqui no Brasil. [Sobre o atual cenário político do país latino] obviamente apoiamos uma posição democrática para a Venezuela. Estamos esperançosos a respeito disso.

A senhora  ocupa um posto chave para os Estados Unidos. Como é  estar nesse cargo enquanto mulher?

Acho que, para mim, não há diferença [entre gêneros] quando se trata de crescer nas Forças Armadas. Posso ser a primeira, mas não serei a última mulher no comando. E fico muito orgulhosa que abrimos as posições das Forças Armadas americanas para todas as mulheres, em todas as especializações. Então, se você pode alcançar a meta, os padrões necessários para aquela função, inclusive a infantaria, você pode ingressar nessas especializações. Vejo dessa maneira, abrimos uma piscina de talentos e quando abrimos isso para as mulheres aumentamos em 50% [as possibilidades de novos oficiais]. Agora tenho mais opções para escolher, e isso obviamente melhorou nossa prontidão, a competição tem sido muito boa.

Que lições pode deixar para mulheres militares em outros exércitos, como no brasileiro?

Gosto de usar minha história pessoal quando aconselho as pessoas. Eu era uma nadadora quando mais jovem, e sempre uso o atletismo como exemplo. Você tem que estar fisicamente preparada, e eu creio que as Forças Armadas em todo o mundo tem de estar preparadas. Creio que isso é um bom conselho, a prontidão física dessas mulheres. Se elas estão tão bem preparadas quanto os homens, é um bom começo. Ser um militar pode ser difícil, seja na guerra ou algum combate, e precisa ter bom estado físico.

Gostaria de destacar, porque acredito ser um ponto importante, a posição do Brasil no Conselho de Segurança Nacional, das Mulheres, Paz e Segurança [plano lançado em 2017 pelo Brasil com o objetivo de fortalecer o compromisso do país com a paz, a segurança internacional e a igualdade de gênero]. É muito importante. Sei que o Brasil tem um plano de ação nacional a esse respeito. E temos essas duas mulheres soldados atrás de você [falando ao repórter]. Então, eu conversei com o ministro brasileiro da Defesa e com os chefes das Forças Armadas e disse estar disposta a os ajudar a incluir mais mulheres nas forças brasileiras.

Gosto de falar de esportes, por isso usei essa analogia da natação. Eu era  uma ‘All American’ da natação, termo utilizado no meu país para dizer que somos muito bons no que fazemos. E  fui dessa equipe [de natação] durante o ensino médio e na universidade. Quando fui para a minha primeira escola do exército para ser oficial, eu podia nadar mais rápido que 95% das pessoas da classe, inclusive dos homens. Gostaria de destacar também que nas Olimpíadas de Tokyo,  o Brasil capturou 21 medalhas. Dessas, nove foram alcançadas por mulheres. Uma delas é Marcela Cunha [ganhou o ouro], uma nadadora assim como eu. Além dela,  Rebeca Andrade (ouro e prata), uma ginasta espetacular. Então, acredito que o Brasil tem muito a oferecer ocupando essa posição do Conselho Nacional de Segurança com as mulheres. 

Para finalizar, o que mais lhe marcou nesta primeira viagem ao Brasil? É possível definir em uma palavra?

Estou olhando para aquele quadro [Posse da Amazônia (1924), de Fernandes Machado. Atrás do repórter]. Tenho aprendido muito sobre a Amazônia. Fico muito feliz de poder ter vindo a Manaus. Mais cedo o general  Faller [almirante da Marinha dos Estados Unidos, Craig S. Faller] estava apresentando algo e havia uma foto no slide que mostrava a Amazônia. E era uma imagem da Amazônia hoje. Era exatamente como os fundos desse quadro na parede. [Me marcou nesta primeira viagem] aprender sobre os rios da Amazônia, que os afluentes são as estradas.

Visitei também o hospital barco [Navio de Assistência Hospitalar Soares de Meirelles],  e foi fantástico ver o trabalho que realizam com as comunidades ribeirinhas. Eu só ouvia falar da Amazônia quando era criança, mas essa foi a minha primeira oportunidade de ver em primeira mão, entendendo que as mudanças climáticas são muito importantes para os EUA. No meu último trabalho, vimos problemas com focos de incêndio, furacões e vários outros fenômenos naturais, e quando venho até a Amazônia e vejo que produz todo o oxigênio do mundo [me marca muito]. Como dizem os brasileiros, é “o pulmão do mundo”. Não sei se posso resumir em uma só coisa, mas quero dizer que estou muito impressionada com o que aprendi das Forças Armadas brasileiras, e de poder reafirmar o compromisso dos Estados Unidos com o país. [Me marcou muito] aprender sobre o tesouro que vocês têm, que é a Amazônia. Estou muito feliz e grata pela parceria firme que temos e pela recepção de vocês.




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