Quarta-feira, 19 de Fevereiro de 2020
UM ANO

O drama de quem teve que 'renascer das cinzas' após o incêndio em Educandos

Ainda com sequelas físicas e psicológicas, vítimas do incêndio do ano passado revelam dramas e desafios, dificuldades financeiras e medo do futuro



incendio1_39283367-EAEB-4AFB-91A8-06F7CF311CF6.JPG A pequena Chayenne, de 4 anos no ombro do pai e, abaixo, a família dela: sequelas pós-incêndio e incerteza / Foto: Jair Araújo
21/12/2019 às 17:37

As vítimas do incêndio ocorrido em 17 de dezembro do ano passado em Educandos guardam, consigo, sequelas físicas e psicológicas, traumas persistentes, revoltas e fantasmas de um passado que, de sonho, hoje é um pesadelo. Antes em meio ao fogo, e hoje em meio a incertezas, uma certeza: são renascidos das cinzas.

Uma dessas famílias é a do técnico em manutenção de refrigeração Adelson Santos da Paz e da dona de casa Luana Lima. Passado 1 ano do sinistro, de terem perdido tudo e estarem recomeçando a vida, eles convivem com um drama a mais: as sequelas físicas da filha Chayenne, que teve os ligamentos da perna esquerda rompidos após ser pisoteada por moradores que corriam desesperados em um dos becos que davam acesso à sua casa (uma moradia reformada dois meses antes do incêndio às custas de economias de dez anos do pai).



Hoje, Chayenne anda com dificuldade e precisa utilizar uma prótese ortopédica que foi doada por uma pessoa que se sensibilizou com a sua situação. Os exames e tratamentos para que volte a andar normalmente continuam, ela passou por duas cirurgias no local mas ainda não há restabelecimento 100%. Ficar em pé causa dores, incômodos, sofrimento. E é perceptível que o joelho ainda incha.

“Desse 1 ano que passou ficou um trauma de perda pessoal e de ser humano. Não faltou apoio da população amazonense, mas de nossos governantes. Nem vou falar do nosso governador (Wilson Lima) que entrou em janeiro, mas sim do nosso ‘querido’ prefeito. Não recebemos mais ranchos dele. Falta nos tratarem bem, como seres humanos. Nos prometeram 80 geladeiras, mas nada até agora. E ainda brincam de mau gosto conosco quando nos ligam dizendo para pegarmos o nosso grande dinheirão, tirando sarro”, esbraveja Adelson, também criticando vereadores e deputados: “Eu esperava mais dos políticos da nossa terra”.

Adelson e Luana tem mais três filhos: uma moça de 15 anos e mais dois rapazes de 9 e 13. Na noite do incêndio todos passaram ao relento, sob chuva, sem saber o que fazer, desnorteados. Ainda tiveram pertences roubados por moradores de mau coração. Depois, outros moradores arrumaram um colchão de solteiro onde as crianças puderam deitar na madrugada. Sem a casa, que havia sido recentemente reformada com as economias dele, ilhados.


O local no qual Adelson e família alugaram para morar após a tragédia: benefício é de R$ 300, mas aluguel é R$ 700 / Foto: Jair Araújo

“Um amigo de uma das filhas nos levou para o São Raimundo, num caminhão-baú, depois para a casa da minha irmã no Beco Ajuricaba, aqui mesmo em Educandos, e de lá ficamos durante cinco meses no abrigo do conselho comunitário do bairro até encontrarmos esse pequeno imóvel na avenida Leopoldo Péres, com um cômodo e mais quarto para nós seis. Precisamos de mais apoio do poder municipal, que só nos dá o benefício de R$ 300 mensais que não dá nem pro aluguel que custa R$ 700”, explica Adelson.

Ele se refere ao auxílio-aluguel que contempla 658 famílias vítimas do incêndio em Educandos - o valor é pelo período de um ano, podendo ser prorrogado por mais seis meses, conforme a Lei Municipal nº 1.666, de 25 de abril de 2012.

Pelo Estado, na gestão passada de Amazonino Mendes a família obteve um recurso em parcela única de R$ 900, e durante esta semana foi contemplada, com montante ainda a ser liberado até o fechamento desta edição, de um recurso indenizatório de R$ 35 mil. “Mas dificilmente vamos encontrar uma casa para morar nesse valor. Esse ano deixou cicatrizes físicas e psicológicas”, disse o pai de família.

“Muitos dos nossos vizinhos morreram de depressão ou acidentes”, disse Luana Lima. “Eu ainda sinto muito quando vejo os vídeos e fotos, a sensação de ver meus filhos no chão. A situação da minha filha... isso me dói”, ressalta a dona de casa.

E o futuro? O pai responde em tom dramático: “Pra mim não tem futuro, talvez pros meus filhos”. E de onde tiram forças? Ambos respondem juntos, sem titubear: “É de Deus!”. Apesar de tudo, ele frisa: “Renascemos das cinzas, igual à Fênix. Estamos aqui lutando!”.

Desde a infância

A manicure Claudionoura da Silva, 33, morava desde os cinco anos de idade na área do sinistro. Chegou até em certa parte da vida se mudar para outro local com a família: o bairro Nova Cidade. No entanto, retornou, desta vez com o sonho da casa própria cumprido: negociou a parte de uma moradia em Educandos. No entanto, o mesmo destino a fez ser, com a família, uma das centenas de pessoas desabrigadas na área do bodozal de Educandos.

“Eu morava com meu marido e três filhos na parte de baixo da casa, pois no andar de cima quem residia era a antiga dona. Quando pegou fogo eu estava na casa da minha sogra e não passava pela cabeça a proporção do ocorrido. Soube do incêndio pelas imagens que postaram no Face e liguei para uma colega chorando. Quando cheguei ao local foi aquele desespero e o fogo já tinha ‘tomado tudo’ e quase chegava na beira da rua. Quando vi que não havia mais nada, me desesperei. Não conseguimos salvar nada, nem uma colher sequer, ficamos só com a roupa do corpo”, relata a manicure.


Noite do incêndio no bairro Educandos, no dia 17 de dezembro do ano passado, que desabrigou várias famílias / Foto: Antonio Lima-17-12-2018

A tragédia poderia ser ainda pior para ela se a filha de 16 anos, que costumava ficar na casa, não tivesse ido para a casa do namorado: “Ela tem o sono pesado e o namorado a chamou para ir pra casa dele nesse dia. Tudo que Deus faz é certo, e se o rapaz não telefonasse ela ia morrer”. Outra filha de Noura, de 13 anos, viu quando as casas começaram a pegar fogo - a residência ficava localizada ao lado de onde, segundo foi divulgado à época do sinistro, teve início o fogo.

Com a casa destruída, depois do incêndio ela foi morar na casa da sogra, na própria Colônia Oliveira Machado, compadecida com a situação de todos e, inclusive, de uma das filhas de dona, de apenas 2 anos de idade. Se não fosse isso, a opção seria um dos abrigos disponibilizados para as vítimas.

Na sogra, ela e a família ficaram por dois meses e, a partir do momento que começou a receber o benefício no valor de R$ 300 da Prefeitura de Manaus passou a alugar uma moradia na Colônia Oliveira Machado a uma quantia maior que o repassado mensalmente: R$ 475. Algum tempo depois recebeu R$ 900 do Governo do Estado, este em quantia única.

Após 1 ano do ocorrido o sentimento é de tristeza porque Noura nunca imaginou que tudo aquilo fosse acontecer, que tudo que foi construído à base de suor e trabalho fosse levado pelo fogo. Na última terça-feira, quando completou 1 ano do incêndio, ela voltou ao local, com pesar e lamento.

“Com certeza nós renascemos das cinzas porquê Deus deu livramento para nós, pois, num incêndio desse, o maior de Manaus, com certeza se fosse outro canto morreria alguém. Hoje, estou mais conformada”, destacou.

“O desespero foi grande naquele dia. Foi dia de todo mundo ficar triste. Passei, alí, a minha infância, me criei lá. Tive oportunidade de sair para o Nova Cidade e meu pai queria me dar uma casa no Nova Cidade. Ele brigava comigo e perguntava se eu havia ‘enterrado’ meu umbigo ali. Não queria em outro canto que não fosse no bodozal. Se pudesse ainda estaria alí, que não era uma área de risco.  Quando chovia nós nunca sofríamos de nada, construíamos  pontes; tinha bichos e essas coisas, mas já estávamos acostumado. Se não ocorresse o sinistro eu só iria sair de lá quando morresse”, comentou ela.

Repórter de A Crítica

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