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‘O mais difícil de gerenciar é a consciência das pessoas’, diz Leonel Feitoza em entrevista

Desafiado a gerenciar o complicado setor de Trânsito do Estado,Leonel Feitoza  mergulhou na missão de mudar a cultura permissiva que se via nas ruas por um objetivo claro: preservar vidas 13/12/2014 às 15:50
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Leonel Feitoza
andré alves ---

Chefe do órgão responsável pelo atendimento de um milhão de pessoas em 2014, o diretor-presidente do Detran/AM, Leonel Feitoza, mergulhou na função executiva após duas décadas como parlamentar. Egresso da Câmara Municipal de Manaus, onde passou 24 anos, e defensor público de carreira, Feitoza se diz apaixonado pelo trabalho no Departamento Estadual de Trânsito. Em menos de dois anos, deu cara nova ao atendimento do órgão - agora agendado por data e hora - e com as blitze da Lei Seca, da qual ele mesmo participa, impôs limites aos bebuns que insistem em dirigir sob efeito de álcool. “Faço questão de estar presente nas nossas blitze porque sei que pessoas que tem um poder aquisitivo melhor, ou algum cargo, sempre usam disso para intimidar nossos agentes. A Lei é para todos”, diz.

A Seguir, trechos da entrevista concedida por Leonel Feitoza a A CRÍTICA:

Qual é a parte mais difícil de gerenciar o Detran/AM?

Não é o Detran. A parte mais difícil é você conscientizar as pessoas que cumpram as determinações da lei de trânsito. Gerenciar o Detran não é difícil. Nós temos excelentes funcionários que conhecem o serviço, que são abnegados, que ficam comigo até de madrugada na Lei Seca. Agora mesmo estamos fazendo mutirão para que a gente conclua dezembro ‘zerado’, sem problema de espera na habilitação. O mais difícil de você gerenciar é a consciência das pessoas, infelizmente. Todos os dias nós temos acidentes de trânsito na cidade, que acontecem por três fatores: álcool, excesso de velocidade e imprudência. Em qualquer acidente de trânsito, um desses fatores está envolvido. Quando você junta um ou mais desses fatores você tem as tragédias, como aquela que aconteceu na Djalma Batista. Nosso calcanhar de Aquiles é conscientizar as pessoas para fazer o que é certo no trânsito. 

Isso acontece porque os motoristas são mal formados?

Infelizmente, as pessoas vão para o trânsito como se fossem para uma guerra. Então, o trânsito, para muitas pessoas, é usado para extravasar. O que está errado. Já vi diversas vezes as pessoas irem às vias de fato por um acidente banal. Não é falta e educação no trânsito. É falta de consciência.

Como gestor, o senhor toma conhecimento de muitos absurdos?

Todos os dias. Diariamente fazemos operações para não permitir que motociclistas conduzam mais de um passageiro na garupa. Mas, se sairmos agora para qualquer lugar da cidade, você vai ver motociclista com  uma criança no meio imprensada, atrás vem a mãe e ás vezes outra criança ou um bebê. Eu já parei muitas vezes para pedir: ‘não faça isso, é a vida do seu filho’. E sabe o que elas dizem? ‘Da vida do meu filho cuido eu, o senhor não tem que se meter com isso’. Eu já ouvi isso! Num acidente fatal as primeiras vítimas são aquelas crianças. Mas as pessoas não entendem. Elas acham que acontece com todo mundo e não pode acontecer com elas. E acontece.

Por que a Polícia Militar como um todo não auxilia o Detran nessa fiscalização? Muitas vezes irregularidades de trânsito são cometidas ao lado de viaturas e a polícia acaba não interferindo.

A PM é nossa parceira e nos ajuda muito. Ela garante a segurança nas nossas operações. Mas antes tínhamos somente o Batran (Batalhão de Trânsito) que nos auxiliava. Pensando nisso, nós fizemos um convênio com a Polícia Militar, que já está vigorando inclusive, e agora a Polícia Militar vai poder como um todo vai poder agir. Antes, a PM não tinha essa competência legal para fazê-lo. E agora, com esse convênio que firmamos, ela vai nos auxiliar também nessas questões da fiscalização do trânsito. Vai poder inclusive efetuar as multas. Com isso, a gente vai ganhar uma ajuda muito maior ainda da Polícia Militar nesse sentido. Faltava a oficialização porque, sem ela, eles poderiam multar, mas não teria validade. 

É impressão ou o Detran faz mais blitze em área de pobre do que área de rico?

Não. Nós fazemos blitze em todos os cantos. Agora, logicamente que as áreas – não diria de pobre, jamais – que fora do Centro da cidade onde tem mais habitantes, Zona Norte e Leste... Ali existem pessoas que são de bem, que trabalham, mas infelizmente por serem áreas muito populosas, a marginalidade se infiltra ali no meio das pessoas de bem. E quando nós fazemos essas operações é justamente para coibir que a marginalidade se infiltre nas pessoas de bem. Nós fazemos operações no Centro, Vieiralves, Efigênio Sales, mas também na Zona Norte, Leste, porque é obrigação do poder público dar segurança a todas as pessoas, indistintamente, para quem quer que seja.

Rico é parado em blitz e é multado?

Também. Muitos. Todos são. Faço questão de estar presente nas nossas blitze porque eu sei, como você colocou, que sempre as pessoas que tem um poder aquisitivo melhor ou que tenha algum cargo, alguma coisa, usam disso para intimidar nossos agentes. E eu sempre estou presente e digo o seguinte: ‘a lei é para todos’. A gente pode ser terno, com rigor. Nós tratamos todo mundo igual, não importa quem quer que seja. Se a pessoa está errada, está errada. É parada, o veículo apreendido. Não existe diferenciação.

Isso significa que o famoso ‘sabe com quem você está falando?’ não funciona com os agentes do Detran?

Já aconteceu comigo inclusive. Chegou uma pessoa e disse: ‘olha, muito prazer, eu sou o seu fulano de tal’. Eu disse: ‘muito prazer, sou Leonel Feitoza, diretor-presidente do Detran e  gostaria de contar com sua colaboração’. E veio com uma carteira. Eu disse: ‘olha, eu quero a sua carteira de habilitação. Essa para a gente não serve’.  Com isso a gente desarma as pessoas. O ex-governador Omar Aziz e o governador José Melo sempre nos deram autonomia para fazer esse trabalho. A orientação que recebemos foi para preservar vidas.

O Estado está fazendo a parte dele, mas o senhor percebe que muitas vezes as famílias não estão fazendo a sua?

Só esse ano já flagramos quase cinco mil menores dirigindo sem habilitação. Isso é um apelo que fazemos todos os dias aos pais. Ajudem o Detran! Durante a semana a gente já flagrou dezenas e dezenas de jovens, de menor, indo para a escola de carro. Aquilo é um mau exemplo até para os colegas. E um perigo. Porque aquele jovem não passou por uma autoescola, não teve um curso de direção defensiva, não sabe a sinalização. Com isso você pode acarretar muitos acidentes. Menor dirigindo sem habilitação está entre os campeões de multa, muitos deles com a aquiescência dos pais. Álcool hoje é o quinto. O trânsito não é só uma questão dos departamentos de trânsito, mas é o envolvimento de toda uma sociedade.

De que forma, ao assumir a direção do Detran/AM, isso influenciou na sua rotina pessoal?

Mudou muita coisa. Ali no Detran o bom é que não tem rotina. Cada dia você tem que resolver questões que vão surgindo, porque o trânsito é dinâmico também. Eu gosto de estar nas ruas. Final de semana eu estou nas blitze. A minha mulher é muito compreensiva. Graças a Deus ela entende que esse é um trabalho que a gente está fazendo por uma sociedade. A rotina mudou. Mas é uma coisa que você se apaixona porque passa a lidar com as pessoas todos os dias. Quando você pode ajudar as pessoas, isso te gratifica muito. A população está entendendo. Hoje você já vê muitos jovens que saem para se divertir no final de semana e leva o ‘amigo da vez’ (para dirigir sem efeito de álcool). Já vi até grupo de jovens que aluga uma van final de semana e vai para a balada. A cultura está mudando.

Por que parece ser tão complicado tirar CNH em Manaus?

 Estamos fazendo um estudo junto às autoescolas averiguando por que esse índice de reprovação é tão alto, em torno de 70%, quando o admissível é em torno de 40%. Já conversamos com os donos de autoescolas. O Denatran baixou uma resolução aumentando em mais cinco horas/aulas para quem quer tirar a CNH pela primeira vez. Permitiu agora o uso de simulador para fazer parte dessas aulas. Nós estamos trabalhando para mudarmos nosso sistema de exames, com carros monitorados dentro e fora dos veículos, com grande sala de monitoramento, onde os examinadores irão acompanhar todas as ações pelas imagens transmitidas em tempo real para um tablet. Estamos investindo muito em tecnologia. Com isso, quando o aluno for aprovado, uma hora após a prova já vai estar com a habilitação em mãos.  São tecnologias que estamos colocando à disposição da sociedade.

O senhor pretende voltar a ter um cargo eletivo ou já encerrou essa carreira?

O futuro a Deus pertence. Passei 24 anos na Câmara Municipal e em momento algum pensei em assumir um cargo executivo. Sou soldado do PSD. Estou à disposição do partido. Se o partido entender que devo ser candidato, serei.

Perfil
Nome: João Leonel Feitoza
Idade: 55 anos
Estudos: Advogado, formado pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam)Experiência:Defensor Público, exerceu seis mandatos de vereador em Manaus de 1989 a 2013. Foi duas vezes diretor do Ipasea. Em 1986 foi diretor Administrativo-Financeiro do órgão. É professor concursado da rede estadual de ensino.

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