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'O policial acredita que não será punido', diz sociólogo após abordagens de PMs em Manaus

Motorista e adolescente foram baleados por PMs na semana passada. Fórum aponta que 1,2 mil pessoa foram mortas em confrontos policiais em 2013. "Não é uma questão de ontem, nem de hoje, é de sempre", diz especialista 17/01/2015 às 17:33
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Falta de preparo dos policiais, especialmente militares, é apontada como explicação para as 1,2 mil mortes
MARIANA LIMA Manaus (AM)

Crimes envolvendo policiais militares e cidadãos estão cada vez mais frequentes nos noticiários. Segundo estimativa do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, que reúne dados das Secretarias de Segurança Pública de todo o País, 1,2 mil pessoas foram mortas em confronto com a Polícia Militar (PM) no Brasil em 2013.

A Secretaria de Estado de Segurança Pública (SSP-AM) não revelou quantas pessoas morreram durante abordagens policiais no Amazonas. Mas, em Manaus, somente na última semana, um motorista e um adolescente foram baleados durante ações “atrapalhadas” da PM.

Na última terça-feira (13), o motorista de kombi lotação Denis Neves dos Santos, 31, foi atingido com um tiro no pé após tentar fugir de uma blitz. Na ocasião, o Batalhão de Policiamento de Trânsito (BPTrans) realizava uma fiscalização na Zona Norte quando Denis tentou escapar. “Eu não vou atirar na sua cara, mas vou atirar no seu pé”, teria dito o cabo José Antônio Campos, do BPTrans, ao motorista Denis, segundo testemunha.

O comandante da BPTrans, major Caliomar Barros, contestou a versão. Segundo Barros, o militar atirou em legitima defesa após Denis - que estava desarmado - tentar agredir e roubar a arma do PM.

O sociólogo especialista em Segurança Pública e Violência Policial, Marcos Florindo, classifica como histórica a violência exercida por policiais. “O Estado delega aos policiais o direito de julgar pessoas durante essas operações, em especial na periferia. E eles julgam levando em conta o que eles acham que é Justiça”.

Adolescentes ‘na mira’

Mas o motorista da kombi lotação Denis Santos não foi o único “alvo” recente da PM do Amazonas. Um adolescente de 17 anos foi baleado pelas costas enquanto corria, após policiais militares terem, supostamente, disparado tiros contra uma lanchonete, na Zona Leste. O crime aconteceu no último domingo e foi filmado por moradores que estavam próximos ao local. ASSISTA O VÍDEO

Adolescente de 17 anos levou tiro nas costas (Foto: Divulgação)

O adolescente foi levado ao Hospital e Pronto Socorro João Lúcio dentro da viatura, sem qualquer cuidado de imobilização, e deve ficar paraplégico. Nas imagens captadas por moradores, o jovem estava desarmado quando foi baleado.

E foram as imagens do circuito de segurança de uma rede de supermercados que flagraram, em agosto de 2010, a ação de oito policiais militares da Força Tática atirando contra um adolescente de 15 anos, desarmado. André Luiz Castilhos Campos, Rosivaldo de Souza Pereira, Wilson Henrique Ribeiro, Wesley Souza, Marcos Teixeira de Lima, Wilson Cunha e Alexandre Souza Santos e Janderson Bezerra eram os policias que protagonizavam as cenas.

Castilhos, apontado como um dos responsáveis pelos disparos no peito do garoto, foi inocentado por unanimidade, em agosto de 2012.

Análise de Marcos Florindo

“O problema da violência envolvendo policiais não é uma questão de ontem, nem de hoje, é de sempre. Essa é uma postura histórica da polícia e ocorre por conta de uma delegação do próprio Estado. Em um País em que o Direito real de cidadania ainda é privilégio de alguns, se delegou aos policias a possibilidade de atuar ‘levando Justiça’ a quem não tem acesso, de fato, a ela. Os policiais atuam, então, com um poder extralegal de juiz. E, durante uma ocorrência, um conflito, é ele quem decide o que fazer com o cidadão e o faz com base no que entende como certo. Na periferia, a incidência é maior. É nessas áreas que o policial costuma agir como um ‘juiz de rua’ e, muitas vezes, evita que os cidadãos recorram legalmente à Justiça, ‘resolvendo’ ali mesmo. E isso ocorre porque o policial tem a certeza que o que ele está fazendo vai acontecer ali e terminar ali e que aquelas pessoas não conhecem de fato seus direitos e como buscá-los. O policial não pensa muito nas consequências porque acredita que não será punido”.

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