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Manaus
Estresse pós-traumático

O que os reféns do Compaj viram foi algo que se vivencia em uma guerra, diz psiquiatra

Especialista que atendeu mais de 20 agentes penitenciários que cumpriam serviço no presídio e que foram obrigados a assistir às cenas de terror afirma eles ficaram suscetíveis a desenvolver doenças crônicas 09/01/2017 às 20:17 - Atualizado em 09/01/2017 às 21:55
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Na semana passada, A Crítica entrevistou um agente que foi obrigado a assistir as execuções. Foto: Márcio Silva
Isabelle Valois Manaus (AM)

A psiquiatra Giulia Santoro trabalha no Hospital Psiquiátrico Eduardo Ribeiro, em Manaus. No dia do massacre do Complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compaj), onde pelo menos 56 presos foram mortos de forma brutal, ela estava no plantão e foi a responsável por atender mais de 20 agentes penitenciários terceirizados que cumpriam serviço no presídio e que foram obrigados a assistir às cenas de terror, quando detentos foram decapitados, esquartejados e tiveram seus órgãos arrancados para fora.

“Não precisei nem receber fotos ou vídeo. Atendi mais de 20 funcionários da penitenciária e eles relataram a tamanha barbaridade que ocorreu e no qual foram obrigados a presenciar. Essas pessoas ficaram à disposição de desenvolver doenças crônicas, pois o que eles viram foi algo que se vivencia em uma guerra”, disse.

Para a psiquiatra, a preocupação incial é que agentes passassem por uma avaliação emergencial. Na avaliação, foi verificado que eles apresentaram quadros de estresse pós-traumático. “Essas pessoas ficaram muito expostas à essa situação. Os que estão dando continuidade ao tratamento apresentam sintomas sérios como insônia, medo e revivem as cenas. Espero que, daqui para frente, eles tenham um acompanhamento profissional para evitarem futuros transtornos”, contou.

Giulia Santoro explicou que os agentes feitos de reféns precisam de um acompanhamento multidisciplinar de imediato, terapias ocupacionais e o tratamento deve ser estendido até mesmo para as famílias.

“Eles foram obrigados a conviver com algo que não havia relações sociais com a vida de cada um. Muitos aceitam o trabalho por se tratar a única fonte de renda familiar. Esses agentes não possuem um tratamento de choque policial e isso é preocupante. O trauma se estende às famílias e me assusto ainda mais quando vejo que pessoas que não tiveram o contato físico no local, querem ver fotos, assistir os filmes e os compartilhar, isso é uma propagação da perversidade”, disse a especialista.

Que tipo de pessoas são os autores da chacina?

Em relação aos presos autores da barbárie, ela afirma que antes de apresentar qualquer parecer clínico é necessário avaliar cada indivíduo para confirmar se estes possuem algum tipo de transtorno mental. Giulia Santoro disse que, de imediato, no geral são pessoas sádicas (aquelas que sentem prazer ao fazer outras sofrerem), e por isso se pensa logo no transtorno de personalidade ou até mesmo a psicopatia, mas nem sempre são questões principais, pois antes de tudo é necessário avaliar o convívio social.

Sobre a forma de matar (torturando e esquartejando os encarcerados), a psiquiatra considerou um ato de frieza, mas acredita que tudo é relacionado com a convivência do indivíduo, que muitas das vezes nem o chega impactar. Para Giulia Santoro, o massacre não ocorreu como forma de psicose coletiva, pois todo o ato foi muito bem elaborado e organizado para que seja considerado psicóticos.

O Portal A Crítica ouviu um agente penitenciário que deu detalhes sobre momentos vividos durante chacina (confira a matéria).

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