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Manaus
Contrastes noturnos

Ocupar espaços públicos à noite é uma aventura dividida entre a vontade e medo

Manaus tem uma vida noturna baseada pelos contrastes quando o assunto é ocupar praças ou outros logradouros; receio de crimes e iniciativas populares destacam-se 24/07/2016 às 11:00 - Atualizado em 24/07/2016 às 17:09
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Atividade física na praça da Avenida das Torres, na Zona Norte da cidad (Fotos: Clóvis Miranda)
Paulo André Nunes Manaus (AM)

Basta dar uma passeada pela cidade e confirmar uma infeliz constatação: Manaus tem uma vida noturna baseada pelos constrastes quando o assunto é ocupar praças ou outros logradouros públicos que deveriam ser destinados para a população. Enquanto alguns deles são iluminados e aprazíveis, outros são escuros, marcados pela criminalidade e motivo de medo dos seus moradores.

O constraste é perceptível se compararmos locais como a iluminada e com aparelhos para se exercitar Avenida das Torres, na Zona Norte, com a escura e misteriosa Praça do Conjunto Petros, na Zona Leste. Ou com a revitalizada e com participação maciça dos moradores rua 13 de Maio, na Colônia Oliveira Machado, com a próximo dalí esquecida orla do Amarelinho, em Educandos, Zona Sul.

No primeiro local citado na matéria é comum presenciar muitas pessoas se exercitando diariamente, aspecto bem diferente de um espaço que é ocupado de dia, mas que à noite é abandonado: a quadra de esportes localizada entre a avenida Darcy Vargas e a rua Maceió, em Adrianópolis. O local é ocupado por moradores de rua como Nádila Picanço, 40. Natural de Fortaleza, ela diz limpar o local frequentemente quando dorme nas arquibancadas da área esportiva. “Hoje você tá vendo como tá tudo sujo aqui, né?”, reclama ela, sobre o odor fétido exalado com sujeira existente no local.

Próximo dalí, os empresários Augusto Bezerra, 43, e Gilberto França, conduziam suas bikes a pé pela Darcy Vargas: o primeiro tinha sido acidentado na perna esquerda após um veículo chocar-se contra sua bicicleta, e o segundo teve o pneu furado após passar por um buraco em uma das ruas de Adrianípolis. Ambos garantem que nunca iriam passar próximo à quadra citada acima. “O local é perigoso, escuro. Andar de bike já é arriscado demais pois não temos um local específico na cidade”, disse Bezerra que, a exemplo do amigo, é nascido no Estado de Pernambuco.

Medo no Beija-Flor

A autônoma Vanessa Mesquita quase perdeu as contas de quantas vezes foi assaltada e teve que comprar um celular novo.  Moradora do conjunto Jardim Imperial, próximo ao Beija-Flor e Parque das Laranjeiras, ela conta ter medo de andar próximo de casa, seja para qual atividade for. “Parei de andar sozinha por aqui no conjunto ou pelo Beija-Flor. É a coisa mais rara. Eu saio sempre com medo. Já fui assaltada cinco vezes e em três dessas ocasiões os criminosos estavam portando armas de fogo. Levaram minhas bolsas e celulares. Outra vez foi quando eu caminhava próximo à Praça da Saudade: me jogaram até no chão. E a quinta vez perto do Olímpico Clube, quando eu saía do terminal de integração da avenida Constantino Nery (T1)”, relata ela, sentindo-se muito amedrontada e insegura.

“Eu não vejo policiamento, nem viatura nas ruas perto de casa. Na semana passada um mercadinho do conjunto foi assaltado por homens que estavam em uma motocicleta”, explica a autônoma.

Iniciativas ‘iluminadas’

Felizmente nem tudo são trevas para quem escolhe a noite para fazer suas atividades. A CRÍTICA acompanhou dois belos exemplos de mobilização popular que estão trazendo grandes resultados para os moradores de suas áreas. Um deles são as aulas de zumba realizadas há pouco mais de um ano, às segundas e quartas-feiras, a partir de 19h,  na rua 13 de Maio, na Colônia Oliveira Machado, na área revitalizada pelo Programa Social e Ambiental dos Igarapés de Manaus (Prosamim) dentro do projeto social “Entre Nessa Dança”.

“A comunidade estava pedindo essa atividade. Nós nos preparamos, fizemos cursos e está sendo essa febre aqui. Muitas pessoas estão conseguindo uma qualidade de vida melhor e se curando de males como a depressão”, diz o professor Alexandre Santini, que coordena o projeto que é desenvolvido por mais 3 pessoas e que reúne em torno de 100 a 150 pessoas.

Outro exemplo de ocupação popular visa despertar a atenção para a qualidade de vida e para a necessidade de revitalização de uma das áreas mais antigas da cidade: a orla do Amarelinho, em Educandos, Zona Sul. Lá, a Comissão Reviva o Educandos foi formada para organizar eventos visando ocupar áreas do local onde a comunidade já não frequentava, isoladamente, por receio dos crimes. A primeira iniciativa foi uma caminhada que está sendo feita às segundas, quartas e sextas, informa o presidente da comissão, Gil Eanes.

“Queremos chamar a atenção da comunidade e do poder público para as várias formas de utilização dessa área apesar do abandono que ela se encontra”, disse o comunitário.

Urbanista vê desigualdade no espaço público da cidade

De acordo com a arquiteta e urbanista Mara Rúbia Collyer, existe uma desigualdade urbana em se tratando de ocupação do espaço público para afazeres em Manaus.

Segundo ela, falta uma comunicação entre os moradores e os órgãos da Prefeitura e do Estado para se pensar algo por esses locais. “Quem mora na Ponta Negra e na Zona Sul é privilegiado, e os que moram em outras zonas, não. Quando vou de um extremo ao outro da cidade vejo locais que poderiam ser usados como uma boa área de convivência e não estão sendo utilizados. A cidade é mais urbanizada e mais atrativa pelo lado da Zona Sul do que nas zonas Norte Leste. Essas pessoas passam a ser marginalizadas nos locais onde elas moram. Elas têm que chegar na pessoa certa até porque hoje há uns 15 anos atrás não havia tantos arquitetos na prefeitura e, hoje, esse setor é comandado por um grande arquiteto que é o Roberto Moita. Mas eu só vejo mais transformação na Zona Sul”, analisa.

Para ela, só os centros de convivência não podem ser considerados como local urbanístico para quem buscam espaço para as suas atividades.

“Vejo pessoas andando na Bola do Produtor usando parte de avenida Grande Circular  mas é perigoso porque os carros passam toda hora alí. Não sei nem se posso considerar aquilo uma praça. Falta um pouco a Prefeitura ter esse olhar, essa leitura de local urbanístico nesses locais, nesse bairros. Na Zona Leste, por exemplo, eu nao enxergo praças. Na Cidade de Deus as pessoas caminham e exercitam no meio-fio até chegar na Bola do Produtor. E isso é perigoso pois podem ocorrer acidentes. O pessoal tem que sair da Cidade Nova pra caminhar no Centro? O ideal seria em espaços abertos”, comenta a arquiteta e urbanista

“Não sei se entra a questão de violência por serem locais considerados meio perigosos e onde as pessoas não podem sair porque determinada hora fica perigoso. Mas algo deve ser feito”, frisa Mara Collyer.

Abandono gera violência

Os comunitários  ouvidos por A CRÍTICA foram unãnimes em ressaltar que o abandono dos espaços públicos, e sem iluminação, favorece para homicídios, assaltos e o comércio e o consumo drogas. Segundo Gil Eanes, da Comissão Reviva o Educandos, o bairro tem o agravante das embarcações que há anos estão encalhadas na praia fazendo o rio virar depósito de lixo.

Frase

"Com esse projeto na rua 13 de Maio vejo que conquistamos novas amizades e o carinho da comunidade” - Alexandre Santini,coordenador do projeto Entre Nessa Dança

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