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Oficina Escola de Lutheria da Amazônia resgata talentos de crianças e jovens há 16 anos

Crianças e adolescentes carentes do bairro Zumbi, na Zona Leste, que têm na Oficina Escola de Lutheria da Amazônia (Oela) uma oportunidade de desenvolver atividades culturais e educativas, emocionam com suas histórias e talentos 21/12/2014 às 13:35
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A Oficina Escola de Lutheria da Amazônia atende crianças e jovens carentes do bairro Zumbi, na Zona Leste, há 16 anos
VINICIUS LEAL Manaus (AM)

Apertando a ponta dos dedos sobre as cordas do violão, pequenos acordes de “Asa Branca”, canção de Luiz Gonzaga, saíam, mesmo que de forma tímida, do instrumento tocado pela pequena Ellen Caroline Menezes Neves, de 11 anos. Ao redor, outras crianças e adolescentes, cada um com seu violão ou sua flauta, ensaiavam o tom de um recital de Natal.

“Minha mãe fez o primeiro cavaquinho dela aqui. Ela estudou aqui também. Passou muitos anos, mas ela não aprendeu a tocar”, disse Ellen, aos risos. Com um chapéu de Papai Noel, ela e outros colegas, muitos moradores daquele bairro, se apresentaram momentos depois para pais e os professores, cantando e tocando a música “Noite feliz”, na versão em inglês.

“Minha mãe estudou aqui. Agora ela colocou eu e a minha irmã porque a gente ficava muito tempo em casa sem fazer nada”. A mãe, Simone Menezes Neves, 32, se encantou com a apresentação. “Ela é chorona e vê a gente se esforçando”, conta Ellen. Além dela, a irmã de 13 anos também tocou no recital de Natal da Oficina Escola de Lutheria da Amazônia (Oela), entidade de direito privado sem fins lucrativos (ONG).

A história de talento e aprendizado para crianças e adolescentes carentes, com idades entre 8 a 18 anos, se repete há 16 anos naquela região – conjunto São Cristóvão, bairro Zumbi 2, Zona Leste da capital. Jovens, que durante os anos 1990 formavam os grupos criminosos chamados “galeras”, foram resgatados e transformados nos primeiros membros da Oela – trabalho iniciado por Rubens Gomes, fundador da entidade.

“Eles tinham ausência de estudo, era uma comunidade urbana, mas totalmente abandonada”, conta Rubens. Segundo ele, antigo professor da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), os adolescentes andavam armados com facões pelas ruas e cometiam crimes brutais que estampavam as páginas dos jornais da cidade.

“Para entrar aqui (sede da Oela), eles tinham que entrar sem armas. Eles me davam, participavam das aulas e no final eu devolvia tudo. Só assim eu conseguia trazê-los para cá. E eles mesmos que produziam aquelas facas”, relata Rubens. Com o passar dos anos, os jovens cresceram e os filhos deles agora fazem parte do grupo de alunos da Oela.

Aulas

Informática, inglês, português, matemática e música. As aulas disponíveis aos alunos da Oela são ministradas por professores que ou aprenderam tudo lá mesmo ou que conheceram a entidade através dos famosos violões. “Comprei um violão daqui de um rapaz que fez o curso aqui. Pesquisei na internet e me inscrevi para ser professor”, conta o violonista Guilherme Munhoz, 26 anos. “Aqui eles não ganham bolsa (como outros projetos sociais), estão aqui porque realmente estão interessados na música”, completou Guilherme. Segundo ele, sete turmas com dez a 12 alunos aprendem a tocar instrumentos duas vezes por semana.

Ligações que se estendem por anos

Com o passar dos anos, a Oela se tornou parte da vida de ex-alunos, que atualmente são funcionários da ONG e coordenam trabalhos ou ensinam conteúdo nas salas de aula. A participação deles, anteriormente como aprendizes, se transformou em atividade laboral. A maioria deles sempre morou e ainda mora no bairro Zumbi.

É o caso de Gerson dos Santos Aranha, 20 anos, que hoje é secretário na Oela e universitário no 3º período do curso de Pedagodia. Ele entrou pela primeira vez na entidade aos 15 anos, com o irmão, que hoje é músico.

“Muitos saíram daqui com objetivos porque os jovens entram sem foco nenhum. A gente mostra que eles podem correr atrás dos sonhos. A gente planta aquela ‘sementinha’ neles”. Gerson passou a fazer parte do quadro de funcionários, que são, no total, 25 pessoas.

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