Segunda-feira, 24 de Junho de 2019
TRANSPORTE

Ônibus sem cobrador em Manaus? Uma polêmica no horizonte

Avanço nacional do modelo que extingue a função reacende o debate em Manaus; são 14 as capitais do País sem a função nos coletivos



zCID0128-201_p01_E2E561B9-0E0D-4E28-B755-2E8E7830EFA9.jpg (Antonio Lima - Arquivo/AC)
28/04/2019 às 02:53

Um levantamento recente feio pela Associação Nacional de empresas de Transportes Urbanos (NTU) mostrou que quase metade das capitais brasileiras já não tem cobradores de ônibus no transporte coletivo. Em Manaus, o assunto é polêmico é divide opiniões  entre empresários, rodoviários e passageiros.
 
Mesmo sem estudo técnico e afirmações de aplicabilidade por meios dos órgãos administradores e fiscalizadores do transporte coletivo na capital amazonense, testes já foram feitos por algumas empresas do sistema. Um deles gerou conflito no mês passado, quando umas das operadoras do transporte público tentava implantar a ideia em algumas linhas. 

O assunto, que já chegou a ser levantando pelas autoridades e repudiado pelos profissionais do ramo, virou até proposta de projeto de lei na Câmara municipal de Manaus (CMM). O projeto,  em tramitação, visa manter o emprego de mais de três mil cobradores das empresas que operam o sistema, que ficariam desempregados caso a medida seja implementada na capital. 

O Sindicato dos Trabalhadores do Transporte Rodoviário de Manaus (STTRM) é contra a retirada dos cobradores dos ônibus.  “Apesar disso,  umas duas ou três empresas  tentaram colocar carro na rua sem cobrador, mas o sindicato  não permitiu. Eles não podem retirar (o cobrador) porque o salário dele está inserido na tarifa e isso iria reduzir o valor da tarifa. Eles vão fazer isso se tirar essa despesa? Não vão”, comentou secretário geral da entidade, Elcio Mota. 

 Insalubridade
 Elcio salienta que o projeto de lei na CMM tem como  finalidade  evitar a exclusão da função e explica que mesmo as empresas colocando ônibus novos e dando oportunidade para os profissionais virarem motoristas,  a situação ficaria insalubre. “Não daria certo porque, além de sobrecarregar o motorista, poderia causar acidentes, pois não tem como ele dirigir e fazer a cobrança. Já pensou um ônibus da linha 418 em uma viagem longa, cansativa, ele fazendo as duas coisas?  Em alguns estados onde a medida foi implantada os sindicatos estão brigando para mudar essa situação”, afirma o sindicalista.

Corte e barateamento

O levantamento da NTU, publicado em março. apontou que pelo menos 56 cidades dispensaram, total ou parcialmente,  os profissionais nas linhas de ônibus.  Entre as capitais, 14 das 26 adotaram a medida, entre elas  Belém, Belo Horizonte, Florianópolis, Campo Grande, Fortaleza, Goiânia, Macapá, Natal, Palmas, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, São Paulo e Vitória.

Os dados da associação mostram ainda que o Brasil tem cerca de 3.300 municípios com serviço de ônibus municipal e a retirada dos cobradores representa um corte de custos para as empresas, o que pode ajudar a baratear a passagem. 

Cobrador tem impacto de R$ 0,70 na tarifa, diz Sinetram

Sobre a possibilidade da extinção de cobradores nas linhas de ônibus  e os testes já realizados em algumas empresas, em Manaus, o Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros do Estado do Amazonas (Sinetram) afirma  que alguns empresários fizeram testes de forma individual, sem ter sido uma determinação da entidade. 

O Sinetram disse também que o assunto está sendo analisado  pela Superintendência Municipal de Transportes Urbanos (SMTU), mas não tem prazo para implantação. Na avaliação do sindicato, o cobrador custa cerca de 0,70 centavos da tarifa estipulada hoje (R$ 3,80). 

Já a SMTU nega que estava avaliando a mudança e destaca que não possui qualquer projeto relacionado à retirada dos cobradores do sistema.

Usuários duvidam de melhorias

Nas ruas o assunto divide opiniões. A empregada doméstica Viviane Coelho, 35, por exemplo, usa o transporte público todos os dias ao sair de casa para, no bairro São José, Zona Leste, e ir para o  trabalho, no Japiim, Zona Sul.  Ela diz não concordar com o fim dos cobradores nos ônibus  porque acredita que isso não ajudaria em nada, nem quem usa o transporte todos os dias e nem os trabalhadores que ficariam desempregados. 

“Imagina um ônibus lotado. Até você pagar a passagem e passar, o motorista ia ter que ficar parado. Isso atrasaria mais ainda a nossa vida já corrida. Fora o foco dos assaltos. Eles querem evitar dinheiro no coletivo, mas hoje em dias os assaltantes entram para pegar os pertences dos passageiros. Então isso não ia adiantar e ainda ia deixar um monte de gente desempregada”, opinou Viviane. 

Já o estudante universitário Klauson Dutra, 23, discorda da empregada  doméstica e acredita que a mudança, caso ocorra, não vai fazer tanta diferença na vida do usuário. “Ter cobrador, ou não, é indiferente no ônibus. Em tese, ele existe para destrocar o dinheiro do passageiro e liberar a catraca. Porém, ele se faz necessário pela cultura que temos no transporte público. O grande problema, para mim mais complicado, é a falta segurança no modal. O que acho que não vai melhorar se isso ocorrer”, destacou Klaudson. 

A funcionária pública Ana Santos, 40, usa o coletivo três vezes por semana quando não consegue carona para ir ao trabalho em uma escola na Zona Norte da cidade e também acha que nada vai melhorar em relação a qualidade. “Já ouvi essa história. As empresas alegando que precisam reduzir custos, que isso ia ajudar. Mas ao meu ver nada vai acontecer. A gente já tem um sistema ruim com as duas funções dentro do ônibus, imagina somente com uma. Isso não tem cabimento. Eu não concordo”, disse a usuária 

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