Quinta-feira, 18 de Julho de 2019
Os ' sem-praia'

'Órfãos' da Ponta Negra sem opção de balneários gratuitos em Manaus

Sem ter a Ponta Negra para o lazer, o que resta para o manauara são as praias abertas das Zonas Leste e Oeste  que, além de pagar entrada, exigem que os frequentadores tenham carro ou disposição de atleta



1.png Em pleno domingo de sol, 11h30, a praia da Ponta Negra estava quase vazia. As poucas pessoas que foram ao local aproveitaram a ausência, inclusive, de bombeiros, para tirar fotos na cadeira do salva-vidas
13/05/2013 às 08:18

A interdição da praia da Ponta Negra no último dia 30 de abril, por conta da presença de jacarés no local, excluiu as camadas mais populares dos balneários de Manaus e elitizou de vez a área mais nobre da cidade. Com o acesso à única praia pública no perímetro urbano da capital bloqueado, quem tem pouco dinheiro no bolso precisa se contentar com o chuveiro de casa para se refrescar do calor.

Os banhistas que procuram refúgio nos balneários do Rio Negro ou do Tarumã-açu têm que estar com o bolso “preparado”. Só para entrar em locais como a Prainha, a Praia Dourada ou nos Flutuantes Vitória Régia e da Tia (todos no Tarumã), o usuário desembolsa, em média, R$ 5 por pessoa. Como a entrada de comida e bebida é proibida (nos que autorizam, é cobrada uma taxa adicional, de até R$ 35), o frequentador gasta um pouco mais. Veja fotos aqui.

E quem depende do transporte coletivo também precisa ter paciência e preparo físico, pois além de pouquíssimos ônibus atenderem estas áreas, o cidadão ainda precisa caminhar alguns quilômetros entre a parada de ônibus mais próxima e o balneário. Se optar por uma praia mais distante da cidade, como a da Lua, do Livramento ou do Tupé, o banhista ainda gasta entre R$ 10 e R$ 30 só para ir e voltar de lancha ou barco a esses locais.

O curioso é que, mesmo com a interdição da Ponta Negra, o movimento nos balneários privados ou afastados da cidade permanece o mesmo. “A minha clientela é diferente da que frequentava a Ponta Negra. Aqui é um espaço mais selecionado, para quem tem carro e procura segurança na hora de se divertir”, disse Mário Marinho, proprietário da Praia Dourada do Amazonas. “A interdição da Ponta Negra não afetou a travessia. Quem procura a praia da Lua ou do Tupé quer calmaria e não gosta de bagunça”, destacou Almir Santos, condutor de uma lancha na Marina do Davi, de onde é possível pegar um barco para as praias citadas.

Resistência

Na manhã de domingo(12), quando os termômetros marcavam 40°C, as areias da Ponta Negra estavam quase vazias. Uma família aproveitou a ausência de bombeiros, salva-vidas e fiscais para furar o bloqueio e se banhar na área reservada para crianças. Após a equipe de A CRÍTICA começar a fotografar a cena, um fiscal do Instituto Municipal de Planejamento Urbano (Implurb) foi até o grupo e pediu para que eles se retirassem do rio. “Colocamos as crianças na água porque elas pediram muito. A meninada vê um rio desse, nesse calor, e quer tomar banho”, disse um dos banhistas.

A universitária Bruna Kisha, 23, preferiu usar a criatividade, construindo castelos de areia com o pequeno João Gabriel, 2. “A graça da praia é o rio. Num dia quente como esse então, tudo que a gente quer é dar um mergulho. Mas, se a medida de interditar a praia for para prevenir algum acidente, precisamos entender”, argumentou Bruna.

Lucros estão menores, mas o aluguel não

Além dos frequentadores das camadas mais populares, outro grupo que foi bastante prejudicado com a nova interdição da Ponta Negra foi o dos 25 permissionários que possuem barracas na faixa de areia da praia. Mesmo com a clientela reduzida quase a zero, o valor das mensalidades cobradas pela prefeitura continua o mesmo (R$ 521 por barraca, totalizando R$ 13.025).

“A gente chega a ganhar mil e duzentos reais num fim de semana movimentado. Mas não estamos vendendo nada com a praia interditada. Não há como pagar a mensalidade. O pior é que ninguém da prefeitura pensa no nosso lado”, reclamou uma permissionária, que preferiu não se identificar. Ela também disse que todos os dias há banhistas que furam o bloqueio da praia. “A praia está abandonada. Não tem bombeiro, polícia, ninguém”, relatou.

Opções mais populares, mas pagas

Boa parte dos frequentadores da Ponta Negra saíam dos bairros da Zona Leste e cruzavam a cidade para chegar à praia. Mas, apesar da carência de áreas de lazer, a região de maior concentração popular de Manaus possui alguns balneários em pontos isolados. Em todos eles, no entanto, o banhista tem que pagar para entrar.

Um dos mais conhecidos é o Remanso do Boto, no Puraquequara. A administração do local contratou alguns salva-vidas particulares para evitar acidentes. A tranquilidade é tanta que o casal Francisco Sena e Eronilda de Souza atou a rede entre as árvores, dentro do rio, e colocou a filha para dormir “sobre as águas”.

Muitos frequentadores chegam ao Remando em lanchas e canoas próprias. Outro ponto bastante frequentado é o lago do bairro Colônia Antônio Aleixo, na localidade conhecida como 11 de maio. Com muita música (principalmente forró), três flutuantes são responsáveis pelo “agito” dos moradores da região durante os finais de semana.

Segurança no rio é coisa rara

Enquanto TAC exige 60 bombeiros e policiais na vazia Ponta Negra, balneários lotados ficam ‘esquecidos’

Para ser reaberta no dia 11 de abril, a Ponta Negra precisou passar por uma série de adaptações de segurança, fruto do Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) assinado entre o Ministério Público do Estado e a Prefeitura de Manaus. Assim, equipes de 40 bombeiros e 20 policiais, reforçadas por lanchas, motos aquáticas, triciclos, e até pranchas de Stand Up Paddle ficavam responsáveis por vigiar os banhistas na área delimitada.

Nos balneários que continuam abertos e foram visitados por A CRÍTICA ontem, porém, a segurança não passou “nem perto” do exigido na Ponta Negra. Na praia da Lua, aliás, bombeiros e salva-vidas são raros. “Venho sempre aqui e nunca vi um bombeiro sequer. A grande verdade é que as praias estão abandonadas”, disse o padeiro Francisco Silva, 33, que estava no local com esposa e filhos.

Apesar do monitoramento dos administradores, o cenário na Prainha do Tarumã era preocupante. Lanchas e jet-skis circulavam livremente entre os usuários. Alguns banhistas se arriscavam subindo em uma árvore parcialmente submersa, com mais de 10 metros de altura, e saltavam dela para dentro do rio. Os bombeiros também não foram vistos no local.

O trânsito livre de jet-skis nas proximidades dos flutuantes da Tia e Vitória Régia também foi uma das reclamações dos frequentadores. Na Praia Dourada, a direção do local aproveitou a cheia e resolveu cercar uma área com troncos para segurança dos banhistas. Os ataques de piranha que ocorreram no começo do ano no local acabaram. “Aquele problema aconteceu no período da desova da piranha. Isso é recorrente em todo lugar. Mas aqui teve um destaque maior”, disse o proprietário Mário Marinho. Banhistas entrando bêbados no rio foram vistos com frequência em todos os locais visitados. A mistura álcool e rio foi apontada pela prefeitura como um dos fatores que ocasionaram a morte de 16 pessoas na Ponta Negra desde a inauguração da praia perene.

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