Quarta-feira, 17 de Julho de 2019
Entrevista Dom Mário Pasqualotto

Os novos rumos de D. Mário Pasqualotto

Recém aposentado, o co-fundador da Fazenda da Esperança pretende continuar o trabalho de resgate de dependentes químicos.  Ele fala também de escândalos na igreja e de suas preocupações



1.png Dom Mário Pasqualotto
04/08/2013 às 12:04

Após 12 anos atuando como bispo auxiliar de Manaus, Dom Mário Pasqualotto deixa o cargo administrativo e se torna o novo bispo emérito da cidade. A aposentadoria, segundo ele, é um verdadeiro presente de Deus pois poderá agora se recuperar de três fraturas nos ossos da perna.

Co-fundador da Fazenda da Esperança em Manaus, o bispo de nacionalidade italiana diz que pretende morar na casa paroquial da paróquia Nossa Senhora de Nazaré, no bairro Adrianópolis, e que continuará cuidando dos dependentes químicos internados na unidade.

Em entrevista concedida a A CRÍTICA no dia 26 de julho, Dom Mário fala sobre os escândalos envolvendo a Igreja Católica, a Jornada Mundial da Juventude, as igrejas neopetencostais, além de afirmar: “A sociedade não está pronta para cuidar dos dependentes químicos”. A seguir, confira trechos da entrevista.

O senhor é um dos fundadores da Fazenda da Esperança. Esse ano o local completa 12 anos. Como o senhor vê essa atuação da Igreja com os dependentes químicos?

O primeiro grupo da Fazenda da Esperança começou dia 4 de agosto de 2001. Nesse ano o tema da Campanha da Fraternidade era “Vidas Sim, Drogas não”. Iniciamos a obra para ser um sinal concreto da campanha. Eu já conhecia o frei Hans Stapel (criador do projeto) porque ele tinha tentado implantar unidades, em 1997, em Parintins e Maués, onde eu atuava na época.  Atualmente há mais de 90 comunidades em todo o mundo.

Por que o senhor optou por cuidar diretamente dos dependentes químicos?

A droga é a praga do século só que o pessoal não se dá conta. Dizem que 90% dos presos das nossas cadeias são jovens. E, desses jovens, a maioria foi presa por conta das drogas. Uma pesquisa entre os nossos internos mostrou que 42% começaram a se drogar com 11 ou 12 anos; outros 42%  começaram com 13 a 14 anos. Isso quer dizer que 84% começaram a se drogar de 11 a 14 anos! É preciso refletir sobre o porquê disso, como esses jovens têm acesso a esses entorpecentes e de quem é a culpa.

Há diferença no processo de  recuperação dos homens e das mulheres?

Sim. Percebemos que para as mulheres é mais difícil. Há um número menor de internas, então basta uma entrar em crise que todas as outras entram também. Quando uma comunidade é grande, como é a Fazenda da Esperança masculina, eles se ajudam quando estão em crise. Quando uma mulher decide parar o tratamento, normalmente leva duas ou três com ela. Além disso, a mulher é mais sofrida, machucada, maltratada pois a maioria tem filhos e quando começa a deixar a droga retoma o sentimento materno que tinha sido perdido. Aí surge a vontade de sair por conta dos filhos e tudo fica mais complicado.

O senhor acha que a sociedade está pronta para receber esses ex-dependentes químicos?

Não. Eles sofrem muito quando saem porque têm dificuldades de achar trabalho. A sociedade precisa aprender a compreendê-los, pois são pessoas que a droga prejudicou. A coordenação motora não é mais a de uma pessoa normal, o cérebro foi atingido. Quando uma empresa recebe um ex-dependente químico precisa tratá-lo de forma diferente. É preciso paciência e bondade, que a maioria de hoje não tem.

Como a sociedade vê a integração desses dependentes?

A sociedade olha com muita superficialidade esse assunto. Todos deveriam sentar e pensar mais sobre isso e refletir sobre o antes, o durante e o depois da cura. A sociedade tem que se  preocupar em ter menos toxicodependentes e passar a focar na diminuição do tráfico e na produção de drogas. Não adianta só prender quem consome. Tem que prender quem vende. Acabar com a causa e depois cuidar deles para que eles sejam tratados e reinseridos dignamente.

Há uma corrente que defende a legalização de entorpecentes como forma de exterminar o tráfico. Como o senhor vê esse movimento?

A maioria dos toxicodependentes diz que começou a usar drogas porque experimentou uma vez e não conseguiu largar. Se você liberar não terá como controlar isso porque não existem políticas públicas para os toxicodependentes. Eles vão se multiplicar. A primeira dose é perigosa porque cria gosto e depois dependência. E quando se cria dependência não é fácil. Vejo isso todos os dias. Muitos chegam ao ponto de morrer ou de querer morrer.

Nesse caso não é apenas o jovem que sofre...

Eles são muito discriminados, odiados até mesmo pela própria família. Tem muitos casos em que só a mãe ficou com o filho, só ela o apoiou e o amava. O pai e os irmãos se cansam e eu entendo isso. Mas é um problema que tem que se resolver, não é? Porque senão depois se torna um perigo para a sociedade. Cuidar de toxicodependentes deve ser interesse da comunidade, mas ainda não abrimos os olhos pra isso.

O senhor acha que faltam políticas publicas?

Faltam. Assim como falta orientação e mais espaços de tratamento. O governo anunciou que vai abrir uma comunidade de reabilitação para o Amazonas... Tomara! Mas é preciso pensar quem vai trabalhar com eles. Se alguém trabalha com isso para ganhar dinheiro é melhor que caia fora logo porque será dinheiro jogado fora. Espero que o governo entenda que só o amor recupera essas pessoas e que não adianta colocar somente profissionais especializados em dependência química.

A Jornada Mundial da Juventude contou com a participação de centenas de jovens no Rio de Janeiro. Como o senhor vê a religiosidade dos jovens atualmente?

Temos um retorno muito forte dos jovens católicos. Aqui em Manaus veio a cruz, o ícone da Nossa Senhora, e teve uma mobilização muito forte. Não são todos que fazem isso, mas é um bom grupo, que chamamos de “fermento da massa”. Os  jovens que foram para o Rio vão voltar com uma carga espiritual muito grande.

A jornada se tornou uma ferramenta para atrair os jovens para a Igreja?

Estou mais preocupado é com essas igrejas novas, não todas as evangélicas, mas as neopetencostais. Elas prometem demais, fazem uma religião muito humana, como se a religião fosse um passo para ficar bem e ganhar dinheiro. E muitos, iludidos por isso, ficam trocando de igrejas tentando conseguir essas promessas, até desanimar e virar ateu.

A Igreja então não está preocupada em perder fiéis ou conquistar novos fiéis?

Tem muitos casos de pessoas que vão a essas “novas igrejas” porque foi prometido a elas dinheiro, sucesso. Quer dizer que não vale mais a religião espiritual? É esse o perigo. Não é esvaziar a Igreja Católica, porque não nos interessam números. A igreja será sempre um pequeno grupo que atua como fermento. O que me preocupa são as igrejas que tiram a religião da vida das pessoas.

Dogmas e escândalos envolvendo a Igreja Católica são cada vez mais discutidos. O senhor acha que a Igreja vai se abrir mais para o diálogo?

Os assuntos polêmicos e os escândalos precisam ser superados. Todas as categorias possuem pessoas problemáticas ou que cometem erros. Quantos médicos erram? Vamos condenar todos? E os advogados e qualquer outra classe? Quantos praticam, também, a pedofilia?

E por que há destaque  maior para os erros da Igreja Católica?

Porque a igreja carrega mais a moral.  Somos pessoas humanas e erramos. Não posso perder a fé porque o padre errou. A minha fé não pode ser voltada ao padre, mas a Cristo, que é onde a minha fé se fundamenta.  Mas parece que religião se tornou um mercado  de quem oferece mais para ter mais fiéis.

Qual seria a melhor opção para reestruturar as famílias?

 Infelizmente as crianças deixaram de ser o centro das famílias. Agora o casal pensa primeiro em si e depois nos filhos. Acho um erro esperar a criança crescer para decidir qual religião seguir. Se fosse por isso, teria que esperar a criança crescer para decidir se quer estudar ou não. Os pais têm que cuidar das crianças e apresentar o que acham que é o melhor para ela. A educação religiosa é preciso acontecer desde o início.

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