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Manaus
HISTÓRIA

Os rendez-vouz, cabarés e bordéis de uma Manaus antiga e bem diferente de hoje

Os lupanares, prostíbulos ou casas de tolerância, como eram chamados esses locais, marcaram época na capital amazonense, com nomes curiosos visando o lazer do sexo pago para todas as camadas sociais 26/11/2017 às 18:56 - Atualizado em 27/11/2017 às 09:58
Show cabaresdeoutrora
Os primeiros rendez-vouz ou lupanares de Manaus, como eram chamados os bordéis, aproveitaram o período áureo da borracha (Foto: Héli)
Paulo André Nunes Manaus (AM)

Cidade literalmente boêmia por natureza, há muitos anos Manaus abrigava, nas suas noites, cabarés e bordéis que davam aos seus clientes o lazer do sexo pago. Essa diversão sempre encontrou eco em todas as camadas sociais, mas foi na época áurea da extração da borracha, e na década de 1960, que teve seu apogeu histórico, seja com prostitutas de luxo a mulheres que “vendiam” prazer por pouco dinheiro, em face das necessidades financeiras.

Os primeiros rendez-vouz ou lupanares de Manaus, como eram chamados os bordéis, aproveitaram o período áureo da borracha, que, de acordo com historiadores, viveu seu auge entre 1879 e 1912, tendo depois experimentado uma sobrevida entre 1942 e 1945, durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

Nessa época não existia a Aids, e as doenças sexualmente transmissíveis mais temidas, e contraídas, eram a gonorréia e a crista-de-galo, também conhecidas como “doenças de amor”, e que eram curadas com dolorosas injeções.

Banho tcheco

Em alguns desses bordéis, o asseio pós-prazer era feito por meio do famoso “banho tcheco”, ou seja, com um balde de água e cuia. Era o mais refrescante para a época. E também havia  aqueles de beira de rio, esses sim mais, digamos, refrescantes pós-sexo.

“As casas de tolerância, como também eram conhecidos esses locais, sempre existiram. Em seus relatos, o escritor Mário Ypiranga Monteiro falava sobre um boteco colonial existente na rua da Praia, em frente ao Porto da cidade, na área portuária. Não era um prostíbulo, e sim mais uma casa de diversão e de fofoca. Haviam pousadas no Bairro do Céu, no Centro. As casas de tolerância e frequência de prostituição começaram no período da borracha até porquê, além dos prostíbulos perto do Porto - onde frequentavam os marinheiros, transeuntes e viajantes - começou a se proliferar muitas casa de luxo e cabarés, que vão receber os seringalistas, visitantes”, explica o historiador Aguinaldo Figueiredo.

A vida noturna da cidade era contínua, as pensões também não fechavam, eram 24 horas. Vinham se deleitar nos cabarés de autoridades do Império a ministros ou seus signatários e, claro, os famosos barões da borracha para curtir a orgia das nativas mas, principalmente, de prostitutas oriundas da Europa, como polacas e francesas, loiras (ou de cabelos tingidos). A maioria delas era ucranianas, que se notabilizam por serem poliglotas, ardilosas na arte da sedução e por enlouquecerem seus clientes com variações nas posições sexuais.

Cabaré chinelo

Construído em 1899, e localizado entre as ruas Bernardo Ramos, Governador Vitório e Frei José dos Inocentes, o Hotel Cassina é um dos maiores exemplos dessa vida boêmia da Manaus antiga: construído por Andrea Cassina, com a decadência da época áurea da borracha ele virou Cabaré Chinelo, sinônimo de casa de quinta categoria.

De 1960 a 1980 vários bordeis eram de fácil localização. O bordel Ângelus ficava onde hoje é o melancólico Hospital Psiquiátrico Eduardo Ribeiro, o Piscina Clube na avenida Torquato Tapájós, o La onde está localizada a Estação Rodoviária de Manaus, na avenida Mário Ypiranga, e o Verônica no que é hoje o Millenium Shopping.
Já o Shangrilá ficava perto do Clube Sírio & Libanês, na avenida Constantino Nery

Na década de 1980, um dos mais famosos foi o lendário Saramandaia, que tinha esse nome em alusão a uma novela da Globo de mesmo nome – ficava localizado na avenida Torquato Tapajós, próximo a uma escola particular. Na Estrada da Cidade Nova ficava o Rosa de Maio, e o Forquilha na Estrada do Aeroporto. Na estrada da Ponta Negra existia o Mansão das Blumas, em frente ao bairro de Santo Agostinho. Outro de nome curioso foi o Maria das Patas no bairro de Petrópolis, próximo ao que hoje é o 3º Distrito Integrado de Polícia (DIP).

Desaparecimento

“O auge dos cabarés foi a década de 1960, com o La Hoje,  mais chique, Rosa de Maio, Piscina, Iracema, Ângelus. Eles foram desaparecendo por conta da mudança da cidade, pela implantação da Zona Franca que expandiu os limites territoriais da cidade, e acabaram sendo englobados e inseridos no processo urbano. E, ao mesmo tempo diminuiu o ritmo da prostituição e apareceram novos tipos de entretenimento, como os motéis. E esse lado festivo da prostituição permaneceu em alguns locais como o Centro da cidade”, explica o pesquisador Aguinaldo Figueiredo.

Tempos atuais

No Centro Histórico do qual fala o historiador, atualmente as vias Travessa Vivaldo Lima, Tamandaré, Itamaracá, Praça 15 de Novembro (Praça da Matriz) e Lobo D’Almada concentram a perigosa atividade da prostituição paralela à criminalidade. Do glamour da Belle Époque, hoje o que se vê é a banalização da vida em sangue, suor e lágrimas!

Waldick Soriano brigou com 'Tigre do Amazonas' em Educandos

Poucas pessoas sabem ou lembram mas, acredite se quiser:  o consagrado e já-falecido cantor e compositor Waldick Soriano, ícone do brega, protagonizou uma histórica briga com o lutador de artes marciais Salim Dib, o “Tigre do Amazonas”, em um famoso bordel da Manaus na década de 1970: o Bar São Domingos, que existia em frente ao antigo Cine Vitória, na avenida Leopoldo Peres, em Educandos, ao lado da Usina Americana.

Segundo relatos, comenta-se que o entrevero foi porque o artista teria mantido um affair com a  mulher de Dib. O lutador foi tirar satisfações e ambos foram para as vias de fato. A contenda entre o brigão e mulherengo Waldick Soriano contra o “Tigre”não teve vencedor, e ambos foram desapartados antes que acontecesse o pior.

Frase

"As casas de tolerância, como também eram conhecidos esses locais, sempre existiram aqui em Manaus”, Aguinaldo Figueiredo, historiador amazonense

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