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Padres ganharão o 'poder' de perdoar o aborto

Papa Francisco fará a abertura do ‘Ano Santo da Misericórdia,’ em dezembro, e dará o ‘poder’ aos padres de perdoar o aborto. Anteriormente, o bispo e o Papa eram os únicos que tinham a liberdade perdoar o pecado  20/09/2015 às 12:05
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Até hoje, o bispo é o único que tem a liberdade de perdoar o pecado mortal do aborto e, caso ele não o conceda, a última alternativa é buscar o perdão do papa. Isso deve mudar a partir do dia 8 de dezembro
Isabelle Valois ---

Quando o papa Francisco anunciou que, na abertura do ano “Jubileu Extraordinário da Misericórdia”, será dada a liberdade ou “poder” aos padres para perdoarem o “pecado do aborto”, a dona de casa Maria Jesuíta da Silva*, 55, começou a buscar mais informações do tema e descobriu que, para a Igreja Católica, ela era uma “criminosa”, que cometeu um “pecado mortal” passível de excomunhão, de acordo com as leis do Código de Direito Canônico. De acordo com o código, caso ela continue a entrar na fila da comunhão, estará comungando a própria condenação.

Após saber que cometeu o pecado mortal, Maria agora aguarda o início do Ano da Misericórdia, quando irá procurar um sacerdote para confessar o pecado. Enquanto isso, ela não receberá a comunhão, pois sabe das consequências. Para ela, a pior parte foi quando vieram as lembranças do ocorrido. “Fui a responsável em comprar a medicação para a esposa de um sobrinho meu realizar o aborto, e quem participa também comete o pecado”, disse.

Maria contou que já se passaram mais de 15 anos do fato ocorrido. “Meu sobrinho engravidou uma namorada da época e antigamente a gente sabia que existia uma medicação destinada para um outro tipo de tratamento, mas que abortava o feto. Fui em busca do remédio a pedidos da minha imã, lembro que me senti uma criminosa naquele dia, pois a pessoa que iria me passar o remédio marcou hora e local. Quando fui buscar a medicação tive a pior sensação do mundo e levei essa história comigo por vários anos, mas não sabia que havia cometido o pecado, até porque nesse tempo não era ligada à Igreja, mas agora estou ciente do que fiz e me arrependo”, explicou.

Por se tratar de um pecado “grave”, o bispo é o único que tem a liberdade de perdoá-lo, mas caso não o conceda, a última alternativa é buscar o perdão do papa. Mas, a partir do dia 8 de dezembro, isso vai mudar.

Nesse dia, destinado à solenidade da Nossa Senhora da Imaculada Conceição de Maria, o papa Francisco fará a abertura do ‘Ano Santo da Misericórdia’, proclamado por ele como Jubileu Extraordinário da Misericórdia. Na solenidade, o pontífice irá facultar o perdão para todos os padres.

Compreensão

O ex-vigário judicial do Tribunal Eclesiástico, padre Cânio Grimaldi, da congregação salesiana, que por anos dedicou-se aos processos canônicos do Amazonas, explicou que, com esse procedimento facultativo dado pelo papa, todo padre terá a liberdade de perdoar o pecado do aborto quando for confessado e o pecador mostrar arrependimento.

O aborto, conforme o padre Cânio, não é cometido somente pela mãe geradora, mas também por todos os envolvidos no crime. “O pai da criança, quando aceita e apoia a realização do aborto, também comete o pecado. Os pais de ambos, quando aceitam e incentivam, também cometem o crime, quem ajuda a realizar ou sugere algo para aquele aborto, também comete o pecado mortal e quando há esse entendimento do tipo de pecado, de imediato é excomungado”, explicou.

Há casos onde a mãe não tem culpa de ter cometido o aborto. Conforme o padre, há mães que foram forçadas, ou pela família ou pelo próprio companheiro, a cometerem o ato. Nesses casos, o próprio padre percebe que o pecado fica destinado aos demais, que a forçaram a cometer o ato.

Padre Cânio lembrou que no período em que era vigário judicial atendeu um caso no tribunal, onde a jovem havia entrado com um pedido de nulidade do casamento religioso. No meio do processo ela relatou que, antes de ser obrigada a casar, havia ficado grávida do seu companheiro, mas os pais a obrigaram a cometer o aborto. “Depois eles foram obrigados a casar e não deu certo. Nesses casos, o papa quando se pronunciou sobre a liberdade para os tribunais darem a sentença final da nulidade do casamento, ele explicou que em casos como esse o processo deve ser mais rápido”, disse.

Medida põe as mulheres em risco

Para a ginecologista e obstetra Sigrid Cardoso, que também é professora da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), a mulher de hoje em dia só engravida se realmente quiser ou não se cuidar, pois há várias formas de prevenir uma gravidez, a começar pelos preservativos, que são distribuidos gratuitamente.

Sobre o aborto, Sigrid explicou que qualquer procedimento adotado pode gerar um risco para a paciente e, dependendo da situação, o caso pode levar à morte. Entre os riscos estão os problemas sérios de infecção e hemorragia.

“No caso em que a mulher toma uma medicação, que hoje é proibida a venda nas drogarias mas há o contrabando, ela às vezes não aborta e pode gerar problemas sérios na formação do feto. Há casos em que a mulher perde uma parte da gestação, mas o feto continua, e há casos em que, após o aborto, ficam restos que podem ocasionar uma infecção”, explicou.

Quando há a infecção, a paciente deve procurar ajuda médica, e passar pelo processo de curetagem. “Há situações que, na curetagem, ocorre a perfuração do útero, que é bastantes comum, mas não é um erro médico, pois o útero fica mole e frágil”, detalhou.

Conforme a médica, a inflamação que pode ocasionar a perda total do útero, das trompas e até do ovário, e a mulher ficará estéril. Quando há hemorragia, se não for cuidado o mais rápido possível, pode levar ao choque hipovolêmico e à morte, alertou.

Perdão com base em documentos

O ex-vigário judicial do Tribunal Eclesiástico de Manaus, padre Câncio Grimaldi, explicou que esse gesto de ceder aos padres o direito de perdoar o pecado mortal do aborto já acontece, mas é diferente. “Em cidades grandes, os bispos sabem que a demanda é maior e liberam para alguns padres terem esse ‘poder’ de perdoar o pecado do aborto, mas tudo é feito com base em um documento e tem um período de duração, depois deste período, o padre perde essa liberdade”, explicou.

Para o ano Jubileu da Misericórdia, o papa concederá a liberdade a todos os padres. “No dia 8 de dezembro todos os padres terão essa liberdade de perdoar este pecado mortal. Creio que o procedimento deve durar todo o ano da misericórdia, ele ainda deve se pronunciar sobre isso”, detalhou.

Durante o 43º Assembleia Regional da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que aconteceu esta semana em Manaus, o tema foi abordado.

Ano Santo

A Igreja possui o Código de Direito Canônico. Sobre o aborto, esse código diz: “quem provoca aborto, seguindo-se o efeito, incorre em excomunhão latae sententiae (automaticamente)”. Durante o segundo aniversário do conclave que o escolheu, em 11 de março, o papa Francisco anunciou a realização de um Ano Santo extraordinário, de 8 de dezembro a 20 de novembro de 2016.

Em números

9.890 mil casos de aborto em geral foram registrados no Amazonas nos últimos três anos nos dados de Atendimento da Secretaria de Estado e Saúde (Susam).

1.696 mil casos de aborto no AM ocorreram como espontâneo, por razões médicas e outras gravidez que terminam em aborto foram registrado até junho de 2015.


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