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Manaus
EDUCAÇÃO DE SURDOS

Para amazonenses, dificuldade na redação do Enem surge da 'invisibilidade' do problema

Tema da redação foi "Desafios para a formação educacional de surdos no Brasil", questão considerada invisibilizada pelas poucas abordagens do problema 05/11/2017 às 17:44 - Atualizado em 06/11/2017 às 09:35
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O Portal A Crítica ouviu candidatos que gostaram do tema, mas sentiram dificuldade por conta da ausência de informações sobre a inclusão de surdos na educação Foto: Jair Araújo
Lívia Anselmo Manaus (AM)

O primeiro domingo de provas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) trouxe a redação com o tema “Desafios para a formação educacional de surdos no Brasil”. Fugindo do que era esperado pelos profissionais e estudantes que se preparavam, a temática aborda um antigo, e ao mesmo tempo atual, porém invisibilizado problema de  inclusão na educação brasileira. Nesse momento, tão importante quanto a pontuação das redações para o acesso à universidade é a discussão que nasce em torno dessa realidade muitas vezes desconhecida. 

No Amazonas, mais de 165 mil pessoas estavam inscritas para iniciar as provas do exame neste domingo (5). Enquanto a ansiedade gerava palpites por temas mais polêmicos, que foram impulsionados também pela decisão judicial da presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministra Carmen Lúcia - quem desrespeitar os direitos humanos não terá a redação zerada automaticamente -  o tema escolhido envolve um debate sobre inclusão social e direitos humanos ainda que fora do eixo polêmico tão esperado.

Professor de Português, mestre em comunicação e com uma larga experiência em preparação de alunos para vestibulares e concursos, Tony Silva, é um dos profissionais que avalia o assunto com surpresa. No entanto, para ele, a surpresa não é, necessariamente, negativa para os alunos. “Cogitamos temáticas como o combate a homofobia, o sistema carcerário e até o envelhecimento da população. Entretanto, trata-se de um assunto com uma perspectiva social clara”, ressaltou.

Para ele, um boa redação sobre o desafio educacional para os surdos no Brasil é dissertar sobre o que o ocorre na realidade do país em confronto com o Plano Nacional de Educação.  “Vemos que o país evoluiu em presença na escola, democratização do ensino, mas não no atendimento a esse grupo de pessoas, pois até a intenção do ensino em salas de aulas tradicionais, mas sem professores que dominem no mínimo a língua brasileira de sinais aponta para isso. Existe também  a ausência de materiais e tecnologias específicas”.  

Tema da redação provocou autorreflexão

Tony ressalta ainda que a discussão em torno do tema é um forte aliado a partir de agora. “Provocou uma autorreflexão de todo mundo, inclusive do Poder Público que vai precisar perceber o quanto ainda deve fazer nesse campo. As iniciativas de inclusão de deficientes visuais, mentais e surdos-mudos no ambiente escolar são muito tímidas. As que existem são forçadas, muitas vezes sem planejamento”, critica ele que também é professor da rede pública de ensino.

Como professora de Matemática do ensino fundamental, com experiência em educação especial, Francisca Almeida, de 28 anos, comemorou. “Não é um tema que está na boca do povo, que não está relacionado com o cotidiano direto das pessoas, mas é relevante para sociedade. O grupo de pessoas surdas não têm os direitos discutidos e quando aparece assim é de ficar feliz”.

Francisca ressaltou a importância de abordar, nas dissertações, a necessidade da formação de profissionais para trabalhar na educação de mudos-surdos. “Precisamos que esse contexto vire realidade e que mais pessoas saibam o que é enfrentado em sala de aula”.

Dificuldade surge da invisibilidade do problema

Nas saídas das escolas em Manaus, a surpresa também era muita. O Portal A Crítica conversou com candidatos que avaliaram positivamente o tema, mas ressaltaram que a pouca visibilidade da discussão foi o verdadeiro desafio para a dissertação.


Hugo Leone realizou a prova na UEA (Foto: Jair Araújo)

O técnico em agrimensura, Hugo Leone, de 31 anos, é um dos candidatos que gostou do que viu. “Eu busquei falar sobre como essa dificuldade é real. Para mim, foi fácil abordar que o Brasil tem problemas para ser inclusivo na educação mas, ao mesmo tempo, eu não tinha muita familiaridade com essa educação especial para surdos”, contou.

Ao lado de Hugo, na dificuldade para falar de uma realidade desconhecida, estava Fernanda Serrão, 30 anos, que fez o Enem pela segunda vez. “Não era um tema difícil de uma maneira geral. Mas para mim foi um pouco mais porque apesar de solidária às pessoas com deficiência, eu nunca tive contato com essa realidade de verdade. Além disso, não era algo que estávamos acostumados a pensar”.

A universitária Valdirene Freitas, 29 anos, lembrou que poucas vezes conviveu com pessoas surdas nas universidades ou no mercado de trabalho. “Temos uma realidade bem crítica em relação à inclusão de pessoas em todos os cantos seja na educação ou no mercado. Nós convivemos com isso e nem percebemos. Percebemos somente quando somos convidados a pensar sobre como hoje”. 


Valdirene Freitas também acredita que a maior dificuldade na redação se deu por não ouvir falar sobre inclusão (Foto: Jair Araújo)

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