Domingo, 19 de Maio de 2019
MUNDO MODERNO

'Para combater as fake news é preciso desconfiar de tudo', diz pesquisadora

A jornalista e escritora Pollyana Ferrari propõe reflexão sobre a importância do senso crítico e da verdade nos tempos atuais, em que nossas ‘personas digitais’ dominam boa parte da existência



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A escritora esteve em Manaus semana passada para um debate na Universidade Federal do Amazonas (Foto: Márcio Silva)
15/04/2018 às 09:22

Ao começar seu pós-doutorado pela Universidade Beira Interior (UBI), em Portugal, a escritora e jornalista Pollyana Ferrari percebeu que o fenômeno das fake news, notícias falsas que se espalham “em tempo real” na internet, era muito pior do que ela supunha. “Vi que as fake news estavam espalhadas em todos os segmentos”, conta Pollyana, que dois anos depois está prestes a lançar um livro fruto desta pesquisa.

Ao se aprofundar no tema, a jornalista percebeu que a luta contra as notícias falsas passa pelo resgate da importância da verdade. “Sem percebermos, a mentira vai tomando conta de tudo”, alerta, ao falar da importância dos cidadãos assumirem sua parcela de responsabilidade nesse preocupante cenário.

No livro “Como sair das bolhas”, Pollyana trata da importância do diálogo com quem é e pensa diferente da gente e aconselha: é preciso forçar pausas no turbilhão de dispositivos digitais e, em silêncio no mundo real, refletir sobre cada palavra e link que se compartilha com o mundo.

A escritora esteve em Manaus semana passada para um debate na Universidade Federal do Amazonas. Confira a seguir os principais trechos da entrevista concedia, por email, ao jornal A CRÍTICA.

AC - Como reconhecer uma mentira na internet?

A primeira dica que dou é desconfiar de tudo. Como é muito difícil reconhecer uma fake news de cara, duvide e cheque sempre antes de compartilhar. E quando identificarmos uma notícia falsa, é importante a gente dizer quem são esses sites e porque não devemos confiar neles. Em geral o formato deles, o layout, é muito parecido com veículos de credibilidade e confundem o leitor.

AC - E esses sites ‘vivem’ de cliques, não é?

Sim . E o mesmo fenômeno acontece com indivíduos que compartilham as informações sem verificarem sua autenticidade pelo simples desejo de obterem mais likes, mais repercussão e visibilidade.

AC- E por que essa preocupação em identificar as fake news é importante?

Quando comecei a pesquisar sobre as fake news, percebi que o lastro com o real está se perdendo, e a “persona digital” tem falado mais alto. Sem percebermos, a mentira vai tomando conta de tudo.

AC- Nós, como indivíduos, temos responsabilidade sobre as fake news?

Sempre. Somos co-autores de tudo que publicamos, compartilhamos ou comentamos na rede. Toda informação pode ser responsabilizada pela legislação brasileira. Ao estudar para o pós-doutorado, vi que as falsas notícias não estão só na política. Estão em todos os segmentos. E esse é o perigo. Tem muito fake news na área de ciência, por exemplo.

AC - Como mudar? Como assumir essa responsabilidade?

Sendo um cidadão ético. Não compartilhando ou publicando nada que possa prejudicar outro ser humano. E, como eu já disse, é preciso criar o hábito de checar. Precisamos aprender a checar. Isso começa com pegar a informação e jogar no Google, mas pode ir muito além.

AC - Quais as alternativas de checagens que existem hoje?

Para auxiliar na verificação das notícias, surgiram em vários países serviços de Fact-Checking (checagem de fatos) que, por meio do cruzamento de dados, analisam notícias e declarações feitas por fontes citadas nas matérias, informando o grau de veracidade dos dados. O Instituto Poynter, líder mundial em jornalismo, por exemplo, elaborou um código de princípios para sua Rede Internacional que vem sendo adotado por diversos veículos noticiosos.  No Brasil, as agências Pública, Aos Fatos e Lupa integram a rede internacional de checagem de fatos.

AC - Por que tanta gente compartilha conteúdo às cegas?

Podemos dizer que as fake news existem desde a Roma Antiga. O que muda radicalmente, nos tempos em que vivemos, são a escala e o acesso. Antes, o acesso à informação se restringia a caminhos mais previsíveis e menos anárquicos. Hoje em dia, no entanto, a propagação das notícias é em escala mundial e em tempo muito acelerado. Isso, sim, turbinado pelas redes sociais e pela capacidade impressionante de propagação, reprodução e compartilhamento.

AC - É pior, então?

Hoje o estrago é muito maior, pois muitas vezes as pessoas sabem que se trata de fake news e compartilham por interesses pessoais, desejos dos mais diversos, como prejudicar alguém, propagar o ódio etc.

AC - A criação de identidades digitais, onde escolhemos que “lado” nosso mostrar é bem comum.  Qual a relação entre a vaidade das redes sociais e os haters?

Tem uma declaração do Papa Francisco que gosto muito: “A dificuldade em desvendar e erradicar as fake news se deve também ao fato de as pessoas interagirem muitas vezes dentro de ambientes digitais homogêneos e impermeáveis a perspectivas e opiniões divergentes”. Quando alguém diz “não brigo mais no Facebook porque fiz uma limpeza dos meus amigos e agora só falo com quem pensa igual a mim”, é muito ruim, porque todo mundo não é igual.

AC - Você trata disso no seu novo livro e propõe que as pessoas saiam da bolha. Quem já está fora dela, porém, encontra na internet um ambiente bem hostil ao diálogo. Qual o limite entre exercitar a tolerância e tolerar algo que nos fere como pessoas?

O limite é ético e os códigos de ética podem nos ajudar.

AC - Por que essa tendência de só acreditar no que “queremos”?

Um dos fatores que potencializaram a propagação de fake news são as chamadas bolhas das redes sociais, geradas pelos algoritmos dos desenvolvedores dessas mídias, que fazem com que o usuário receba em seus perfis cada vez mais informações relacionadas aos seus gostos e interesses. Quanto mais eu gosto de um tema, mais ele aparece na minha rede, seja a pesquisa de um produto ou um assunto de viagem. Essas bolhas fazem com que as pessoas se isolem cada vez mais em grupos  nos quais não se toleram opiniões divergentes. Isso favorece a crescente polarização de ideias que se vê nas redes sociais.

AC - A sensação é de que opinião conta mais que os fatos.

O jornalismo, nos últimos 15 anos, se distanciou de sua essência ao priorizar o chamado jornalismo opinativo, o “jornalismo de aspas”. Mas quem disse que o que a pessoa falou é verdade? O excesso de opinião empobreceu o jornalismo. Cada pessoa pode ter suas próprias opiniões, mas não seus próprios fatos. Opiniões não são fatos.

AC - Como funciona o método do silêncio como forma de resistência que você propõe no livro?

No livro digo que para combater a vertiginosa aceleração tecnológica que torna ainda mais complexo e imprevisível tudo o que está ao nosso redor, é preciso estabelecer uma nova relação com o ruído. A gente precisa de, pelo menos, três a cinco minutos cognitivamente para o cérebro assimilar uma nova informação. E como estamos sempre envolvidos em ruídos – as redes sociais, as notificações do celular, o Waze, a voz do GPS, as informações que estamos ouvindo, uma playlist do Spotify –, não temos o tempo que o cérebro precisa para checar uma informação. Então, só o silêncio mesmo. É melhor ficar em silêncio do que compartilhar sem saber do que se trata.

AC- Isso não pode ser confundido com omissão?

Não acredito. O silêncio ajuda sempre.

AC- A ideia é diminuir a “virtualidade” de nossas vidas? Sair da internet?

Não precisamos sair da internet para diminuir a “virtualidade” de nossas vidas, só administrar melhor o uso que fazemos dessas plataformas de forma ética e com bom senso.

Associação tem 'manual' de checagem

Principais pontos do Código internacional de príncípios do Fact-Checking:

 Apartidarismo: Checamos declarações usando os mesmos parâmetros para todas as checagens. Não concentramos nossas checagens em um só lado do espectro político-ideológico. Seguimos o mesmo método em todas as checagens.

Fontes: Queremos que nossos leitores tenham autonomia para comprovar o que apuramos. Fornecemos acesso às nossas fontes detalhadamente, para que os nossos leitores possam replicar nosso trabalho.

 Financiamento: Somos transparentes em relação à origem do nosso dinheiro. Se aceitamos financiamento de outras organizações, asseguramos que nossos financiadores não tenham influência sobre as conclusões de nossas reportagens. Detalhamos o histórico profissional de todos os principais membros da organização.

Método: Explicamos nossa metodologia: como selecionamos, pesquisamos, escrevemos, publicamos e corrigimos nossas checagens. Encorajamos nossos leitores a nos mandar temas para checagem.

 Correções: Temos uma política pública de correções e a seguimos escrupulosamente. Corrigimos com clareza e transparência. Divulgamos o resultado final, de modo que nossos leitores tenham acesso à versão corrigida.

Lançamento

 “Como sair das bolhas” será lançado pela Educ, editora da PUC-SP,  em conjunto com a editora Armazém da Cultura,  no dia 18 de abril, na Livraria Cultura, em São Paulo.


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