Segunda-feira, 24 de Fevereiro de 2020
ANÁLISE

Para especialistas, linchamento público é vingança mascarada de Justiça

Especialistas da área social consultados analisam que o caso do esquartejamento ocorrido no município de Fonte Boa é o retrato de uma população que desacredita na Justiça e na eficiência do Estado



WhatsApp_Image_2020-01-17_at_09.25.11_6D23A6CB-60E5-4AA2-A85E-4823E197373D.jpeg População em frente a delegacia na noite da prisão do suspeito Foto: Reprodução
20/01/2020 às 16:25

O vídeo em que Ronald Gomes Borges, 28 anos, preso por estuprar e matar uma menina de 10 anos, é esquartejado e queimado em frente à 55ª Delegacia Interativa de Polícia (DIP) de Fonte Boa, município distante 678 quilômetros em linha reta de Manaus, viralizou na última sexta-feira (17) nas redes sociais e também pelos aplicativos de mensagens instantâneas. A maioria dos comentários sobre o vídeo aprovava a atitude da população fonte-boense.

É evidente a revolta na população nas imagens registradas em vídeo, assim como a satisfação pelo esquartejamento do assassino que teve os pedaços do próprio corpo colocados em pilha para serem queimados na rua. Para o antropólogo Ademir Ramos, professor do Departamento de Ciência Sociais da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), o cenário ocorrido naquele município é a configuração de vingança versus justiça.




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“A população foi suflada por alguém ou algum grupo. Porque a manifestação (social) não é espontânea. A população deve ter sido mobilizada para esse ato de ‘vingança’, de fazer ‘justiça’ com as próprias mãos. Isso coloca em xeque o próprio Estado e a Justiça. Isso denúncia o que? O povo não acredita mais no Estado nem na Justiça. Esse ato de violar a delegacia mostra a decadência do Estado moderno. O povo quer tomar a rédea da situação ‘fazendo justiça’ que na verdade é vingança”, pontuou Ademir Ramos.

Para o antropólogo, o ato de a população retirarem o preso da cela e submetê-lo a tortura, esquartejamento e, posteriormente, queimação dos restos, mostra que a população está desmoralizando o Estado. “Três lições podem ser aprendidas. A primeira é o descrédito com a justiça. A segunda é que o Estado é inoperante. E a terceira é que estamos sentados em uma panela de pressão. O que aconteceu em Fonte Boa pode acontecer, agora, a qualquer momento”, ponderou o professor da Ufam.

Na análise do sociólogo Gilson Gil, professor da Ufam, o ocorrido em Fonte Boa foi um recado aos poderes executivo e judiciário para verem o que acontece no interior e tomarem medidas. “Creio que a população sente falta de uma justiça mais ágil e efetiva. A violência cresce e o povo tem uma sensação de impunidade vigente. Diante de crimes tão impactantes, penso que o povo em geral não sente que a justiça será feita e acaba querendo exercer um ato de justiça substantiva com as próprias mãos.


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Dinâmica no interior

Em entrevista por telefone, o delegado Mariolino Brito, diretor do Departamento de Polícia do Interior (DPI) informou que foram enviados cerca de 40 polícias para Fonte Boa a fim de investigar os envolvidos no esquartejamento de Ronald. Segundo o delegado, em casos atípicos como este ocorrido no município, delegados de outros municípios são deslocados para apurar a situação.

“Em municípios pequenos com pouco mais de 12 mil habitantes como é o caso de Fonte Boa, em geral, ocorrem crimes como tráfico de drogas e crimes desse tipo. A polícia é eficiente e combate essas ações ilícitas. No caso da menina de 10 anos, a segurança pública foi eficaz, pois houve a prisão do suspeito. Agora, ir até a delegacia para retirar o cara da cela e matá-lo na rua, é até uma questão de educação civil”, pontuou o delegado.


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