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Para quê servem os partidos políticos?

Para especialistas ouvidos por A CRÍTICA, as siglas podem ser instrumentos de transformação da sociedade, mas têm que se reciclar 10/08/2013 às 15:52
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Manifestações que inundaram as ruas das cidades brasileiras em junho demonstraram hostilidade à participação de representantes de partidos políticos
LÚCIO PINHEIRO ---

Para que serve um partido político na atualidade? Para muitos da multidão que foi às ruas, em junho deste ano, a resposta dada a esse questionamento era a de que “o povo unido não precisa de partido”.

Ouvidos por A CRÍTICA, cientistas políticos, membros de movimentos sociais, políticos de diferentes matizes e pessoas sem preferência partidária, até dão razão à descrença nas legendas, mas garantem que a palavra de ordem não é “fim”, mas sim “mudança”.

Um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores (PT), o professor de História, Aloísio Nogueira, 71, defende que o partido expressa o quanto a sociedade avançou no fazer político.

“O partido surge para representar diferentes setores. Porque a nossa sociedade é uma sociedade de classes. Assim, o partido é um instrumento de transformação da própria sociedade. O problema é que, da década de 1990 pra cá, uma série de concepções foram mudadas”, disse Nogueira.

Para o professor, partindo do pressuposto da representação de diferentes setores sociais, os partidos deveriam estar abertos e atentos ao movimento da sociedade. E não fechados e girando em torno de pequenos grupos. “Falo dos partidos tradicionais. Ao invés de se tornarem abertos para a sociedade, se fecham em torno de seus caciques. Os partidos perderam referências. Voltados para a ação do toma lá da cá, falta ética e propostas”, critica Nogueira.

Depois de fundar o PT no Amazonas, em 1979, Nogueira saiu da legenda em 2002. Mas tarde, ajudou a fundar o Partido e Socialismo e Liberdade (PSOL). “O PT deixou de ser democrático. Adotou a maneira de fazer política de alianças, para atender uma minoria”, afirma o professor, que também não está mais filiado do Psol.

O cientista político Gilson Gil diz que o ocidente vive uma crise de representatividade. Mas os partidos ainda devem servir para aglutinar os interesses de setores da sociedade e transformá-los em projetos concretos. “Eliminar os partidos pode ser o começo de um ciclo maior, no qual acabar com o Congresso e com os tribunais poderá ser o próximo passo. Acabar com a impunidade de mensaleiros e corruptos é uma coisa. Outra é acabar com os partidos em geral, em nome de ficções totalitárias, como o ‘povo’ ou ‘os famintos’ ou ‘os descamisados’, por exemplo”, comenta Gilson.

O cientista também defende que as legendas precisam renovar alianças com a sociedade. Resta saber como essa relação pode se dá. “Creio que a questão atual é como fazer os partidos e demais instituições políticas (tribunais, legislativo, ministérios, etc) terem maior relação com as ‘ruas’, sem que isso vire demagogia ou plebiscitarismo, de forma inconsequente e autofágica para a sociedade”, pontua Gilson Gil.

Três perguntas para Gilson Gil, cientista político e professor da Ufam

Para que serve os partidos políticos?

Servem como instituições que deveriam aglutinar os interesses de setores da sociedade e transformá-los em projetos concretos, através de negociações com outros partidos.

Como interpretar esse grito das ruas de que o “povo unido não precisa de partidos”?

Creio que o ‘povo’ é uma ficção. Temos de tudo no povo: empresários, operários, estudantes, etc. Os partidos devem ser os meios para esses setores transmitirem suas demandas e as tornarem realidade.

Estamos jogando os partidos e a política fora?

As mudanças na sociedade contemporânea fizeram com que esse modelo clássico da relação partidos versus sociedade ficasse questionada. Os partidos, falando do Brasil, mostraram pouca capacidade de adaptação e se oligarquizaram ao extremo, anulando as relações que possuíam com a sociedade civil.

Cronologia e histórico das siglas

1945 - Na eleição deste ano, os candidatos a presidente do Brasil pertenciam a partidos diferentes, mas, ambos eram militares (Marechal Dutra PSD-PTB e Eduardo Gomes UDN).

1965 - O Ato Institucional nº 2 extingue os 13 partidos existentes e torna indireta a eleição para presidente.

1966 - São criados dois partidos: Aliança Renovadora Nacional (Arena) e o Movimento Democrático Brasileiro (MDB).

1978 - Última eleição disputada apenas por Arena e MDB.

1980 - Legendas começam a se proliferar. Existem hoje 30 partidos no País. E mais 31 buscando registro.

Comentário de Eron Bezerra, Secretário Estadual e dirigente do PCdoB no Amazonas

 “Evidentemente, boa parcela dos partidos não representa os interesses do partido. Porque ou seus programas são claramente contrários, ou dizem uma coisa e praticam outra. Obviamente, como a população não tem informações da prática rotineira de todas as legendas, ela acaba colocando todo mundo na vala comum. Compreendo isso perfeitamente. Isso é um processo normal e natural. Tudo que não for reciclado, desaparece. Não tenho nenhuma duvida. Faz parte da concepção marxista. Mas jamais podemos abrir mãos da organização partidária. Quero chamar atenção para uma vigarice que está em curso, dentro desse movimento que é legitimo, que são alguns defendendo candidatura avulsa. Isso é exatamente para fugir de um compromisso, para dizer depois que tem compromisso ainda com o povo. Para parte dos partidos, o que precisa ser feito é prestar atenção no programa e executá-lo. A pessoa tem que votar no partido com clareza. Hoje as pessoas votam em pessoas. Aqui está a falha. O sistema político em curso não lhes permite votar de outra maneira”.

Diretora do MCCE defende participação

A diretora do Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral (MCCE), Jovita Rosa, disse que respeita, mas não pode concordar com os gritos de repúdio aos partidos políticos.

“Sou favorável ao resgate da ideologia partidária. Resgate da participação política partidária. O mal só atua na ausência do bem. As pessoas de bem têm que vir para política e fazer esse enfrentamento”, afirma Jovita.

O MCCE é integrado por 51 entidades nacionais de diversos segmentos, formando uma rede com movimentos, organizações sociais, organizações religiosas e entidades da sociedade civil. Foi responsável pela mobilização da sociedade em favor da aprovação das duas únicas leis de iniciativa popular anticorrupção no Brasil: a “Lei da Compra de Votos” e “Lei da Ficha Limpa”.

Para Jovita, o primeiro passo que as legendas devem dar agora é admitir que precisam mudar e que estão em descrédito. “Tem que começar assumindo o descontrole geral da forma de fazer política que eles mesmos propuseram. Vemos partidos com bandeiras de combate à corrupção e, quando chegam ao poder, fazem as mesmas práticas, usando a máquina e abusando do poder econômico e político”, afirmou a diretor do MCCE.

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