Domingo, 22 de Setembro de 2019
OBRA PÚBLICA

Parada de ônibus cara da Ponta Negra é criticada por passageiros de 'zonas esquecidas'

Manaus tem 2.532 pontos de ônibus. E um é bem diferente da maioria: ainda não inaugurada, a parada do Complexo Turístico da Ponta Negra custou R$ 207 mil aos cofres públicos da cidade



bairros_107C185B-4D14-4CF8-8E05-DE5BA45DCB7B.JPG Pensionista de 69 anos, Etelvina Alves, moradora do bairro Jorge Teixeira, Zona Leste, afirma que, enquanto a prefeitura constrói uma parada de ônibus de mais de R$ 200 mil na Ponta Negra, o lugar onde ela apanha ônibus não tem sequer teto. Fotos: Junio Matos
18/08/2019 às 11:54

“Enquanto constroem uma parada de ônibus luxuosa na Ponta Negra, nós, os pobres, sofremos nos pontos de ônibus que nem ao menos têm um telhado, faça sol ou chuva”. O desabafo é da pensionista de 69 anos, Etelvina Alves, moradora do bairro Jorge Teixeira, Zona Leste da capital amazonense. Ela é uma das 550 mil pessoas que utilizam diariamente o transporte coletivo na cidade. Assim como Etelvina, outros passageiros relataram ‘esquecimento’ por parte do poder público após a construção de uma parada de ônibus de R$ 207 mil pela Prefeitura de Manaus no complexo turístico da Ponta Negra, na Zona Oeste.

Construída com porcelanato, aço inox escovado, madeira e pedra portuguesa, entre outros materiais mais sofisticados, a estação erguida no calçadão da praia mais popular da cidade está distante da realidade de outras paradas de ônibus de Manaus. Pontos de embarque e desembarque sem cobertura, sem bancos ou mesmo necessitando de reparos ou reconstrução são algumas das reclamações de quem se desloca todos os dias até os pontos de ônibus.

Segundo o industriário Gladson de Souza, cenas como essas já se tornaram comum à sua rotina. "É uma situação degradante. Pagamos tantos impostos, mas temos várias paradas de ônibus nessas condições. É uma falta de respeito", disse.

Esse é um problema recorrente nas zonas Leste e Norte de Manaus, segundo o administrativo Gênesis Lopes, que também passa por essa situação todos os dias. Para ele, deve haver um olhar mais direcionado aos bairros dessas duas regiões, por parte da prefeitura.

“Precisam investir nas paradas daqui. Não há necessidade de construir uma parada tão luxuosa em um bairro nobre. Quando faz sol é insuportável. Quando está chovendo não tem condições de ficar aqui, eu acabo gastando mais dinheiro porque utilizo transporte por aplicativo”, contou.

Boa parte dos abrigos para usuários do transporte coletivo da cidade encontram-se em precária situação de conservação

Para a vendedora Lucinéia Rodrigues, que reside em um bairro da zona Norte de Manaus, falta ao local uma estrutura básica. “Com o dinheiro utilizado na construção da parada de ônibus da Ponta Negra dava para construir ou reformar outras paradas”, disse.

Manutenção

Existem atualmente 2.532 pontos de ônibus em Manaus, entre paradas, plataformas centrais, pontos com placas e terminais de bairros e integração de acordo com o Instituto Municipal de Mobilidade Urbana (IMMU).

Questionado sobre as condições desses locais, o órgão informou que “realiza constantemente manutenção dos abrigos e sinalização dos pontos de paradas de ônibus, a partir de um cronograma que leva em conta solicitações feitas por usuários, via ofício protocolado no órgão ou quando a fiscalização do Instituto constata necessidade e que está fazendo o levantamento dos pontos de parada para elaborar novos projetos de reforma e construção de abrigos”, explicou o IMMU por meio de nota.

‘Não é trivial’

Ao defender o orçamento de alto custo da obra na Ponta Negra, o prefeito Artur Neto (PSDB) afirmou que ela é diferente das outras paradas de ônibus em Manaus. “Uma pessoa tem que ser muito maldosa – se for deficiente visual a gente tem que compreender – para comparar isso aqui com uma parada de ônibus é desrespeitoso”, disse. Segundo o prefeito, aquela “não é uma parada comum, trivial, que fica em cada esquina”. E concluiu: “É uma enorme falta do que fazer. Quem critica isso aqui é quem não usa isso aqui, ou quem está com raiva de estarmos asfaltando a cidade”.

Construída com porcelanato, aço inox escovado, madeira e pedra portuguesa estação foi erguida no calçadão da Ponta Negra. Foto: Euzivaldo Queiroz 

Autorizada no início de maio deste ano, a obra atualmente se encontra com atraso de onze dias do período estipulado para entrega à população.

Blog: Gilvandro Mota, pres. da  Com. de Serviços e Obras Públicas da CMM

“Na Ponta  Negra  não faria sentido  colocar uma parada dissonante do projeto arquitetônico que lá existe porque tiraria a característica. Quanto as paradas danificadas, acredito que o Brasil anda na contramão da racionalidade. O sistema de transporte está precarizado e isso pode melhorar com a criação de um fundo de desenvolvimento destinado à mobilidade urbana e financiamento público ou privado para equilibrar as finanças da cidade”.

Estrutura visa a população e os turistas

O vice-presidente do Implurb, Telamon Firmino Neto, explicou durante visita à obra da parada de ônibus no complexo da Ponta Negra, na quinta-feira, que a estrutura está sendo construída em uma área nobre da cidade e que os materiais utilizados são diferentes dos de um abrigo convencional, que em média custa R$ 44 mil.

Firmino Neto também lembrou que, desde 2012, já existem outras paradas de ônibus nos mesmos moldes dessa que está sendo construída no Complexo Ponta Negra, como forma de padronizar a estrutura do local.

“É importante frisar que a Ponta Negra tem um parque construído visando a população e os turistas. É um projeto padrão que já está em andamento desde 2012. Mais à frente temos duas paradas nesse modelo, porém, elas são menores e por isso não chamaram tanta atenção à época”, comentou.

Outra característica do abrigo, que é maior que as outras estruturas existentes na cidade, é que conta com soluções arquitetônicas para minimizar a sensação térmica e proporcionar mais conforto aos passageiros.

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