Quarta-feira, 26 de Junho de 2019
SISTEMA PRISIONAL

Parentes das vítimas do massacre reclamam do tratamento oferecido pelo Estado

Familiares denunciaram que o número de mortos pode ultrapassar o total divulgado pela Secretaria de Segurança Pública



784.jpg (Foto: Winnetou Almeida)
05/01/2017 às 05:00

“Eles estão escondendo muita coisa. Eu sei que há muito mais mortos, fora os que a polícia matou no meio do mato. Meu marido foi identificado, mas ainda não encontraram a cabeça dele”, denunciou a mulher de uma das vítimas do massacre no Complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compaj). Ela não quis se identificar por medo de represálias da facção rival.

Ontem pela manhã, no Instituto Médico Legal (IML), parentes de detentos que foram mortos no massacre denunciaram que o número de mortos pode ultrapassar o total divulgado pela Secretaria de Segurança Pública (SSP-AM). À tarde, o Comitê de Gerenciamento de Crise montado pela SSP-AM negou que haja inconsistências nos números divulgados.

Aflição sem fim

Muitas pessoas lotaram a frente do IML na esperança de terem os parentes identificados. A aflição amenizou para a dona de casa Dejane de Oliveira, 48, que na  última segunda-feira ainda tinha esperanças de que o filho estivesse vivo, conforme relatou para o Portal A Crítica.

Na manhã de ontem, ela foi ao local buscar os últimos documentos que faltavam para enterrar o filho, que ela preferiu não divulgar o nome. “Conseguiram identificá-lo, mas ainda existem muitos parentes aqui nesta agonia querendo dar ao menos um enterro digno. O governo está ajudando com o funeral, mas, sinceramente, depois de morto não adianta muita ajuda não. Tinham que ajudar na segurança deles quando eles estavam vivos”, lamentou.

‘Ele não merecia isso’

A dona de casa Janaína Silva, 32, ainda não pôde retirar o corpo do irmão, Willamys Silva Souza, 29, do instituto. O homem ainda não foi identificado pela perícia, mas Janaína Silva já tem certeza que ele está morto. “Eu o reconheci por uma das fotos, reconheci uma tatuagem na perna dele (um palhaço, um dos símbolos usados por facções nas cadeias). Nós não concordávamos com o que ele fazia, ninguém da família concordava”, disse a mulher.

Abalada, ela diz que apesar do irmão ter sido um criminoso, ele não merecia ter sido covardemente assassinado. “Nunca demos as costas para ele e estávamos pagando um advogado para ajudá-lo a sair de lá. Falávamos com ele sempre pelo telefone, mesmo da cadeia. Eles não mereciam aquilo”, comentou. 

Ela criticou, ainda, o sistema prisional e disse que o irmão estava bastante debilitado. “Ele tinha que se operar de uma hérnia, marcamos a cirurgia quatro vezes pra ele e o presídio não levou ele nenhuma das vezes. Temos tudo documentado”, reclamou. Ainda segundo informações dos parentes, 30 dos 38 corpos já  identificados foram decapitados.

Apenas 39 identificados

Até o fechamento desta edição, o Instituto Médico Legal havia  identificado 39 corpos dos presos mortos. No total, 60 detentos foram assassinados, sendo 56 do Compaj e outros quatro da Unidade Prisional do Puraquequara (UPP). Dos 38 corpos identificados, 34 são de detentos do Compaj e outros quatro da UPP.

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