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Parentes de presidiários se sacrificam para visitá-los

Longas caminhadas sob sol e chuva, o constrangimento da revista íntima e humilhações são parte da rotina de parentes de presos 22/07/2013 às 08:09
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No Instituto Penal Antônio Trindade (Ipat), esposas, mães e namoradas fazem fila para entregar alimentos aos presos e levam os filhos até a unidade prisional
Jéssica Vasconcelos ---

Esposas, mães, irmãos, filhos e avós. Todas as semanas, centenas de pessoas repetem a mesma “romaria” em direção aos portões dos presídios de Manaus, carregando pacotes de alimentos como refrigerantes, bolachas, pães e até pizzas, debaixo de sol ou de chuva.

Muitas delas madrugam e ainda enfrentam uma desconfortável viagem de ônibus, que precede uma longa caminhada até as unidades prisionais mais distantes, como o Instituto Penal Antônio Trindade (Ipat), tudo para passar algumas horas ou, no caso das visitas íntimas, alguns minutos com os maridos, namorados, pais, filhos e netos que estão presos.

A vida de quem tem um parente, marido ou amigo em uma penitenciária envolve uma série de sacrifícios. Para Elisangela Almeida, 34, que tem um filho preso há três meses no Centro de Detenção Provisório (CDP), localizado em um ramal no km 8 da BR-174, muitas vezes a sensação é de estar encarcerado, como a pessoa que cumpre pena.

Além do gasto com mantimentos e roupas, soma-se à despesa das famílias a refeição do dia de visita, que é o único momento que eles podem passar com os presos. Para a maioria das famílias, essas despesas pesam no orçamento, que já não podem contar com ajuda financeira dos maridos e filhos presos.

A ambulante Marisa Freitas* conta que chega a gastar R$ 50 todos os finais de semana de visita, levando para o marido mantimentos como arroz, macarrão e biscoitos. “Isso pesa no orçamento, mas é uma provação que preciso passar”, disse.

Rigidez

Tão difícil quanto se acostumar a viver com um familiar preso, contam essas mulheres, é se habituar à rigidez da segurança dos presídios e ao tratamento dispensado aos visitantes, que por vezes são tratados como se fossem eles os infratores. No CDP a quantidade de alimentos que pode ser entregue aos presos é ilimitada, mas há relatos de que parte dos alimentos entregues é “confiscada” pelos agentes penitenciários, que ficam com eles. “Já cheguei levar um bolo inteiro e só chegar a metade para meu filho, se eu levar três pacotes de bolacha apenas dois chegam para ele”, contou Elisângela, que tem um filho cumprindo pena no CDP.

Na cadeia pública Raimundo Vidal Pessoa, localizada na avenida 7 de Setembro, Centro, os alimentos também são regulados pelos agentes carcerários. No Ipat, alimentos como tapioca, trigo e goma, que podem ser fermentados e virar bebidas alcoólicas, são proibidos.

A entrada limitada de alimentos e o atendimento dispensado às famílias estavam entre os motivos da rebelião ocorrida no Ipat no dia 9 de julho, quando 176 detentos fugiram. Segundo parentes de presos, muitos agentes penitenciários agem com grosseria e desrespeito, o que acaba causando revolta. “Os agentes só falam com grosseria. Sabemos que eles estão lá porque erraram, mas nós não temos culpa disso”, disse uma das esposas dos presos.

*Nome fictício

Tudo por 30 minutos de ‘amor’

Em dias de visita íntima nos presídios, milhares de esposas e namoradas enfrentam uma verdadeira peregrinação para ter apenas 30 minutos de intimidade com os companheiros, que estão cumprindo pena.

No Centro de Detenção Provisória (CDP) há apenas cinco quartos para os encontros íntimos de esposas e namoradas com os presos, que precisam levar o próprio colchão. O “detalhe” é que a cadeia tem vaga para 568 detentos, o que torna os quartos bastante disputados. 

Segundo Marina Silva*, quando os 30 minutos se esgotam, os agentes passam nos quartos batendo na porta, para que o lugar seja dado a outro detento. “Não gosto de passar por isso, mas não posso abandonar meu companheiro”, justificou.

Na revista íntima, as mulheres são colocadas em uma sala com duas agentes. “É uma situação bem humilhante. Elas pedem para tirar a roupa, depois nós sentamos em um banco, que é um aparelho que detecta drogas”, explicou Marina.

Além das visitas íntimas, que ocorrem na quinta-feira, um dos momentos mais esperados é o almoço dos finais de semana, quando familiares podem conversar à vontade com os presos. “É um momento bom que passamos com eles que, apesar de terem errado, precisam de nós. Mas quando saio meu coração fica arrasado”, disse uma das visitantes de um detento do CDP.

Sobre a entrada de celulares e drogas nos presídios, familiares dizem acreditar que ela é facilitada por agentes, uma vez que as revistas são rigorosas.

Por meio da assessoria de imprensa, a Secretaria de Estado de Justiça (Sejus) negou todas as denúncias e informou que as irregularidades devem ser oficialmente denunciadas à ouvidoria da Sejus.

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