Terça-feira, 18 de Fevereiro de 2020
MEMÓRIA E AÇÃO

'Pensei que era o fim do mundo', diz haitiano ao relembrar 10 anos do terremoto

Jean Ronald, 32, perdeu a noiva na tragédia e veio para Manaus em busca de oportunidade. Aqui lavou pratos em restaurantes, foi vendedor, deu aula de idiomas e hoje, dono do seu próprio negócio, conseguiu trazer a família e não pensa em voltar para o país de origem



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13/01/2020 às 09:09

“Eu pensei que era o fim do mundo”. Foi esse o sentimento de um dos moradores do Haiti, quando em 12 de janeiro de 2010, sentiu o terremoto que deixou mais de um milhão de pessoas desabrigadas em seu  país. Dez anos depois, ele e outras centenas de haitianos que vivem em Manaus refizeram suas vidas e sentem gratidão pelo acolhimento que receberam quando chegaram ao Estado. 

O empresário e administrador Jean Ronald, 32, perdeu a noiva na tragédia e veio para o Brasil em busca de oportunidade. Aqui lavou pratos em restaurantes, foi vendedor, deu aula de idiomas e hoje, dono do seu próprio negócio, conseguiu trazer a família e não pensa em voltar para o seu país de origem. 

“Saí do Haiti sem destinação certa de vir para o Brasil. Estava pensando em pesquisar onde eu poderia me estabilizar melhor. Passei por vários locais,  inicialmente um mais próximo porque não tinha como continuar naquela situação. No terremoto perdi minha noiva, o que foi uma situação muito chata para mim. Íamos casar em fevereiro e ela morreu em janeiro. Então foi bem difícil e por isso não tinha como ficar. Por isso eu saí para tentar recomeçar a vida em outro lugar e tentar esquecer as coisas que aconteceram”, contou Jeam. 

No dia do terremoto ele estava dentro do carro e tinha acabado de chegar em casa. “Estava na rua e aí começou. Nem pensei que era um terremoto, pensei que era o fim do mundo porque eu só vi os prédios caindo por todos os lados. Minha noiva estava na faculdade no dia e simplesmente depois de umas duas horas eu ouvi a notícia que morreu todo mundo desse prédio, mas não achamos o corpo dela na época”, diz ele que, em meio às dificuldades, conseguiu estabilidade e trouxe a família para morar com ele no Brasil. 

Ele diz não ter pretensão de voltar para o Haiti, não por conta dos terremotos, mas porque teria que começar do zero novamente, já que o Haiti vive um momento complicado atualmente. “Já sabia que não iria ser fácil, mas arrisquei. Fui bem recebido, acolhido e me apaixonei pela cidade. Cheguei sozinho e depois de dois anos trouxe o resto da minha família. Minha mãe, minhas irmãs, meus irmãos. Não temos pretensão de voltar. Como imigrante a gente sempre sente saudade do lugar que viemos. Mas agora estamos buscando mais estabilidade, porque eu já estou na sociedade. Tenho alguns projetos. Porque para sair de novo e ir morar lá é mais difícil, é como se fôssemos começar tudo do zero novamente. A ideia é voltar para visitar, mas já me sinto manauara. Minha base já esta aqui”, afirmou o jovem empresário.

Assim como ele, o amigo Katalog Murat, 31, lutou muito para conseguir montar o próprio negócio. Hoje, dono de um salão de beleza na avenida Constantino Nery, diz que vive bem e também não pensa em voltar ao Haiti.

“Eu sai de lá em 2013, passei por outros lugares mas tinha uma irmã aqui que comprou uma passagem para que eu viesse a Manaus. Isso ajudou, mas era complicado conseguir emprego e comecei vendendo picolé. Passei um ano fazendo isso e depois mudei de ramo. Já pensavam em abrir um salão, mas não tinha dinheiro. Com o tempo fui vender bombom em frente a um bar no Vieiralves e o movimento era bom e deu para juntar uma grana”, relatou. 

O salão aberto há pouco menos de dois meses é administrado por ele, que fez um curso na capital para se especializar no corte de cabelo dos brasileiros. Com isso e também com a venda de bombons ele vive tranquilamente com a mulher e a filha de dois anos. “As pessoas mais importantes estão hoje aqui comigo. Minha família esta aqui. Minha esposa e minha filha que nasceu aqui. Vim primeiro e depois as busquei. Hoje está tudo ótimo e não temos pretensão de sair daqui”, fala Murat, que está concluíndo o curso de modelo, onde pretende se firmar na profissão.

Destruição, feridos e mortos

Um terremoto de magnitude 7,0  na escala Richter (responsável por definir a intensidade dos tremores) atingiu o país em 12 de janeiro de 2010, provocando grande devastação. O abalo sísmico deixou uma série de feridos, desabrigados e mortos, principalmente na capital Porto Príncipe. 

Na época, o Serviço Geológico dos Estados Unidos explicou que o terremoto ocorreu a cerca de 10 quilômetros de profundidade, a 22 quilômetros de Porto Príncipe. Depois dele outros dois abalos, com menor magnitude (5,9 e 5,5), ocorreram deixando mais destruição no país.

Especialistas estimaram que metade das construções foram destruídas deixando pelo menos 250 mil pessoas feridas, e mais de um milhão e meio de desabrigados. O palácio presidencial foi um dos edifícios que desabou no incidente natural e o número de mortos ultrapassou 200 mil pessoas. 

Muitos sobreviventes deixaram o Haiti e migraram para outros lugares do mundo. O Brasil foi um desses países e, segundo informações do Ministério da Justiça, entre 2010 e novembro do ano passado mais de 224 mil haitianos passaram pelos postos migratórios no País. A maioria nos Estados de São Paulo, Roraima, Acre e Amazonas.

No Estado, mais de 20 mil haitianos foram atendidos nos postos de imigração localizados em Tabatinga e Manaus, segundo o órgão federal. O mesmo não soube estimar o número de haitianos que vivem hoje no Amazonas e nem quantos aguardam pedido de refúgio. Segundo o Ministério da Justiça, esses dados mais concretos são de controle da Polícia Federal, mas a autarquia não havia dado retorno até o fechamento desta edição.

O dia em que ele ‘nasceu de novo’

O engenheiro mecânico Abdias Dolce, 32, lembra dos detalhes do dia em que nasceu de novo. Ele, que chegou ao Amazonas em 2011, aprendeu o português, nos três meses em que ficou morando em Tabatinga (a 1.105 quilômetros de Manaus) quando veio para o Brasil com a intenção de concluir os estudos. 

No dia do terremoto ele estava na faculdade e só não ficou embaixo dos escombros porque desceu do prédio para lavar a mão no banheiro que ficava no andar de baixo. “Eu senti o prédio tremer e corri para a rua. A princípio achei que era apenas o prédio, pois tinha sido mal construído e dias antes pois tinha acontecido algo igual com dois prédios na cidade. Depois que fui perceber que tinha sido um terremoto”, contou 

O idioma o ajudou a conseguir emprego e amparar outros imigrantes que chegavam ao Estado em busca de novas oportunidades. “Quando cheguei não havia tantos haitianos ainda. Começaram a chegar no final de 2012. Fui acolhido pela paróquia São Geraldo e passei duas semanas na casa de um frei no bairro Coroado. Depois consegui emprego e fui morar na empresa que me contratou. Depois comecei a fazer cursinhos, mas continuei trabalhando com o padre porque quando cheguei em Tabatinga fiz um curso de português no Ifam e eu era o único no grupo, de 20 pessoas, que falava um pouco de português. Comecei a ajudar, a interpretar o que eles diziam para os padres”.  

Hoje ele vive em Manaus com a mulher, que veio para o Estado três anos depois e com a filha de quatro anos. Formado e pós-graduado, ele é dono do próprio negocio e integrante de uma associação de haitianos na capital. Ele, que não tem a pretensão de sair de Manaus, conta que muitos imigrantes ainda tem saído do Haiti, mas a maioria já não se instala aqui e usa o Amazonas apenas como passagem. “Muitas coisas são difíceis aqui. Até para estudar é mais burocrático. Eu até escrevi um artigo para tentar o mestrado na Ufam sobre isso. Que a ONU tem acordo com universidades federais onde eles dão ajuda de custo para dar bolsa aos imigrantes refugiados. Um dos Estados que não faz parte do acordo é o  Amazonas”, afirmou.



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Repórter de Cidades
Formada em 2010 pela Uninorte, é pós-graduada em Assessoria de Imprensa e Mídias Digitais pela Faculdade Boas Novas. Repórter de Cidades em A Crítica desde 2018.

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