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Manaus
HANSENÍASE

Redução dos casos de hanseníase em Manaus é algo fora da realidade e oculta endemia

Pesquisa com busca ativa mostrou que a prevalência da doença na capital é maior que a média oficial. Para cada 10 mil habitantes, 11 casos foram encontrados 06/05/2018 às 08:20
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Foto: Arquivo/AC
Lívia Anselmo Manaus (AM)

Os números que indicam uma redução nos de casos de hanseníase em Manaus estão fora da realidade e disfarçam uma “endemia oculta”. Essa é a conclusão da tese de doutorado da pesquisadora Valderiza Lourenço Pedrosa, orientada pela professora doutora e dermatologista Carolina Talhari, que foi apresentada há duas semanas na Universidade do Estado do Amazonas (UEA).

A hanseníase é uma doença infecciosa crônica grave, com manifestações dermatológicas e neurológicas. Curável, a doença é provocada pela bactéria Mycobacterium leprae. O termo “endemia oculta” foi inicialmente usado por pesquisadores do Pará e foi nome de documentário.

Entre outubro de 2013 e dezembro de 2016, as pesquisadoras, e uma equipe de médicos dermatologistas, enfermeiros e técnicos da Fundação Alfredo da Matta (Fuam), realizaram o estudo “Perfil clínico epidemiológico da hanseníase entre escolares menores de 15 anos em Manaus”.

Um total de 34.547 mil crianças foram examinadas em 247 escolas públicas da capital amazonense. Foram 40 casos de hanseníase identificados durante a pesquisa. Com os resultados, a equipe conseguiu concluir que existe uma prevalência de 11,68 casos de hanseníase para cada 10 mil habitantes. Número muito diferente dos dados oficiais divulgados pelo Ministério da Saúde (MS), que apontavam uma prevalência de 0,68 para cada 10 mil pessoas no ano em que a pesquisa começou a ser realizada.

“A nossa comparação é feita com os números de quando começamos a pesquisa porque a hanseníase é uma doença de notificação compulsória e isso significa que se comparássemos com períodos posteriores estaríamos calculando casos que nós mesmos identificamos”, explica a dermatologista Carolina Talhari.

Com a metodologia de busca ativa aos pacientes, o trabalho conseguiu identificar as falhas que permitem que exista uma endemia oculta da doença e apontou que com o número de casos encontrados a prevalência é 17 vezes maior que o dado oficial de quando os estudos começaram, em 2013. “Basicamente a doença permanece porque existem casos que não estão sendo encontrados. E isso, por sua vez, indica uma falha”, afirma Carolina Talhari.

Identificar casos de hanseníase entre crianças é importante, do ponto de vista epidemiológico, para interromper um ciclo de contágio da doença e com o diagnóstico precoce iniciar o tratamento adequado que leva à cura. Nos casos encontrados, 50% mostraram que a infecção pode ter sido intradomiciliar o que, segundo a especialista, expõe a falha inicial do sistema de saúde como um todo.

“Quando temos um diagnóstico, seguimos um protocolo de buscar todos os contatos daquela pessoa e acompanhar. E quando chegamos nessas crianças vimos que a falha foi justamente aí. Não houve um acompanhamento correto para impedir”.

Em um das famílias encontradas, por exemplo, quatro irmãos já tinham contraído a doença. Os números encontrados são maiores até que os resultados de uma pesquisa semelhante realizada entre 1979 e 1982, coordenada pelo dermatologista Sinésio Talhari, que é pai de Carlina. Ele trabalhou com o mesmo público, examinando 100 mil crianças  nas escolas de Manaus. Na época, a equipe encontrou uma prevalência de 10,6 casos a cada 10 mil crianças.

Outro fator que colabora para que haja a subnotificação dos casos de hanseníase entre as crianças é o fato de que a doença é de difícil diagnóstico. “A doença é de difícil diagnóstico. As pessoas, na maioria das vezes, falam somente na lesão da pele. Mas a hanseníase é uma doença que atinge os nervos”, ressalta Carolina.

Novas estratégias

Sobre os números encontrados, o diretor-presidente da Fuam, dermatologista Helder Cavalcante, afirma que a busca ativa no público de menores de 15 anos esbarra em desafios como a autorização dos pais e responsáveis. “Legalmente, dependemos da autorização dos pais para examinar o aluno. A escola envia um formulário no qual os pais relatam se notaram manchas na criança e autorizam a avaliação pela equipe médica. Caso eles não devolvam, a equipe não pode examinar o paciente, sendo aquela criança um risco de caso subnotificado”, explica.

Helder Cavalcante destaca ainda que a busca por casos suspeitos de hanseníase deve estar incluída nas consultas de rotina de saúde da família, realizadas na atenção básica. Para isso, segundo ele, a Fuam tem investido na capacitação de profissionais de baixa, média e alta complexidade, em todos os municípios, que podem examinar e identificar suspeitas da doença, encaminhando os casos ao especialista para exames complementares.

Para o diretor-presidente da Fuam, a pesquisa realizada surge como importante aliada  na identificação da realidade da doença e para traçar novas estratégias de combate. “Se crianças continuam adoecendo, significa que temos adultos doentes transmitindo a hanseníase. Por isso, fortalecemos as ações de monitoramento da doença, que hoje alcançam 100% dos municípios do Amazonas”, diz ele.

De acordo com Helder Cavalcante,  durante décadas o Amazonas apresentou os piores índices da doença e hoje passou a ser o 16º estado do País em casos da doença. A Fuam, segundo ele, executa o trabalho de busca ativa de novos casos da doença por meio de mutirões dermatológicos e do monitoramento de casos na capital e em todos os 61 municípios do interior do Amazonas. Além disso, coordena desde 2013 uma campanha anual de combate à hanseníase em escolas públicas da capital e do interior do Estado. A partir do diagnóstico, o tratamento é iniciado de imediato, reduzindo o risco de transmissão da doença.

Crianças tratadas após diagnóstico

Recentemente, o estudo foi publicado em uma das mais importantes revistas científicas do mundo, a Public Library of Science (PLOS). Toda a pesquisa foi desenvolvida com o apoio da Fundação para o Controle da Hanseníase no Amazonas DAHW - Associação Alemã de Assistência aos Hansenianos ( Fund Hans/DAHW) além da própria Fuam.

Todas as crianças identificadas foram tratadas. Nos 206 possíveis contatos, foram localizados sete novos casos que não estão incluídos na média, mas indicam a importância da localização para o controle efetivo da doença. Além dos casos de hanseníase, foram localizadas outras lesões na pele que também receberam tratamento na Fuam.

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