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Pesquisa aponta que acidentes de trânsito representam a segunda causa de morte de crianças

Em Manaus, é fácil encontrar crianças que fazem percursos sem a companhia de adultos. Pais e motoristas agressivos são chamados à responsabilidade por sociólogo 19/10/2014 às 09:57
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Os estudantes Felipe Gabriel e João Victor afirmam prestar bastante atenção ao atravessar uma via pública, mas também reclamam da pressa dos motoristas
Ana Celia Ossame ---

Os efeitos dramáticos produzidos pela abertura de túneis, construção de viadutos e alargamento de ruas para dar velocidade aos carros, que vêm pautando as políticas do trânsito no Século 20, aceleraram de forma incontrolável o trânsito e aumentaram a mortalidade nas ruas. Do ponto de vista das crianças, segundo dados do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e do Mapa da Violência que registra os índices de acidentes com carros e motocicletas, esse cenário é mais trágico, porque os acidentes são a segunda principal causa de mortalidade dos pequenos em todo o mundo, principalmente daquelas que andam desacompanhadas.

Levantamento divulgado no Mapa da Violência no trânsito, elaborado pelo Centro Brasileiro de Estudos Latino-Americanos (Cebela), só no ano de 2010, aconteceram 1,24 milhão de mortes por acidente de trânsito em 182 países do mundo. Entre 20 e 50 milhões sobrevivem com traumatismos e feridas. Os acidentes de trânsito representam a terceira causa de mortes na faixa de 30-44 anos, a segunda na faixa de 5-14 e a primeira 1ª na faixa de 15-29 anos de idade.

Em Manaus, é fácil encontrar crianças que fazem percursos sem a companhia de adultos. Athirson Souza Ribeiro, 12, Mayckson de Souza Oliveira, 14, estudantes da Escola Municipal Reinaldo Thompson, no Coroado, Zona Leste e os irmãios Felipe Gabriel de Abreu, 12, e João Victor de Abreu, 14, na Cidade Nova, Zona Norte, afirmam tomar cuidado por conta do trânsito, que sabem ser violento. Os quatro vão para a escola sozinhos e revelam temer a velocidade. No trajeto, dizem enfrentar motoristas impacientes, que buzinam, negam passagem e soltam palavrões contra os pedestres quando são obrigados a parar e dar passagem. “Muitos não respeitam muito não, a gente demora para atravessar”, contou Maykson, revelando entender que já há mudança de mentalidade, mas para ele, como aconselham os pais, carros e motos são perigo constante. As motocicletas, inclusive, cujos condutores usam as calçadas e meio-fios, também são ameaças.

ATROPELAMENTO

De acordo com os dados do Instituto Municipal de Engenharia e Fiscalização do Trânsito (Manaustrans), houve uma redução de 11,11% no número de acidentes fatais se compararmos os dados já disponíveis do ano passado até 15 de outubro deste ano. Em 2013, foram registrados 73 atropelamentos fatais e em 2014, até o dia 15 deste mês, há registros de 68 vítimas fatais de atropelamentos. Outro levantamento, feito pelo Instituto Avante Brasil, comparando os dez países mais violentos, teve por base o relatório “Global Status Report on Road Safety 2013”, da Organização das Nações Unidas, que mostra o número de mortes de 183 países. Desse total, o Brasil foi o 4º País do mundo com maior número de mortes no trânsito, ficando atrás somente da China, Índia e Nigéria. Especialistas apontaram a conexão desse índice com o Índice de Desenvolvimento Humano(IDH), que tem por base a educação, a longevidade e a renda per capita.

Dentre os 10 países mais violentos do planeta não aparece nenhum do grupo do capitalismo evoluído e distributivo, como Dinamarca, Suécia, Suíça, Coreia do Sul, Japão, Cingapura, Áustria etc. A comparação de 10 países do grupo dos que contam com mais elevado IDH (47, no total), com exceção dos Estados Unidos, que é responsável pela maior frota de veículos do grupo e do mundo. Apresenta, de qualquer modo, o menor número de mortes por 100 mil pessoas (11,4, contra 22 do Brasil).

Sociólogo critica agressividade

Violência é resultado de combinação de fatores O sociólogo Luiz Antônio Nascimento, professor da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) aponta situações problemáticas no trânsito de Manaus, como a falta de cuidados dos adultos com as crianças, a agressividade do motorista e a falta de agentes de trânsito nas ruas em todos os horários do dia.

“Eu reclamo muito dos adultos em Manaus que deixam as crianças se acidentar em escadas rolantes, atravessam a rua com criança exposta do lado de fora ou com ela solta, fato que pode levá-la a mudar e rumo e sofrer um acidente”, afirmou o sociólogo, indicando outro comportamento comum, o de pais que levam os filhos pequenos no banco da frente, sem qualquer proteção. “Para dar segurança às crianças, os pais precisam fazer a tarefa de casa”, explicou Luiz Antônio, lembrando que esse tipo de comportamento combinado com o egoísmo do motorista contribui não só para as mortes, mas para a quantidade de crianças e jovens que ficam sequelados e que a sociedade nem toma conhecimento. Para reduzir a incidência de atropelamentos e mortes de crianças, Luiz lembra que está na Constituição a obrigação dos pais de proteger os pequenos

Punição

Outro ponto seria endurecer com a punição pecuniária dos infratores e terceiro, educar as crianças a ter um comportamento mais defensivo. Ele cobra ainda a presença de agentes de trânsito, com ações mais ativas, em todos os horários do dia. “Eles não podem deixar de multar os pais que insistem em fazer fila dupla na frente das escolas”, lembrou o professor, dizendo que já presenciou infrações cometidas diante de um agente, que evitou tomar as medidas previstas na lei. Ele propõe ainda o que chama de pedagogia do esclarecimento, com campanhas nos meios de comunicação que possam vislumbrar o ponto de vista do motorista, do pedestre e também do agente de trânsito.

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