Quarta-feira, 21 de Agosto de 2019
ESPÉCIE

Pesquisador brasileiro é premiado nos EUA por projeto de manejo do pirarucu

O paulista João Campos chegou na capital do AM em 2008 e trabalha há anos com o tema de conservação. Ele foi um dos vencedores do Rolex Awards for Enterprise 2019



agora_pirarucu_tr_s_686CAAC8-31CE-4AC6-AE41-5E19B861461B.JPG João foi o único representante brasileiro entre os finalistas do prêmio internacional. Fotos: Divulgação
22/06/2019 às 08:25

Apaixonado pela biodiversidade da Amazônia, o pesquisador João Vitor Campos e Silva ganhou um dos prêmios do Rolex Awards for Enterprise 2019, com um projeto que busca salvar do risco de extinção o pirarucu, o maior peixe de escamas de água doce do Brasil e um dos maiores do mundo. O paulista de 36 anos chegou na capital do Amazonas em 2008 e trabalha há anos com o tema de conservação.

A ideia de produzir um projeto com a temática do pirarucu surgiu após o pesquisador trabalhar em áreas protegidas do governo do Estado e "se apaixonar" pela história que garante a conservação da biodiversidade. Segundo especialistas, o pirarucu é distribuído na Bacia Amazônica, na parte setentrional da América do Sul.

"Trabalho há 11 anos na Amazônia com conservação da biodiversidade. Inicialmente, comecei trabalhando com aves, depois disso fui trabalhar com áreas protegidas no governo do Estado, onde conheci o manejo do pirarucu e o trabalho das comunidades locais para salvar essa espécie de extinção. Foi amor à primeira vista, pois é uma história muito bonita que garante a conservação da biodiversidade e a melhoria da qualidade de vida das populações ribeirinhas, ao mesmo tempo", disse João.

Um júri composto de dez especialistas analisou cerca de mil projetos sobre conservação, sustentabilidade, saúde humana e tecnologia. Destes, cinco foram selecionados e receberam o prêmio no dia 12 de junho, em Washington, nos Estados Unidos. Como foi um dos vencedores do Rolex, o único pesquisador brasileiro entre os finalistas receberá um suporte financeiro pelos próximos três anos para aplicação do projeto.

"O prêmio garante o acesso a uma grande comunidade internacional que proporciona suporte aos trabalhos de pesquisa aplicada. Além disso, nosso projeto será apoiado financeiramente pelos próximos três anos", comentou o pesquisador.

Projeto de desenvolvimento

Segundo João, o projeto envolvendo o pirarucu trata-se de uma iniciativa de desenvolvimento local protagonizado pelas comunidades rurais da Amazônia, garantindo a conservação da biodiversidade e a melhoria da qualidade de vida local.

"Nosso projeto irá fortalecer o manejo do pirarucu nas áreas onde ele ocorre e iremos expandir esse modelo para dezenas de comunidades desassistidas, garantido a proteção da biodiversidade, acesso ao território, segurança alimentar, geração de renda, equidade de gênero (gerando renda para as mulheres), manutenção cultural e um amplo treinamento de jovens e adultos. Nosso objetivo é consolidar um grande modelo de desenvolvimento local e conservação da biodiversidade que possa inspirar a sociedade e o governo a aplicá-lo em outras bacias hidrográficas na Amazônia", destacou João.

Durante as abordagens realizadas para a produção do projeto, o pesquisador percebeu que o manejo de pirarucu é uma grande estratégia para impulsionar o desenvolvimento na Amazônia. João defende que a atividade seja mais utilizada para que moradores de comunidade sejam beneficiados.

"O manejo vem proporcionando uma substancial melhoria na qualidade de vida das comunidades rurais. Os lagos protegidos funcionam como uma poupança bancária que pode ser acessada anualmente. A renda oriunda do manejo beneficia os integrantes do manejo, mas também pode ser utilizada coletivamente em reformas de áreas comuns nas comunidades e até mesmo no tratamento de doenças graves nas grandes sociedades. Vimos também que pela primeira vez as mulheres estão recebendo renda da pesca, coisa que não acontece na pesca em geral, onde a mulheres desempenham uma função importante, mas a renda vai toda para os maridos", explicou, um dos vencedores do Rolex.

Ainda o pesquisador destacou que moradores de regiões amazônicas apreciam a possibilidade de manutenção cultural da atividade do pirarucu. "Toda essa gama de benefícios influencia o sentimento de autoestima da comunidade, que passa a ver na conservação um caminho para uma vida mais próspera. O pirarucu, portanto, é um peixe paradigmático que nos mostra que as comunidades locais indígenas e não indígenas desempenham um papel fundamental na manutenção das florestas e constituem uma das formas mais eficientes de proteção da Amazônia", comentou Campos. 

Risco de extinção

Falando sobre medidas que devem ser tomadas para evitar que o pirarucu seja extinto, o pesquisador destaca a importância de estimular novas formas de consumo. Segundo estudiosos, o pirarucu foi praticamente dizimado no século passado, com o aumento da pesca comercial.

"O manejo do pirarucu ainda tem um grande potencial de crescimento, inclusive para abastecer a demanda fora da região Amazônica. Portanto, precisamos estimular o consumo do pirarucu manejado na gastronomia, assegurando que esse pescado venha das regiões de manejo e não da pesca ilegal. Isso irá fortalecer essa atividade, contribuindo com o aumento no número de pessoas envolvidas na proteção dos ambientes aquáticos. Essa é uma das grandes belezas do manejo comunitário do pirarucu: o consumo do peixe manejado fortalece sua conservação", disse o pesquisador. 

Importância do pirarucu

Sendo um dos maiores peixes encontrados na Amazônia, o pesquisador defende que a espécie é essencial para o desenvolvimento cultural e econômico da região. "O pirarucu serve de alimento para as sociedades indígenas, muito antes da chegada dos europeus. Mas muito mais do que isso, o pirarucu pode ser uma eficiente estratégia de desenvolvimento local, para assegurar uma qualidade de vida melhor para as populações ribeirinhas. Não há como pensar a conservação da Amazônia sem incluir na narrativa o bem-estar das populações residentes e as relações que estabelecem com a biodiversidade. O manejo do pirarucu é a materialização dessa visão", completou João.

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