Quinta-feira, 20 de Junho de 2019
MEMBRO DE HONRA

Após 'prêmio' internacional, pesquisadora do Inpa fala sobre ameaça do corte de verbas

Vera da Silva é a 1ª das Américas a entrar na lista de membros honorários da maior organização especializada em mamíferos aquáticos. Contingenciamento, no entanto, põe em risco o andamento de estudos



Vera3_61EF0B16-2A48-4BC1-B7B0-2FEE67C82F44.jpg Foto: Divulgação
22/05/2019 às 21:31

A bióloga e pesquisadora sênior do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) Vera da Silva é a primeira mulher das Américas a integrar a lista de membros honorários da Society For Marine Mammalogy (Sociedade Internacional de Mammalogia Marinha). Ela foi eleita após votação entre os membros da entidade que é considerada a maior organização internacional especialista em mamíferos aquáticos.

Em nota de agradecimento divulgada aos novos membros, a Society For Marine Mammalogy afirmou que a votação levou em conta as características de cada pesquisador, como o pioneirismo em métodos de pesquisa, além do serviço prestado à comunidade científica e o aprimoramento das pesquisas para lidar com as questões críticas no que diz respeito à conservação dos mamíferos aquáticos.

Filha de amazonenses, Vera da Silva se graduou em biologia pela Universidade de Brasília (UNB), e fez mestrado em biologia aquática pelo Inpa, antes do doutorado em ecologia e reprodução de mamíferos, pela Universidade de Cambridge, no Reino Unido.

Entre as principais atividades desenvolvidas pela pesquisadora está a coordenação do Projeto Mamíferos Aquáticos da Amazônia. O programa realiza o resgate e a reintrodução de peixes-bois aos rios da Amazônia, além de estudos de mais de 25 anos com os botos vermelho e tucuxi, na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá. A bióloga, junto com diversos colaboradores, gerou o maior volume de conhecimento existente sobre os golfinhos da Amazônia.

Segundo ela, participar da lista de membros honorários de uma das sociedades ambientais mais prestigiadas do mundo foi uma grande surpresa. “Ter o seu trabalho e a sua atividade reconhecida, ainda mais internacionalmente, é muito recompensador. É sempre uma surpresa quando o seu trabalho é lembrado”, comentou.

“É uma honra ainda mais especial quando sabemos que a sociedade possui mais de 2 mil membros de 56 países e, desde que ela foi criada, em 1981, apenas 47 membros honorários foram escolhidos, sendo que desses, apenas duas mulheres, uma da Austrália e outra inglesa”, destacou a pesquisadora sênior.

A Society For Marine Mammalogy foi fundada em 1981 e reúne mais de 2.000 especialistas, que também atuam como decisores políticos e gestores. A organização tem como principal missão promover o avanço global da ciência de mamíferos marinhos e contribuir para a relevância e impacto na educação, conservação e gestão, além de atuar ativamente na construção de políticas públicas para questões ambientais.

Contingenciamento

Para Vera, os recentes cortes no orçamento das universidades e institutos federais atingem direta e indiretamente as suas atividades de pesquisa. “Os cortes acontecem há tempos de forma gradativa. No Brasil, infelizmente a ciência, a educação, tecnologia e, principalmente a conservação nunca tiveram muita força e apoio dos nossos governantes”, comentou.

“Grande parte do trabalho que realizo é apoiado por alunos que desenvolvem mestrado, doutorado, pesquisas, então se eles são afetados, o nosso trabalho é afetado da mesma forma. Como posso estudar golfinhos se eu não tiver material de laboratório, estrutura e condições para, por exemplo, pegar um barco e ir até o local onde esses mamíferos vivem para realizar os estudos? Toda a cadeia da pesquisa e a formação de recursos humanos nessa área biológica e científica é afetada de forma drástica”, concluiu.

No início do mês, o governo tinha editado uma portaria remanejando cerca de R$ 1,6 bilhão de gastos discricionários (não obrigatórios) de instituições federais de ensino superior para outras pastas. A decisão tinha elevado o bloqueio na pasta para R$ 7,43 bilhões.

Na tarde de hoje (22), o governo reduziu o contingenciamento e liberou R$ 1,588 bilhão para o Ministério da Educação. Apesar disso, a reincorporação do dinheiro ainda não significa que a verba pode retornar às universidades federais. A decisão de como gastar a verba caberá ao próprio Ministério da Educação, já que outras áreas, como a educação básica, também sofreram cortes no início do ano.

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