Domingo, 27 de Setembro de 2020
CIÊNCIA

Pesquisadores amazonenses debatem impactos da pandemia no cotidiano

Evento Políticas da Vida na Pandemia ocorreu nesta terça-feira (9) em forma de videoconferência



WhatsApp_Image_2020-06-09_at_16.42.11_716894B0-1F0F-483C-B0FC-00C55FE6EF75.jpeg Foto: Reprodução
09/06/2020 às 17:11

Assuntos como a vida, a solidariedade, a saúde e as ciências, o Sistema Único de Saúde (SUS), o meio ambiente e a democracia foram abordados por pesquisadores especialistas durante as mais de três horas de debate do evento Políticas da Vida na Pandemia, que ocorreu nesta terça-feira (9) em forma de videoconferência.

A organização foi da secretaria regional da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) no Amazonas e teve como mediadora Marilene Corrêa, que integra o conselho editorial do Jornal da Ciência.



Um dos participantes, o virologista e vice-diretor de pesquisa do Instituto Leônidas e Maria Deane da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz Amazônia), pesquisador Felipe Naveca tratou como um dos pontos importantes de debate a ausência dos dados públicos da Covid-19 por parte do Ministério da Saúde.

“Mas a resposta da sociedade mostra que as pessoas estão atentas e querem informação de qualidade. Temos feito pesquisas importantes, como o forte impacto da desigualdades social e mais a falta da eficácia da cloroquina. É preciso debater no campo científico e não ideológico”, disse ele, frisando que “há um sistema de ciência e tecnologia muito forte no Amazonas”.

Infectologista da Fundação de Medicina Tropical Heitor Vieira Dourado (FMT/HVD), o médico Marcus Barros disse que a  política de divulgação de dados atual do Governo Federal “preocupa pois não se pode mensurar o dano sem dados concretos; é o que se faz na Medicina clínica”.

Segundo ele, os poderes esquecem as ciências e se preocupam com outros dados. “Não acredito nas políticas públicas que possam vir desse governo”, falou, completando que o “elitismo da Ciência só atrapalha” e que “há municípios do Amazonas que contam com doutores, mas não têm um aparelho respirador”.

Durante a videoconferência Marcus Barros chamou o ministro da Educação, Abraham Weintraub, de nazista. 

No último dia 22 de abril, durante reunião ministerial, o representante do governo Bolsonaro chamou os membros do Supremo Tribunal Federal (STF) de “vagabundos” e que gostariam de “prendê-los".

“Fico assustado com os posicionamentos do ministro da Educação. Ele é um ministro nazista. A pandemia só trouxe um bem: mostrou como é a saúde da Amazônia”, comentou Barros.

Povos indígenas

“Enfrentamos realidades contraditórias na Amazônia e a morte de lideranças indígenas é a morte de uma memória”, destacou Glademir Sales Santos, gerente de Educação Indígena da Secretaria Municipal de Educação (Semed) e pesquisador do Laboratório Nova Cartografia Social (PNCSA), sobre os casos fatais entre essa comunidade específica.

Emoção

Para Felipe Naveca, a diminuição no número de mortos pela pandemia em Manaus foi em decorrência das medidas de isolamento tomadas anteriormente. Por outro lado, diz ele, “a diminuição do isolamento aumenta as responsabilidades de cada um de nós. Me preocupa a interiorização da doença nos últimos dias”.

Quase ao final da videoconferência, ocorreu um dos momentos mais emocionantes quando Naveca lembrou de seu pai falecido há cerca de um mês.

“Quais ensinamentos levaremos após esta pandemia? Perdi meu pai na pandemia e queria que melhorássemos como sociedade, melhorar a organização da saúde. Ficaram claras as nossas fragilidades, e imagina se não tivéssemos o SUS? Como ficaria a população mais afastada? Tiro o chapéu para o pessoal da linha de frente. Deixo recado final de esperança para melhorarmos cada qual em sua área, e que essa pandemia sirva de lição para todos nós”, relatou o virologista.

Frase

“As políticas científicas são políticas de vida, mas há, além da desigualdade no Pais, uma  distância entre a ciência e a sociedade”.

Marilene Corrêa, do conselho editorial do Jornal da Ciência

Box: Preocupação com encarcerados

Já o coordenador do Corpo de Pesquisa Ilhargás e pesquisador do Observatório da Violência de Gênero no Amazonas (OVGAM), Fábio Candotti, lembrou dos riscos que as pessoas encarceradas estão passando nesta pandemia. 

“O sistema atual tenta deslegitimar a voz dos presos e é extremamente racista. Está pandemia nos diz que somos vulneráveis. Será que a Suframa não poderia intermediar junto às empresas apoios para os trabalhadores? E junto à população: quantas pessoas estão sequeladas”, questiona o pesquisador.

Atlas ODS Amazonas

Danilo Egle, coordenador-técnico do projeto Atlas ODS Amazonas da Universidade Federal do Amazonas (Ufam)  salientou o “momento trágico do apagão de dados que sabemos que é uma prática política que já ocorreu em anos anteriores” e que o “IBGE precisa ser reforçado pois é base para nós. Conhecimento popular precisa ser respeitado e pesquisadores precisam ser mais humildes e ouvir as pessoas sobre qual seria a melhor informação”.

Blog: Tatiana Schor, secretária-executiva de CT&I da Sedect

“O SUS é um grande desafio, precisa ser fortalecido, e papel do Estado é extremamente importante. Precisamos sim da atuação efetiva do Estado, fortalecer SUS e Seduc . Muito se falou de respirador, mas não temos técnicos. Deve-se discutir o modelo Zona Franca e da comunicação científica. Precisamos fortalecer a educação de base científica. A desordem hoje é política e precisamos nos organizar enquanto sociedade civil. É preciso ouvir a sociedade e as suas demandas. A desesperança é uma política. Temos tido embates e debates sobre a produção científica. Nossa produção de ciência é interiorizada e só em Parintins temos 70 doutores. Gostaria de reintegrar minha preocupação com os dados e o próximo censo do IBGE. Não podemos tirar isso da cabeça”

Repórter de A Crítica

Mais de Acritica.com

Sobre Portal A Crítica

No Portal A Crítica, você encontra as últimas notícias do Amazonas, colunistas exclusivos, esportes, entretenimento, interior, economia, política, cultura e mais.