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Manaus
SECA E CHEIA

Pesquisadores estudam impacto de eventos climáticos na alimentação de ribeirinhos

Moradores de quatro municípios fazem parte da pesquisa. Debate aconteceu em workshop coordenado pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e tem parceria com outras instituições federais 27/10/2016 às 11:17
Show debate
Comerciantes, ribeirinhos, estudantes e servidores estão envolvidos (Foto: Márcio Silva)
Luana Carvalho Manaus (AM)

Os eventos climáticos extremos e as consequências na alimentação de quem mora no interior do Estado está sendo estudado por um grupo de pesquisadores de cinco instituições de ensino, cujos resultados preliminares apontam uma influência direta da seca e da cheia dos rios na alimentação das populações ribeirinhas .

A pesquisa sobre clima e saúde é muito mais que uma coleta de dados científicos. Os pesquisadores estão ouvindo e inserindo os moradores dos quatro municípios pesquisados (Ipixuna, Jutaí, Caapiranga e Maués) no trabalho. Durante a última segunda e terça-feira, três representantes de cada município participaram do Workshop Rede Cidadã, junto com os pesquisadores do projeto que leva o nome “Cidades amazônicas e eventos hidroclimáticos extremos: pesquisa para reduzir vulnerabilidade e estabelecer resiliência”.

“Uma das etapas da pesquisa foi fazer questionários domiciliares em quatro municípios do Amazonas. Escolhemos esses municípios conforme o modelo que fizemos de acessibilidade, desde os mais remotos e isolados, como Ipixuna, até os que têm mais fácil acesso, como Caapiranga e Maués”, explicou André Moraes, do Museu Paraense Emilio Goeldi.

A investigação da influência dos eventos extremos do clima (grandes secas e cheias) ainda não está fechada. As fases de campo terminaram este ano, mas preliminarmente a equipe constatou impactos sociais de diferentes formas. O principal deles, foi na questão da alimentação. “No sentido de que o rio enche muito rápido, como tem acontecido ultimamente, a água invade áreas de plantações e eles não tem tempo de colher. Ficam sem o alimento para comer e sem o produto que seria vendido”, observou Moraes.

Na seca, as consequências são outras, como a dificuldade do acesso à água por conta das longas distâncias. “Nas pesquisas de campo não conseguimos contar com muitos dados históricos pois as tecnologias são das décadas de 70 pra cá. Mas, baseado nos relatos das pessoas que trouxemos, é que, de uns anos pra cá, o sistema está desregulado. Se tinha uma previsão mínima das cheias e das secas, agora é imprevisível e esses recordes tem sido cada vez mais frequentes”, frisou.

A pesquisa é participativa e tira a população da condição de apenas investigados. “A experiência é submeter os resultados na interpretação deles, e está sendo riquíssima”. Participaram do workshop comerciantes, ribeirinhos, estudantes, servidores municipais na área de saúde e educação.

Aprendendo para poder compartilhar

Para a agente de saúde Marina Vaneres Silva, 44, que veio de Maués (distante 276 quilômetros de Manaus), a experiência está sendo importante para entender o ciclo das águas. Ela mora há 10 anos no município e conta que sente de perto as consequências da cheia e da estiagem.

“Os pesquisadores estão falando muitos temas e percebi que isso acontece dentro de casa. Na questão de alimentação, por exemplo, tem época em que percebo que comemos menos farinha, porque ficam mais escasso e o preço aumenta, em outra época comemos menos peixe, por causa da seca, além da escassez das frutas”, lembrou.

A agente contou, ainda, que escolheu participar da pesquisa para disseminar as informações à comunidade onde trabalha em Maués. “Isso está ligado diretamente com a saúde. Por exemplo, em época de cheia, quando as plantações são alagadas, temos espécies de frutas que ficam escassas. Aí vem a importância de comer frutas da época, para não faltar aquele nutriente”, disse.

Os trabalhos de campo aconteceram nos anos de 2015 e 2016 nos quatro municípios, com duração de quase um mês cada.

Parcerias

O projeto é coordenado pela Universidade Federal do Amazonas, Universidade Federal do Pará, Fundação Oswaldo Cruz, Museu Paraense Emilio Goeldi e Universidade de Lancaster (Inglaterra) e conta com financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (FAPEAM) e Recursos de Pesquisa do Governo Britânico (Newton Found / British Concil).

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