Domingo, 13 de Outubro de 2019
Manaus

Pessoas que venceram o preconceito da hanseníase têm relatos de superação

O Dia Mundial de luta contra a Hanseníase foi comemorado no último domingo de janeiro e com programações que  se estenderam até esta semana



1.jpg Coordenador do Morhan, Pedro Borges, luta para manter a história do bairro
28/01/2015 às 22:00

Na entrada do Lar João Edmilson Paes de Brito, o aposentado Firmino Paes Pereira, 78, observa atentamente a chegada da reportagem. O local, assim como 10 pavilhões localizados no Colônia Antônio Aleixo, Zona Leste, é abrigo dele e de outras 87 famílias que tem pessoas que possuíram ou ainda estão em tratamento contra a hanseníase, uma das doenças mais antigas da humanidade. O Dia Mundial de luta contra a Hanseníase foi comemorado no último domingo de janeiro e com programações que  se estenderam até esta semana.    A CRÍTICA ouviu relatos de superação, principalmente vozes que testemunham um importante período histórico da capital.

“O pessoal ‘aceita a gente’ mais. Aqui é o nosso lugar”, diz Firmino, que nasceu e contraiu a doença no município de Itacoatiara. Ao chegar à capital, na década de 60, ele conta que os hansenianos eram levados para morarem na “colônia”, nome que deu origem ao bairro. O local era afastado da cidade e os hansenianos viviam em pavilhões, pois devido à escassez de informações sobre a doença na época, muitos achavam que a enfermidade era contagiosa. 

“A direção do hospital manobrava quem era sadio e quem não era. Só quem era doente morava nas casas. Apesar de ser benquisto por todo mundo em Itacoatiara, quando descobriram que eu estava doente ninguém passava mais na frente da minha casa. Na época preferiam encarar uma onça a um hanseniano”, contou Firmino, que se curou da doença há mais de 40 anos.

Outra antiga moradora do Colônia Antônio Aleixo  é a aposentada Maria Ferreira dos Santos, 84. Ela vive há seis anos no Lar Azamor Gonçalves Pinheiro, o primeiro espaço construído em 2009 pelo governo para abrigar os portadores. “Quando eu cheguei aqui não tinha calçada, eram só os pavilhões. Passei muito tempo me tratando. Aqui tinha uma corrente de guardas pro povo não passar e criança não entrava de jeito nenhum. Depois de muito tempo acabou e eu ganhei minha casinha. Sou muito feliz aqui”, disse ela.

‘História de esvaindo’

Na antiga sede do Movimento de Reintegração das Pessoas Atingidas pela Hanseníase (Morhan-AM), o coordenador estadual, Pedro Borges, lamenta o desconhecimento da população sobre a rica história do bairro. O movimento existe desde 1983 e tem o objetivo de lutar a favor de políticas públicas especiais para hansenianos, inserindo-os no mercado de trabalho. O combate contra a discriminação também é outra bandeira levantada pelo Morhan. Segundo ele, uma das medidas tomadas pelo Morhan nos últimos anos para incentivar o conhecimento a respeito da doença, assim como a trajetória de vida dos hansenianos na capital, foi a troca de sede para o Clube de Mães Ruth Moura, localizado na avenida Getúlio Vargas, na Praça Tancredo Neves, no próprio bairro. Lá o grupo sonha em fazer um memorial histórico, porém dificuldades financeiras impedem que a lembrança continue “viva”.

“O andamento desse projeto está apenas no coração e na memória. Nós não temos fundos para fazer, por isso buscamos parceria de empresários, empresas, de uma ONG, ou de uma pessoa que se interesse pela nossa história. Tem pessoas que moram na nossa comunidade e não sabem da história porque ela está se esvaindo e se perdendo. São pessoas e histórias de vida que passaram por aqui”, finalizou.

Blog: Pedro Borges, Coordenador estadual do Morhan-AM

 Tem pessoas que moram na nossa comunidade e não sabem da história do bairro porque ela está se esvaindo e se perdendo. Tudo está se acabando e sendo trocado por edificações. Queremos manter viva as nossas memórias do que isso foi e o que é hoje em dia, o nosso objetivo é esse. São pessoas e histórias de vida que passaram por aqui”.

Homenagem

Os pavilhões  entregues pelo Governo do Estado aos hansenianos da capital homenageiam nomes importantes na fundação do bairro e foram escolhidos pelos próprios moradores. Como Raimundo Eufrásio das Chagas e Wilson Naziazeno Benigno França, que tiveram grande relevância no auxílio aos enfermos que habitavam o local.


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