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Manaus
SAÚDE LGBT

Pessoas trans têm serviço especializado em ambulatório público de Manaus

Ao menos 40 transgêneros realizam processo de transexualização na Policlínica Codajás, na Zona Sul. Coordenadores afirmam que projeto é ação de combate ao preconceito e intolerância 02/09/2018 às 08:30 - Atualizado em 02/09/2018 às 16:01
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Publicitário Yuri Cavalcante, de 25 anos, recebe consulta ao lado da mãe, a psicóloga Mônica Cavalcante, de 55 anos (Foto: Junio Matos)
Oswaldo Neto Manaus (AM)

Por vários anos, o publicitário Yuri Cavalcante, 25, pesquisou formas de se libertar de um corpo que não era o dele. Antes de iniciar a transição de gênero mudando as roupas, cortando o cabelo e tonalizando a voz, ele nasceu como Yona. Foi então que o grito por socorro ecoou mais alto e acabou sendo ouvido pela equipe do ambulatório do PAM Codajás, no bairro Cachoeirinha, Zona Sul de Manaus, o único da rede pública que oferece a hormonioterapia no Amazonas.

A cena era marcante para todos do ambulatório naquela sexta-feira, dia específico para os pacientes trans. O local faz o processo transexualizador há cerca de um ano, já recebeu em média 40 pacientes desde o início, mas todos relataram que nenhum nome da lista chegou acompanhado de algum parente para consulta.

No caso de Yuri, seria um passo delicado. Ele conta que jamais tomou a testosterona, medicamento indicado para homens trans. Para a mãe, a psicóloga Mônica Cavalcante, 55, estar ali era uma prova de amor pelo filho e de apoio no momento mais importante da sua vida.

“No começo fiquei assustadíssima, como todo ser humano. Eu sou mãe de três rapazes e veio minha menina que era Yona, e simplesmente ele disse que não aguentava mais, que ‘ia me frustrar’. Eu sou psicóloga, mas dentro de casa eu sou mãe, e o meu papel de mãe é aceitar a sua condição, pois isso não é uma escolha dele, é uma condição”, explicou ela, antes da primeira consulta de Yuri com a ginecologista Dária Neves, uma das coordenadoras do projeto.

A coragem de Yuri aliada ao interesse dele pelo assunto, entretanto, não foram os únicos fatores que o fizeram chegar tão longe. Os dois concordam que ainda há muito a se debater sobre o assunto na sociedade. O desconhecimento e principalmente o medo do preconceito ainda levam boa parte dos transexuais a não procurarem o serviço tanto na rede pública quanto privada.

“Eu tenho privilégio da família e da classe que me favorece. Tenho consciência disso. Se você é formado no ensino superior, e já viajou para fora, você ouve ‘ele é trans, mas no caso dele é diferente’. Temos que ser realistas, é muito triste o sofrimento que classes desfavorecidas passam”, disse Yuri.

Mônica acrescenta que a família possui papel fundamental durante o período de mudanças. “É um universo que nunca tive contato no consultório, mas eu tenho um filho trans masculino que se descobriu num corpo errado. Quando convivemos com ele, percebemos toda a angústia, o preconceito que se enfrenta. O teu papel como familiar, como mãe, os irmãos, é começar a dar todo um apoio e conhecer esse universo que a gente vê muito na família dos outros, mas não na nossa”.

Local oferece auxílio médico e psicológico

O transgênero é um termo “guarda-chuva” que abarca diferentes definições. Entre os transexuais, o indivíduo não se identifica com o sexo biológico. Os travestis, homens ou mulheres, não se sentem 100% pertencentes a nenhum dos sexo. Os crossdressers são pessoas que usam vestimentas ou adereços que são atribuídos ao gênero diferente do seu.

O projeto do ambulatório para transgêneros na policlínica PAM da Codajás iniciou oficialmente há um ano após acordo entre a Universidade do Estado do Amazonas (UEA) e o Ministério da Saúde (MS). Antes disso, o serviço era oferecido no setor de Ginecologia do PAM, mas identificou-se a necessidade de um local específico e que estivesse inserido na Política Nacional de Saúde LGBT, de 2011. O Processo Transexualizador no Sistema Único de Saúde (SUS) foi criado em 2008 e redefinido em 2013.

No ambulatório da capital, as pessoas trans recebem atendimento médico e psicológico por meio de uma equipe de profissionais, alunos em residência médica e técnicos. O projeto é encabeçado pela ginecologista e professora da UEA, Dária Neves, e pelo advogado e também professor Denison Aguiar. A médica, que atua há 25 anos na área, conta que a procura pelo serviço é maior por parte dos homens trans. Isso porque, segundo ela, a testosterona é repassada em receita. Para as mulheres, o hormônio a ser utilizado é o estradiol. Dependendo do paciente, a transformação pode durar em média dois anos.

Segundo Dária Neves, um dos fatores que incentiva o desequilíbrio é a oferta ilegal dos medicamentos no mercado para mulheres trans. “Muitas conseguem essa medicação com facilidade e estão utilizando de forma errada. É uma preocupação para nós”, diz ela.

Procura

Além de Yuri Cavalcante, os transgêneros que buscam a hormonização são de faixas etárias diversas. No espaço, ela conta que há pacientes de mais de 50 anos, embora a vida média de uma pessoa trans varie de 35 a 40 anos. A especialista comemora a ideia originada no campo acadêmico.

“Um dos maiores desejos que tenho é que um dia eu tenha um aluno trans na Medicina e que ele esteja aqui atendendo. Ele ou ela. Como cidadã, eu vejo que com a educação muitos desses preconceitos vão mudar”, declara Dária Neves.

Habilitação vai ampliar a equipe

O ambulatório está em funcionamento, mas ainda não tem a habilitação do Ministério da Saúde. Recentemente parecer do projeto foi aprovado no Conselho Estadual, um passo importante para que o local seja, de fato, referência na rede pública no processo de transexualização.

O professor da UEA e advogado, Denison Aguiar, e a médica Dária Neves explicam a importância do ambulatório como política pública (Foto: Junio Matos)

O advogado Denison Aguiar, que atua na parte jurídica do projeto, explica que a habilitação amplia o número de profissionais para formar uma equipe multidisciplinar com foco nesse público específico. “Os padrões sociais que nós temos estão sendo redefinidos. Precisamos de profissionais que tenham domínio dessa redefinição social”, enfatizou. “Não é só habilitar, é uma causa que abraçamos e acreditamos. Eu creio que é um instrumento de esperança para dias melhores”, completou ele.

Aprimoramento

A coordenadora da Gerência de Especialidades da Secretaria de Estado de Saúde (Susam), Márcia Murad, explica que até outubro a Susam deve receber a linha de cuidado dos profissionais com o perfil para atuar no ambulatório. Só depois disso será possível encaminhar a iniciativa para outro grupo chamado de Comissão Intergestores Bipartite (CIB), que deve aprovar o projeto e lançar para habilitação do Ministério da Saúde. Todo o processo, segundo ela, pode durar até um ano, porém o governo já estuda a demanda de medicamentos do ambulatório.

A segunda parte do projeto seria identificar os hospitais do Amazonas com capacidade para realizar a cirurgia de transição de gênero. Esta parte do plano de ação não tem previsão para ocorrer. Em todo o Brasil, apenas cinco unidades habilitadas pelo SUS oferecem as cirurgias e há uma fila de 300 transgêneros aguardando. Por enquanto, ela afirma que somente a habilitação deve trazer bons resultados.

“Tenho certeza que vai contribuir para normatizar o acesso a esse segmento e melhorar qualidade de vida deles. Será um lento para aqueles que têm conflito com a questão física e será um bom resultado para o público que necessita”.

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