Quarta-feira, 08 de Julho de 2020
PANDEMIA

Plano de reabertura tem apoio de comerciantes em Manaus

Público está otimista com o cronograma após meses de incerteza sobre a volta das atividades



homem_123456_DD89CA50-29EF-471F-8220-365A5720BEB9.JPG Ricardo se prepara para receber o público dentro de 15 dias. Foto: Junio Matos
29/05/2020 às 06:46

Após passar um bom período de portas fechadas por conta do avanço da pandemia de Covid-19 em Manaus, o autônomo Ricardo Rebouças, 47, começa aos poucos a reorganizar a sua pequena assistência técnica de aparelhos eletrônicos localizada no bairro Alvorada, na Zona Oeste da capital. Otimista com a possibilidade de retorno ao trabalho, depois de ter que se adequar à atividade em casa, ele destaca que dentro de duas semanas pretende reabrir o ponto de consertos.

É que na quarta-feira, o Governo do Amazonas apresentou um plano de retomada das atividades de  comércios e  serviços não essenciais. Pelo cronograma, o estabelecimento de Ricardo está no segundo ciclo e poderá reabrir a partir do dia 15 de junho.



“Eu cheguei a fechar as portas, mas ao mesmo tempo fiquei trabalhando em casa, atendendo os meus clientes, fazendo a entrega de produtos e, agora, me preparo para começar a minha atividade novamente. Agora, como uma data certa, a gente começa a se reorganizar de novo”, contou.

“Eu vim à loja ontem (quarta-feira) para fazer limpeza e hoje (ontem) já comecei a organizar os atendimentos, ligar para clientes, porque tem aquela cobrança de aprontar os serviços e o objetivo é quando for possível já retornar as minhas atividades normalmente”, disse ele, que se atenta para o uso de máscara de pano e álcool em gel.

A gerente de loja de roupas  Janaína Souza, 32, poderá voltar a trabalhar já na próxima segunda-feira. Lojas de vestuário, acessórios e calçados estão incluídas no primeiro ciclo do cronograma. Segundo ela, todos os funcionários estão animados com o retorno. “Ter um norte faz com que a gente tenha um planejamento para evitar demissões. Isso é bom. Nós aqui vamos adotar todas as recomendações para evitar riscos aos trabalhadores e aos clientes”, disse.

O barbeiro Natanael Xavier Soares, 27,  vai ter que esperar um pouco mais. Os salões de belezas e similares estão no terceiro ciclo e poderão abrir as portas com segurança somente a partir do dia 29 de junho. Ele diz que não conseguiu paralisar 100% as atividades porque precisa pagar o aluguel de R$ 1.500 e seus funcionários. Então, ele e seus colegas de trabalho tiveram que dar jeito de continuar funcionando mesmo em tempos de pandemia.  “Eu pago R$ 1.500 de aluguel e a dona não negociou. Simplesmente, ela me disse que se eu não conseguisse pagar que eu entregasse o ponto. Então, a gente é obrigado a trabalhar. Ou retorna ao serviço e enfrenta a pandemia ou você vai morrer de fome”, destacou.

Nas dependências da barbearia, que mantém as portas fechadas e só recebe um cliente por vez com hora marcada, era possível identificar a higienização do local, a disponibilidade de álcool em gel e a utilização de luvas e aventais.

“Eu acredito que cada um tem que se proteger, usando máscara, álcool em gel, inclusive, cada cliente que senta na cadeira para cortar o cabelo, nós fazemos a lavagem da cadeira. Então, não paramos totalmente. Agora, eu só atendo por agendamento e não deixo acumular pessoas na barbearia,  e assim vamos trabalhando”, declarou ele.

Setor da beleza defende antecipação da data para salões

Há um mês do retorno das atividades do setor, a presidente do Sindicato dos Salões, Barbeiros, Cabeleireiros, Instituto de Beleza e Similares de Manaus (Sisbisim), Antônia Moura de Souza,  defende a reabertura desse tipo de estabelecimento logo no primeiro ciclo.

“Pelos menos 60% dos salões trabalham a biossegurança, que é a esterilização e cuidados com os instrumentos. Estamos dentro das regras para reabrir, só precisamos nos adaptar às mudanças, como fazer  escala de serviço e trabalhar com agendamento para evitar aglomeração”, disse.

Nas ruas, muitos defendem fiscalização rigorosa das medidas de segurança para a retomada. “A gente vê muitas pessoas que não dão importância, andam sem máscara. Por um lado, é bom reabrir, mas é preciso ter consciência de que isso não é uma gripezinha, é uma doença séria e quem já perdeu pessoas para o vírus sabe que é muito difícil”,  disse a serviços gerais Maria Joiceane Farias, 30.

Condicionado ao número de novos casos

Conforme o projeto de retomada das atividades econômicas, anunciado pelo governador Wilson Lima na última quarta-feira, boa parte do comércio reabre no próximo dia 1º.

O plano de retomada prevê uma série de critérios para a reabertura em quatro ciclos: o primeiro a partir de 1° de junho; o segundo em 15 de junho; o terceiro em 29 de junho e o quarto a partir de 6 de julho. O avanço de um ciclo para outro dependerá do comportamento da curva de casos e capacidade de atendimento da rede de saúde pública.

O plano foi definido a partir do mapeamento e análise de indicadores sobre a evolução da pandemia e seus impactos, como disponibilidade de leitos e taxa de transmissão e óbitos por Covid-19 em Manaus. O planejamento contempla, ainda, a continuidade no investimento para ampliar a capacidade de testagem da população.

Um comitê formado por representantes da área da saúde, ciência e economia é quem continuará avaliando o desempenho dos indicadores a partir da reabertura das atividades.

A definição dos ciclos para retomada de atividades não essenciais considera critérios como número de trabalhadores e clientes/cidadãos em circulação; nível de aglomeração de pessoas; vulnerabilidade do segmento perante à crise econômica; e impactos na cadeia produtiva e na arrecadação.

O plano do governo  foi discutido nos comitês de atividades de várias áreas. A proposta também foi apresentada aos representantes dos demais poderes de Estado.

Cientistas recomendam adiamento

Em uma nota técnica solicitada pelo Ministério Público do Amazonas (MP-AM), nove cientistas afirmam que a reabertura dos comércios e igrejas prevista para 1º de junho e a retomada dos transportes intermunicipais e interestaduais aumentarão novamente o número de infectados e óbitos por Covid-19.

A nota foi divulgada ontem pelo MP-AM e é assinada por pesquisadores ligados à Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e outras instituições de ensino e pesquisa, com formação em diversas áreas.

Caso o número de óbitos e internações não diminuam expressivamente nestas quatro semanas, os estudiosos dizem serão inevitáveis ações rigorosas como o lockdown, devido à necessidade de controle da pandemia “para mitigar a perda de vidas e para que não se postergue uma retomada econômica muito tardia”.

Os resultados das análises apontam que tanto o isolamento social propiciado pelo fechamento do comércio, quanto a interrupção dos transportes intermunicipal e interestadual contribuíram para a redução dos casos e óbitos em Manaus.

“O trabalho desenvolvido pelos pesquisadores só confirma aquilo que o MP sempre defendeu, que é o isolamento social como medida necessária para preservação de vidas”, disse a procuradora-geral de Justiça, Leda Mara Albuquerque.

A nota afirma, ainda, que existem indicações fortes de uma elevada taxa de subnotificação de óbitos decorrentes da Covid-19, com pelo menos metade do valor total tendo causa atribuída a outras doenças.

Sobre suposta imunidade adquirida por pessoas que tenha contraído da doença, os dados estudados apontam que não existe atualmente uma imunidade de rebanho (efeito de proteção que surge em uma população quando um percentual alto de pessoas adquire imunidade mesmo sem ter tomado vacina) para Manaus e que a população está longe de adquirir tal imunidade.  Se nenhuma ação for tomada para conter o avanço da pandemia em Manaus, diz a nota, muitas vidas ainda serão perdidas, pois de 85% a 90% da população ainda é suscetível à Covid-19.

“A mensagem principal da nota técnica está na recomendação de precaução, o que implica em uma data de início do cronograma de flexibilização das medidas de isolamento mais adiante, ou seja, serem postergadas as medidas de flexibilização”, diz o professor Henrique dos Santos Pereira, da Ufam.

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Repórter de Cidades
Jornalista formada pela Uninorte. Apaixonada pela linguagem radiofônica, na qual teve suas primeiras experiências, foi no impresso que encarou o desafio da prática jornalística e o amor pela escrita.

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