Domingo, 16 de Junho de 2019
ALIMENTAÇÃO

Plantas Alimentícias Não Convencionais ganham espaço em feiras e restaurantes

Só na Amazônia, são pelo menos 3 mil espécies de PANCs não conhecidas. Em abril, Governo sancionou lei que determina criação de programa de incentivo ao modelo



pancs_84522F38-0956-44AD-BC9D-D1385AA09D4E.JPG Chef Débora Shornik elaborou um prato com maminha grelhada com Chaya, um arbusto frondoso de grande porte (Foto: Junio Matos/Freelancer)
05/05/2019 às 11:33

Alimentos saborosos, nutritivos, com grande potencial de cultivo, porém desconhecidos por grande parte da população. Estamos falando das Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANCs), difíceis de serem encontradas nas prateleiras de supermercados mas que, timidamente, vêm ganhando espaço em feiras de alimentos orgânicos e em restaurantes manauaras.

Chips de inhame assado, picles e pipoca de vitória-régia amazônica, bebidas feitas com flores de jambo e doce de rambutan são algumas das receitas produzidas com as PANCs. As folhas e os caules da ora-pró-nóbis, planta encontrada facilmente em quintais, podem utilizadas na culinária, seja em saladas, refogados, sopas, massas, tortas e patês.

O professor doutor Valdely Ferreira Kinupp, um dos maiores pesquisadores de plantas não convencionais no Brasil e criador da sigla, explica que existem incontáveis delícias que podem ser cozinhadas com frutas, legumes, tubérculos, tuberosas e com as hortaliças incomuns. Só na Amazônia, são pelo menos 3 mil espécies de PANCs não conhecidas. “Costumo dizer que a a monocultura no campo leva a monotonia na cozinha. Por exemplo, temos frutas excelentes da região mas insistimos em servir nos cafés da manhã o melão, melancia e abacaxi”, frisa.

Entre as frutas não convencionais, o pesquisador destaca a moela de mutum, que segundo ele é totalmente desconhecida dos fruticultores, o pajurá-de-racha, sorva da mata, o mapati, além dos vários tipos de castanhas como a mamorana e munguba.

No grupo das folhosas, Valdely lembra da capeba, bertalha, picão preto amazonico e a excêntrica urtiga, uma hortaliça saborosa, nutritiva, medicinal, rústica, e versátil na cozinha, segundo as próprias palavras do professor.

“Temos um potencial imenso e o Amazonas está bem atrasado em relação a isso. O turista estrangeiro, quando chega, quer comer algo da região e não encontra. Claro que temos a pupunha, o tucumã, o açaí, mas o que observamos é que são servidos em pouca quantidade em nossos restaurantes”.

Para o pesquisador, falta subsídio para o plantio de tucumã, cupuaçu e da pupunha, que além do fruto, também pode ser extraído o palmito. “Precisamos de fomento e financiamento quanto ao estímulo técnico. Precisamos trabalhar muito mais com a natureza, com o solo, biomassa amazônica e menos com calcário, adubo sintético e sementes transgênicas”.

Lei de incentivo

Em abril, o governador Wilson Lima sancionou a Lei 4.813/2019, que determina que o Poder Executivo crie um Programa de Incentivo ao Cultivo e à Comercialização de Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANCs) no Estado do Amazonas.

O programa deve incentivar o crescimento da agritucltura familiar por meio do processo de transição agroecológico. De acordo com o professor Valdely Kinupp, esse foi um passo importante, mas que precisa ser estudado e implementado de fato. “Temos que discutir e deixar claro onde vai estar a isenção de impostos por exemplo que a lei determina. Pois o pequeno agricultor já é isento”.

Kombuchas e conservas de PANCs

As Kombuchas, um tipo de refrigerante natural, são feitas com flores de jambo, limão cayano, pepinos e outras ervas​ (Foto: Divulgação)

Há 13 anos trabalhando com pancs, o agroecologista Alexandre Vitor é um dos empreendedores do setor. Ele processa os alimentos e prepara pratos sob encomenda para eventos ou aniversários. O carro-chefe é a Kombucha, uma bebida fermentava obtida através de chá preto, saborizadas com frutas PANCs. “É semelhante a um refrigerante, só que completamente natural”. Ele também produz conservas de palmito de mangará, doce de cupuaçu com caroco, além de fermentar vegetais.

Assim como os demais pesquisadores, cultivadores e consumidores das plantas não convencionais, Alexandre acredita que falta mais investimento e treinamento para a área. “Falta treinar engenheiros e dar mais assistência não só na agroecologia, mas na agricultura familiar para que tenhamos mais oferta na variedade e qualidade”.

Ele também acredita que falta divulgação, para que cozinheiros e nutricionistas incorporem o conceito no dia-a-dia, nas cantinas das escolas e empresas. “É preciso investir num estudo e produção dessas plantas para que possamos desenvolver cada vez mais produtos”.

Quebrando a monotonia

Curiosidade é o que faz os clientes pedirem um prato que, ao invés de couve refogada, utiliza a chaya - um tipo de arbusto facilmente encontrado em quintais e feiras - como acompanhamento. No Restaurante Caxiri, localizado no Centro de Manaus, as Plantas Alimentícias Não Convencionais fazem parte da maioria dos pratos servidos pela Chef Débora Shornik, que trabalha com gastronomia há quase 20 anos.

Entre os pratos, estão a maminha grelhada com chaya e o pirarucu fresco com pirão de tucupi e urtiga, que são os queridinhos do estabelecimento, no mercado há três anos.

Débora conta que a ideia de incorporar as PANC nas receitas surgiu com a vontade de diversificar, quebrar a monotomia alimentar e ainda ser um restaurante referência em sustentabilidade. “A grande maioria das pessoas recebe muito bem. Por muitas vezes existe um estranhamento inicial, uma torcida de nariz que a gente banca e dá certo”, comenta a chef. Boa aceitação Segundo Débota, a boa aceitação acontece de forma natural depois da recusa inicial. “Isso acontece por causa da maneira convencional que incorporamos as PANC dentro das receitas. Poderia ser uma couve refogada acompanhando uma carne com baião, por exemplo. Mas preferimos utilizar a Chaya”, explica.

O restaurante também serve sardinha crocrante com vinagrete de banana e moringa, isca de pirarucu empanada em tapioca, banana frita e urtiga, moqueca de banana pacovã ao leite de castanha com legumes assados, ora-pro-nóbis e jambu. O restaurante fica localizado na Rua 10 de Julho, ao lado do Teatro Amazonas.

Repórter de A Crítica

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